“Coração de Lutador”: o custo da glória e a desconstrução de um herói

Um estudo brutal, honesto e comovente sobre o preço da fama e da força.
14 de outubro de 2025
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Dwayne “The Rock” Johnson é a estrela do filme. Fonte: reprodução.

The Smashing Machine (2025), em português Coração de Lutador, filme do diretor, ator e roteirista Benny Safdie – a outra metade do duo dos “irmãos Safdies” com Josh — disseca o mito da força — tanto física quanto emocional — dentro do mundo volátil e violento das artes marciais mistas (MMA). Baseado na história real do norte-americano Mark Kerr – e bebendo bastante no documentário homônimo de 2002 –, um lutador quase invencível e atormentado que dominou o cenário do MMA no final dos anos 1990, o filme vai além da mera biografia: torna-se uma meditação sobre autodestruição, identidade, relacionamento e as feridas invisíveis por trás do espetáculo.

Com o nosso famoso Dwayne “The Rock” Johnson estreando no drama em uma das atuações mais vulnerável de sua carreira e Emily Blunt oferecendo um contrapeso como sua namorada Dawn, Safdie constrói um retrato tão brutal quanto humano do universo, na época, anos 80 e 90, quase sem regras do MMA.

Um tipo diferente de filme de luta

A estreia solo de Safdie na direção marca uma ruptura decisiva com o ritmo predominantemente eletrizante dos dramas esportivos convencionais. Produzido pela A24 e filmado majoritariamente em 16 mm, com inserções em 70 mm e trechos em estilo VHS – o que ajuda muito na viagem aos anos 90 – The Smashing Machine adquire uma textura que espelha a instabilidade de seu protagonista e a frustração atrás da docilidade aparente de Mark.

Ambientado nos primórdios do MMA — muito antes do UFC (Ultimate Fight Championship) se tornar uma potência corporativa no esporte —, o filme mergulha em uma era de caos, dor, abuso de drogas e sangue com forte ambiguidade moral. Safdie recusa-se a romantizar o esporte ou seus personagens. Sua câmera permanece frequentemente fora do ringue, observando em vez de glorificar e romantizar a luta. Nós vemos o mundo de Kerr de forma fragmentada em quartos de hotel mal iluminados, academias com luz fluorescente, corredores de hospital estéreis e quase insalubres. Essa abordagem distante impede que o foco do espectador se dirija ao puro consumo da violência como entretenimento e o obriga a encarar seu custo psicológico.

Tecnicamente, o filme é bom. O uso de diferentes formatos de película confere ao longa um aspecto quase documental — autêntico, instável e imediato. A presença de lutadores reais, como Ryan Bader e Bas Rutten, reforça essa sensação, borrando as fronteiras entre ficção e realidade. Contudo, em alguns momentos, o ritmo é irregular, e o distanciamento da câmera pode gerar uma frieza emocional exagerada. Para quem espera o dinamismo narrativo típico de filmes esportivos, essa abordagem pode soar estranha e até enfadonha. Mas é exatamente nessa recusa ao espetáculo que Benny Safdie aposta. Seus momentos mais violentos não ocorrem dentro do octógono, mas no silêncio — na repetição do sofrimento, no desgaste das relações, no eco vazio após os aplausos. A coragem do filme está em não querer entreter.

A transformação de Dwayne Johnson

Claramente, a maior (e mais aguardada) revelação do filme é o próprio Dwayne Johnson. Conhecido por sua presença carismática e heroica nas telas em filmes não raramente direcionados “para toda a família”, The Rock – como o ator e ex-lutador profissional era conhecido em sua época nos ringues de wrestling – resolveu dar uma guinada em sua carreira. Aqui ele abandona o mito da invencibilidade para encarnar a fragilidade de Kerr com vulnerabilidade. Sua transformação física é menos sobre músculos e mais sobre sua postura — a maneira como carrega o cansaço, o olhar vazio da dependência, o tremor contido antes de mais uma injeção para amortecer a dor ou o colapso emocional iminente.

