Chega ao Brasil livro sobre Gino Bartali, o ciclista que desafiou o fascismo

Alberto Toscano conta como o ciclista Gino Bartali salvou centenas de judeus durante a Segunda Guerra. Ele usou sua fama - e sua bicicleta - para enganar os fascistas.
20 de junho de 2025
Fausto Coppi e Bartali em 1940.
Fausto Coppi e Bartali em 1940. Foto: Wikimedia Commons.

Lenda do ciclismo italiano, com vitórias no Giro d’Italia e no Tour de France, Gino Bartali poderia ter passado à história apenas como um dos maiores atletas do século XX. Mas o livro Um ciclista contra o nazismo, de Alberto Toscano, que acaba de ser publicado no Brasil pela Editora Amarilys, revela como Bartali resistiu ao fascismo e ajudou a salvar muitas vidas durante a Segunda Guerra Mundial.

Publicada originalmente na França, a obra traça a trajetória de Bartali desde sua juventude em Florença até os anos de glória no ciclismo europeu. Toscano, jornalista e correspondente italiano radicado em Paris, reconstrói a narrativa da vida de um herói improvável, que preferiu o silêncio à autopromoção.

Ocupação nazista

No verão de 1943, durante a ocupação nazista na Itália, Bartali integrou, a pedido do cardeal Elia Dalla Costa, uma rede clandestina de ajuda a judeus e perseguidos políticos. Aproveitando a liberdade de circulação que sua fama lhe proporcionava, ele percorreu centenas de quilômetros transportando mensagens, documentos e fotografias escondidas no cano da bicicleta. Com esses papéis, famílias inteiras puderam falsificar identidades e escapar da deportação para campos de extermínio. Seu treinamento profissional servia como disfarce.

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Segundo a Enciclopédia do Holocausto, mesmo diante de riscos crescentes, Bartali manteve sua missão secreta. Ele conseguiu enganar os postos de controle com sua fama e carisma, alegando que a bicicleta não podia ser tocada por conta de ajustes técnicos. Chegou até a abrigar uma família judia em sua própria casa. À medida que a guerra se intensificava e as corridas eram canceladas, seu disfarce se tornava mais frágil.

Em julho de 1944, Bartali foi interrogado por autoridades fascistas em Florença, mas escapou graças à intervenção de um antigo superior do exército. Sua bravura salvou vidas — e permaneceu desconhecida por décadas. Estima-se que, graças à sua participação na resistência, cerca de 800 judeus, incluindo várias crianças, tenham sido salvos.

Foi apenas em 2013, porém, 13 anos após sua morte, que o Estado de Israel o reconheceu como um dos “Justos entre as Nações”, honraria concedida aos não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus durante o Holocausto.

Alberto Toscano 

Alberto Toscano, nascido em Novara, em 1948, é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Milão e jornalista desde 1975. Desde 1986, atua como correspondente da imprensa italiana em Paris. Ex-presidente da Associação da Imprensa Estrangeira, Toscano é um dos jornalistas estrangeiros mais presentes nas emissoras de rádio e televisão francesas. Desde 1999, ele lidera o Club de la Presse Européenne, em Paris. Entre suas obras publicadas, destaca-se Sacrés Italiens!, lançado pela Armand Colin em 2014.

Bruno Leal

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas, justiça no pós-guerra e as duas guerras mundiais. Autor de "Quero fazer mestrado em história" (2022) e "O homem dos pedalinhos"(2021).

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