O novo documentário de Petra Costa, lançado em 3 de julho nos cinemas brasileiros e no catálogo da Netflix no dia 14 do mesmo mês, não é exatamente um filme sobre religião. Também não é, estritamente, um filme sobre política. É a união de projetos de poder perigosos e totalitários.
O filme de Petra tem claramente uma ambição internacional e uma estética cuidadosa – o tal filme para gringo ver – mas, ao mesmo tempo, vemos que mantém a marca autoral da diretora: uma narração em primeira pessoa (com a voz especialmente doce de Petra), uma montagem não linear permeada por imagens fortes e simbólicas e um olhar que transcorre do íntimo ao histórico.
A Petra que vimos em Democracia em Vertigem (2019) retorna ainda mais cética, mais ferida, e talvez até um pouco menos esperançosa. Como já comentado em vários textos de pré-lançamento do documentário, a Plan B Entertainment, produtora fundada pelo ator Brad Pitt, é coprodutora da obra. A empresa já havia trabalhado com Petra em Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar, e voltou a colaborar neste projeto.
A função da Plan B no projeto foi atuar principalmente na viabilização internacional e distribuição global, mas também na coprodução executiva em parceria com outras empresas, como a Impact Partners e a brasileira Busca Vida Filmes. Portanto, a Plan B não só está envolvida como é um dos principais nomes por trás da viabilização internacional do documentário o que, principalmente no momento político em que vivemos, é mais um meio de chamar a atenção de outros países e desmanchar narrativas falsas sobre a tentativa de golpe que realmente sofremos.
Deus, poder e lavagem cerebral
Durante pouco mais de 90 minutos, o documentário mergulha no modo como o imaginário religioso evangélico — em especial o neopentecostalismo — se entrelaçou de maneira definitiva com o projeto político da extrema-direita no Brasil. O personagem-chave aqui é Silas Malafaia, que aparece em imagens de arquivo e entrevistas atuais com acesso impressionante, ao lado de figuras como Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Petra foi corajosa e teve estômago forte ao coletar desabafos que mostram a máscara de falsos profetas caindo em momentos de distração.
Mas ela também não tenta disfarçar sua inquietação diante do avanço teocrático sobre o Estado laico. Ela o confronta com poesia, medo e inquietude. O filme mostra como discursos apocalípticos, que antes habitavam apenas templos e livros sagrados, passaram a moldar decisões políticas dos últimos 30 anos e a legitimar o caos — em especial durante a gestão Bolsonaro e a pandemia de COVID-19. A escassez de oxigênio em Manaus e a negação da ciência são mostradas lado a lado com pregações incendiárias, revelando uma simbiose entre (má)fé, soberba e irresponsabilidade.
Produção primorosa
A montagem é assinada por uma equipe robusta e competente que inclui nomes como Victor Miaciro e Nels Bangerter, apostando em sobreposições, cortes bruscos, pausas longas e repetições para construir uma sensação de vertigem, com imagens de pinturas clássicas religiosas, apocalípticas e “boschinianas”. Há um uso potente de imagens de Brasília, de motociatas filmadas com drones, de igrejas que parecem fortalezas — tudo costurado por uma narração introspectiva e que beira o melancólico.
A fotografia de João Atala e Pedro Urano oscila entre o concreto político e o devaneio simbólico coletivo. A câmera muitas vezes observa de longe — mas quando se aproxima, não poupa ninguém. Nem o espectador. Essa abordagem nos faz trazer à mente o poder absurdo e abusador de líderes de seita ao estilo de Jim Jones. Já a trilha sonora de Rodrigo Leão é discreta, mas bem pontuada. Em vez de dramatizar os acontecimentos, ela os acompanha como um lamento contido. O som do silêncio e da respiração ofegante tem tanto peso quanto qualquer acorde e isso enfatizas as ações e nos força reflexões.