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Ao contrário de seus papéis até então, o Kerr de Johnson é um homem perdido: adorado pelos fãs, explorado por empresários e cada vez mais alienado de si mesmo e de seus objetivos. Percebemos ainda uma atuação muito constrita de Dwayne em alguns momentos, um lapso comum em quem está adentrando somente agora o terreno do drama. Sua relação com Dawn – a namorada interpretada por Emily Blunt que não raramente nos tira do sério, mas também nos comove – serve como uma espécie de âncora emocional de Kerr, colocando o amor ora como força de salvação, ora como fonte de destruição. Blunt evita sentimentalismos e oferece uma performance quase sempre eficiente, colaborando com uma textura emocional mais rica ao longo do filme.

A esmagadora máquina da dor

The Smashing Machine/Coração de Lutador desmonta o arco tradicional de triunfo e glória que domina muitos filmes de luta. Onde obras como Rocky (1976) ou Warrior (2011) constroem catarse por meio da vitória, Safdie expõe a engrenagem que esmaga seus protagonistas. O título — apelido real de Kerr — funciona como metáfora dupla: a “máquina” não é apenas o corpo do lutador, mas também o sistema que o consome e o descarta quando ele deixa de vencer. Safdie prefere beber em dramas como The Fighter (2010), Iron Claw (2023) ou The Wrestler (2008) ao narrar uma trajetória nada glamorosa nos bastidores do ringue. O diretor explora o vício e as relações familiares despedaçadas com um tom ainda mais frio e mais observacional que seus predecessores.

A dependência química de Mark é retratada não como fraqueza moral, mas como sintoma de uma desorientação mais profunda. As cenas mais silenciosas — Kerr encarando o espelho, manuseando analgésicos, ensaiando sorrisos para os fãs — são as mais devastadoras. Temos aqui um homem dividido entre o mito e a materialidade, entre o corpo público e a ruína privada. A direção contida de Safdie dá espaço para que essas nuances respirem, permitindo que a dor de Johnson se torne quase palpável, mesmo que às vezes o mergulho no drama pessoal com a namorada e algumas cenas sejam sutis até demais, o que pode parecer abrupto ou pouco explorado para nós, espectadores.

The Smashing Machine /Coração de Lutador nega qualquer fechamento — suas batalhas são psicológicas, e suas vitórias, efêmeras. Ao retratar o MMA em seus dias iniciais e caóticos, o filme aproxima-se mais do realismo brutal de Touro Indomável (1980) do que do espetáculo estilizado de produções modernas. Contudo, enquanto Scorsese mitificava a raiva de Jake LaMotta, Safdie desmitifica a dor de Kerr. Não há gestos grandiosos aqui – fora uma ou outra porta destroçada — há apenas um homem preso em ciclos de autodestruição, performance e dependência.

O campeão sem o largo sorriso de The Rock

 The Smashing Machine /Coração de Lutador foi amplamente elogiado pela crítica por sua ousadia artística e pela atuação transformadora de Johnson, embora seu desempenho nas bilheteiras tenha sido modesto até agora. Para o público acostumado a narrativas triunfais, o filme pode ser decepcionante, ainda assim, seu impacto emocional é bastante forte.

Dwayne Johnson carrega bem o filme, e como uma primeira tentativa, ele entrega um bom resultado dramático. No longa, a vitória é uma ilusão. O que emerge é o retrato pungente de um homem que consegue derrotar todos os seus adversários — menos a si mesmo. Benny Safdie optou por desmontar o mito do herói atlético e revela o ser humano fraturado que existe por trás da glória.

Ao contrário da maioria dos filmes de luta que celebram a superação, esse mostra suas consequências. Lembra-nos de que os corpos mais fortes muitas vezes escondem as almas mais frágeis e que os corpos sofrem e sucumbem ao abuso repetitivo. Ao fazer isso, ele transforma a arena do MMA em um espelho: refletindo não apenas o preço da glória, mas a silenciosa tragédia de ser humano. Não é um filme para todos, mas permanecerá com aqueles dispostos a olhar além dos hematomas.

The Smashing Machine /Coração de Lutadorestreou nos cinemas brasileiros em 02 de outubro.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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