As últimas vitimas do Muro de Berlim

Conheça a história das três últimas pessoas que morreram ao tentar cruzar o Mural de Berlim, o maior símbolo da Guerra Fria.

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

Segundo estudo realizado pelo Centro de História Contemporânea de Potsdam e pela Fundação Muro de Berlim, pelo menos 136 pessoas morreram assassinadas, sofreram acidentes fatais ou cometeram suicídio após tentar cruzar o Muro de Berlim nos tempos de Guerra Fria. Um número expressivo e que, segundo especialistas, pode ser muito maior. Desses 136 casos de mortes comprovadas, três se destacam de forma trágica. Elas ocorreram a poucos meses da derrubada do muro, em 9 de novembro de 1989.

A primeira das últimas três vítimas do Muro de Berlim foi Ingolf Diederichs, alemão de apenas 24 anos. Diederichs tinha decidido escapar da Alemanha Oriental (comunista) pulando de um comboio da linha de trem S-Bahn. A escolha tinha sido bastante calculada, afinal de contas, em certo ponto de seu traçado, esta linha ficava muito próximo da Berlim Ocidental. Para ser mais exato, aproximadamente 20 metros. Era tão próxima que as autoridades do lado oriental aumentaram o muro neste trecho em quase seis metros. O plano de Diederichs era utilizar uma escada de madeira para subir no trem e, em seguida, pular para o lado ocidental. No dia marcado para a fuga, 13 de janeiro de 1989, as coisas não saíram como planeada, contudo. Diederichs teve que pular do trem em movimento. Seu corpo ficou preso ao vagão e acabou sendo arrastado por vários metros. O rapaz não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo poucos minutos depois.

Corpo sem vida de Winfried Freudenberg sendo retirado por funcionários do governo da Alemanha oriental. Foto:
Alliance/dpa

A segunda morte aconteceu no dia cinco de fevereiro daquele ano. O barman Chris Gueffroy tinha 20 anos e – como outros jovens de sua idade – decidiu cruzar o muro para fugir do serviço militar obrigatório na Alemanha Oriental. Gueffroy tinha escutado uma conversa entre guardas da fronteira sobre a revogação da ordem de tiro contra aqueles que tentassem cruzar o muro. Parecia o momento ideal para a fuga. Gueffroy e um amigo esconderam-se em um jardim próximo a fronteira e quando a noite caiu tentaram escalar o muro com uma escada. O alarme disparou e pelo menos dez disparos foram escutados por testemunhas. Os dois rapazes foram atingidos. Gueffroy morreu em minutos e seu amigo, ferido, acabou preso. Nos dias seguintes, o Ministério de Segurança do Estado (Stasi) encobriu o caso e a família acabou obrigada a publicar nos jornais da época um anúncio referindo-se ao assassinato como um mero acidente.

Gueffroy foi a última pessoa assassinada tentando cruzar o Muro de Berlim. Mas não foi a última pessoa a morrer tentando a travessia. Haveria ainda mais um caso, talvez o mais insólito de todos. Winfried Freudenberg, 33 anos, vinha planejando por longos meses a sua fuga do lado oriental através de um balão de ar quente, junto com a sua esposa. Em 8 de março, a polícia soube de sua intenção e Freudenberg entrou sozinho no balão, que caiu algumas horas depois, ocupando o seu ocupante solitário. A oito meses da derrubada do Muro morria o último homem a tentar vencê-lo.

Sonhos, Pesquisas e Memorial

Muro-de-Berlim
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Em suas quase três décadas de existência, o Muro de Berlim foi o maior e o mais ameaçador símbolo da Guerra Fria. Uma metáfora concreta da divisão do pós-guerra com 43 quilômetros de extensão. Era controlado 24 horas por dia por soldados armados, 300 torres de observação, grades eletrificadas e cães treinados para matar qualquer aventureiro que tentasse pulá-lo. Para os alemães, porém, o Muro de Berlim tinha ainda significados pessoais. O muro separava famílias, partia propriedades, instigava o sonho de jovens (os que mais tentaram cruza-lo) e personificava a repressão da ditadura da Alemanha Oriental. Por isso, tantas pessoas tentaram cruzá-lo.

Pouco mais de 20 antes depois de sua queda, o Muro de Berlim tornou-se hoje objeto de estudo e de lembrança. Há memoriais e museus que expõem datas, números, fragmentos do muro e histórias de pessoas como Chris Gueffroy, Ingolf Diederichs e Winfried Freudenberg. O Memorial do Muro de Berlim, aliás, é uma referencia no que diz respeito a estudos sobre o tema. Além de programar exposições e eventos públicos, o memorial possui uma equipe de pesquisa formada por historiadores de renome na Alemanha, responsáveis por estudos de primeira linha. O site da instituição é bastante completo, disponibiliza gratuitamente artigos, pesquisa e está disponível em inglês: . Faça uma visita e conheça um pouco mais sobre o Muro e as suas vítimas.


Bruno Leal Pastor de Carvalho – Professor Substituto de Teoria da História no Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do Instituto de História pelo programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD), vinculado ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É doutor em História Social pela UFRJ (2015), mestre em Memória Social pela UNIRIO (2009) e especialista em História Contemporânea pela PUCRS (2010). Graduado em História pela UERJ (2006) e em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela UFRJ (2006). É fundador e editor do portal Café História, além de cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ (NIEJ). É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais. Seu campo de interesses inclui: holocausto, crimes de guerra, história pública digital e divulgação de história.


Como citar esse artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. As últimas vitimas do Muro de Berlim. (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/as-ultimas-vitimas-do-muro-de-berlim/. Publicado em: 26 mar. 2012. Acesso: [informar data].

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