Petra em busca de respostas
O filme é, acima de tudo, um ensaio pessoal de sua autora. Petra Costa expõe sua própria sensação de impotência diante do avanço da intolerância religiosa no território brasileiro. Ela reflete sobre a morte do pai durante a pandemia, sobre sua tentativa de dialogar com os fiéis, e sobre como a linguagem bíblica foi sequestrada – e distorcida – para justificar uma guerra inevitável entre o bem e o mal onde o resultado almejado é o autoritarismo e o preconceito.
Em uma das cenas mais fortes, ela aparece em um culto lotado onde o pastor clama pela “guerra espiritual” contra os “inimigos de Deus” — enquanto a plateia responde em transe. Aqui de novo vemos o comportamento ao estilo de seita. A câmera não julga, mas também não perdoa – como deve ser em um bom documentário.
Já a diretora não assume uma posição “neutra” diante dos fatos e, pessoalmente, diante de todos os absurdos que tivemos que suportar no passado recente, considero esse um passo importante para a legitimidade e valor da obra. Ela opta por mostrar, com clareza, os riscos que o Brasil corre ao permitir que a política seja colonizada por dogmas religiosos e por visões de mundo binárias, paranoicas e punitivistas. E faz isso sem didatismo: ela oferece imagens, metáforas, sobreposições. Confia na inteligência de quem assiste e, ao mesmo tempo, não poupa esforços para desenhar para os desavisados que uma volta ao medievalismo de uma teocracia não serve para o século XXI.
Estética em sintonia com o abismo
A direção de arte é econômica, mas cumpre sua função. A escolha de cores, o uso do preto e branco em momentos pontuais e os trechos em câmera lenta reforçam a sensação de que estamos assistindo não a uma crônica do presente, mas a uma profecia que se cumpre. Um país que sonhou com a redenção e acordou no pesadelo do pecado cristão como única baliza moral de julgamento, acima do Estado laico e das leis.
Petra não recorre a entrevistas com ditos “especialistas”. Ela prefere os rostos suados dos cultos, os gritos dos comícios, os bastidores do poder. E isso, confesso, não é fácil de digerir, assim como os arrepios de pavor que sentimos com as palavras de violência tão facilmente proferidas por líderes religiosos de cima do pedestal construído com o dízimo do desespero do povo. Quando Lula surge em cena, é como contraponto simbólico — não como salvador, mas como testemunha do estrago devastador ocorrido. Já Bolsonaro aparece em imagens de arquivo com um olhar quase messiânico, cercado de seguidores e frases sobre “missão divina”. A megalomania da salvação proferida pelos perdidos.
O Brasil ontem, hoje e amanhã
Apocalipse nos Trópicos não é uma obra fácil de assistir. E nem deveria ser. É um filme que expõe o desespero, o fervor, a manipulação e o vazio de promessas que nunca serão cumpridas. Ele nos força a encarar o quanto a fé pode ser usada como ferramenta (e abuso) de poder — e como a política, quando perde seus freios institucionais, flerta perigosamente com o fanatismo. O filme explora o país como um corpo em transe, anestesiado por palavras sagradas que perderam seu sentido. Petra, mais uma vez, não nos oferece consolo — mas clareza. E isso já é muito importante.
Apesar de um ou outro momento mais hermético e da ausência de vozes dissonantes dentro do próprio campo evangélico – eu teria sugerido a participação do pastor e deputado federal do PSOL Henrique Vieira – o filme acerta ao ser fiel ao seu tema: um Brasil que substituiu o futuro por uma guerra santa. E que segue marchando para frente — mas com os olhos cravados no juízo final e na eterna culpa cristã que não educa e, sim, apenas força, por meio do medo, um comportamento acrítico e distorcido da realidade.

A obra não é perfeita – para quem se envolve muito com política e a realidade brasileira fora das telas, as análises parecem um pouco superficiais. Notamos a falta da variedade de “atores”, principalmente no campo neopentecostal, pois Silas Malafaia é apenas um entre muitos líderes evangélicos que afetam a política e as decisões no congresso nacional. Porém, é uma bela iniciação para quem, dentro ou fora do Brasil, ainda parece não ter percebido as mudanças e o retrocesso pelo qual estamos passando como seres humanos. Dessa forma, Apocalipse Nos Trópicos é, sim, uma obra essencial e preciosa.