“Ataque dos Cães”: masculinidades contidas e incontidas  

Concorrendo em 12 categorias no Oscar 2022, filme dirigido por Jane Campion mostra homens que se protegem de si próprios, mas que, ironicamente, machucam a eles mesmos e os outros.

Ataque dos Cães é o filme com o maior número de indicações ao Oscar 2022. Foto: reprodução.

Em uma das primeiras cenas de “Ataque dos Cães” (The Power of the Dogs, 2021) uma das personagens principais, Peter (Kodi Smit-MacPhee), está colando flores amarelas em seu scrapbook, um tipo de álbum de recortes pessoais que fizeram sucesso durante a Era Vitoriana (1837-1901).

O scrapbook é uma ótima metáfora para o que veremos no decorrer do filme: uma reunião de diferentes tipos humanos que parecem recortados de seus mundos e são postos juntos, em contradição e tensão, no mesmo espaço. 

“Ataque dos Cães” se passa em 1925, nos Estados Unidos. Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) e seu irmão George (Jesse Plemons) são donos de um isolado rancho em Montana, na região das Montanhas Rochosas. A relação entre os dois começa a ficar estremecida quando George se casa com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), que se muda com seu filho, Peter, o do scrapbook, para o rancho dos Burbank. Phil fica muito incomodado com a situação e passa a implicar tanto com Rose, que passa a beber cada vez mais, e com Peter, que, por sua orientação sexual, sofre homofobia dos trabalhadores do rancho.

“Ataque dos Cães” nos mostra um mundo de masculinidades contidas e incontidas, que enganam e confundem o espectador. Todos escondem algo na trama, ninguém é si mesmo à luz do dia; só o são nas sombras, na encolha, quando ninguém está mais vendo. A trama mostra homens que se protegem de si próprios, mas que, ironicamente, machucam a eles mesmos e os outros.

Phil é inicialmente apresentado como um tipo ogro, bárbaro, sujo, amargo, cruel e homofóbico; mas logo depois conhecemos outro lado seu: ele sofre com a perda de um homem chamado Bronco Henry (que no início não sabemos se era um pai, irmão, amigo ou amante), vai se afeiçoando a Peter, é formado em filologia em Yale e parece ser um dos únicos no local a perceber o alcoolismo de Rose. Seu irmão George é apresentado como ponderado, educado, limpo e civilizado; mas logo depois vemos que ele é egoísta, ressentido e casa-se com Rose somente para impressionar a comunidade e seus pais – vê a esposa como troféu. Por fim, temos Peter, apresentado como afeminado, frágil, desprotegido e sensível; mas descobrimos que Peter é astuto, atento, tem curiosidades mórbidas e é capaz de ir às ultimas consequências para proteger sua mãe.

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Kirsten Dunst vive Rose, a cunhada que Phil tortura: Foto: Cross City Films/Netflix

As danças das personagens são ambientadas em um Estados Unidos que parece parado no tempo e de clima árido, um Estados Unidos que ainda não se tornou moderno por inteiro e que não lida bem com o passado – o rancho se encontra em uma relação conflituosa com os povos originários que vivem na região. O ar de Montana parece sufocante e essa sensação é ainda maior com auxílio de uma trilha sonora tensa e a divisão do filme em atos.

“Ataque dos cães” é dirigido por Jane Campion e baseia-se no livro “The Power of the Dog”, escrito por Thomas Savage e publicado em 1967. Foi indicado em 12 categorias no Oscar de 2022. Uma curiosidade: o nome do filme é uma referência ao Salmo 22:20: “Salva minha vida da espada, livra o meu ser do ataque dos cães.”

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

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