“Anemone”: o silêncio, o legado e o último papel de Daniel Day-Lewis

Ator surge novamente na tela, em um filme coescrito e dirigido por seu filho, Ronan Day-Lewis.
1 de novembro de 2025
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A trilha de Bobby Krlic, reforça o ritmo interior do filme. Foto: reprodução.

Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que o retorno de Daniel Day-Lewis em Anemone é, antes de tudo, um evento cinematográfico: trata-se de um gesto de reconciliação entre arte e existência. Após anunciar sua aposentadoria em 2017, ao final da divulgação de Phantom Thread, o ator anunciava ter encerrado um ciclo de performances definitivas, nas quais a entrega física e emocional atingira um grau quase ritualístico. Quando, oito anos depois, ele surge novamente na tela, em um filme coescrito e dirigido por seu filho, Ronan Day-Lewis, o que se revela não é apenas o renascimento de uma voz artística, mas a materialização de uma reflexão sobre legado, família, identidade e a importância do silêncio, ecoando, de certa forma, o seu próprio gesto de desaparecimento. Dirigido por Ronan Day-Lewis, seu filho, e com o roteiro coparticipativo de Daniel e Ronan, o filme é um diálogo entre gerações.

Lançado mundialmente em 3 de outubro e chegando aos cinemas brasileiros em 17 de outubro, Anemone é uma produção britânica que tem nos seus créditos de produtor até Brad Pitt, e que, além do elenco estelar – fora o próprio Daniel temos ainda Samantha Morton e Sean Bean -, conta com a linda fotografia de Ben Fordesman (Santa Maud/2019), com uma trilha sonora por Bobby Krlic (Midsommar/2019) e montagem de Nathan Nugent (O Quarto De Jack /2015). Percebemos imediatamente que o longa, filmado no norte da Inglaterra, faz da névoa, da paisagem e do silêncio os seus principais elementos dramáticos.

O retorno ao silêncio

No debut de Ronan para as telas de cinema, Day-Lewis interpreta Ray, um homem isolado em uma cabana, cuja rotina é interrompida pela visita inesperada do irmão Jem (Sean Bean). A partir daí, a narrativa se desdobra em lembranças, ressentimentos e uma lenta e dolorosa reconciliação. Nada grandioso acontece, a aposta aqui é que justamente isso dá o tom intenso – e bastante incômodo – a Anemone. O drama nasce das pausas, dos gestos contidos, daquilo que o personagem — e o ator — já não precisam mais expressar em palavras.

O título Anemone – mantido na tradução para o português – remete à flor frágil que resiste em terrenos áridos. E essa é a imagem que nos acompanha pelo filme inteiro: Ray é uma espécie de anêmona humana, sobrevivendo ao tempo, às adversidades e à culpa. A câmera de Ben Fordesman, quase imóvel, observa o personagem com distância e respeito. Os planos longos, o intenso verdejante da floresta e a luz natural quase dissolvem o corpo de Day-Lewis na paisagem, transformando-o em parte do cenário, como se o ator, finalmente, encontrasse repouso dentro da cinematografia.

A trilha de Bobby Krlic, reforça o ritmo interior do filme. Há uma musicalidade do silêncio, em que cada som — o vento, o ranger do assoalho, o respirar cansado ou o som do fogo na lareira — ganha peso emocional. Tudo é lento, deliberado e essencial. Para mim, talvez até um pouco lento demais em alguns dos takes. Contemplação requer paciência e atenção.

O corpo em retirada

Desde Meu Pé Esquerdo (1989) e Lincoln (2012), Day-Lewis construiu sua reputação sobre a intensidade de sua atuação: vemos nele a total fusão entre corpo e personagem. Em Anemone, ele segue uma abordagem diferente. Ray não é um homem de ação, mas de espera. Sua atuação não explode; ela se retrai. O corpo, antes veículo da transformação, agora é espaço de observação. A grandeza de sua performance está na renúncia — no gesto que se contém, na palavra que não vem, no olhar que hesita. E Sean Bean, como seu irmão Jem, é a paciência em pessoa, com sua atuação discreta ele acompanha o ritmo e fornece compreensão e acolhimento. Temos aqui dois grandes atores em um belíssimo palco.

É impossível não ler Anemone como uma espécie de autorretrato. O ator que viveu da metamorfose em seus personagens agora interpreta a imobilidade – a quase inércia. Aquele que sempre buscou desaparecer em seus papéis parece, pela primeira vez, se deixar ver por trás da máscara cênica. Há algo de confessional na maneira como Day-Lewis ocupa o quadro, com um olhar que mistura cansaço, serenidade e entrega. E o fato de ter coescrito o roteiro reforça ainda mais essa intenção. Sua contenção ao atuar é o ponto alto do filme. O que antes era método — o rigor obsessivo com cada detalhe — agora se transforma em meditação. Anemone não é uma performance, é mais como um estado de espírito.

Paternidade, herança e metacinema

A relação entre pai e filho transcende o roteiro, o que, confesso, era o que eu esperava. Ronan filma Daniel com reverência e distância, como quem observa um mito que é, ao mesmo tempo, familiar e inatingível. O filme inteiro se organiza em torno dessa tensão: filmar o pai é confrontar a própria herança; atuar para o filho é entregar o legado. Enxergamos também em Brian (Samuel Bottomley) o estranhamento do distanciamento da figura paterna, quer seja como herói ou vilão.

Essa dimensão metalinguística faz de Anemone uma espécie de autoexame artístico. O cinema, aqui, é meio de transmissão e despedida. Ronan constrói uma direção austera, quase ascética, que evita o excesso de sentimentalismos. Daniel, por sua vez, responde com uma atuação que parece buscar redenção no silêncio. Mas não se engane, O longa não é um filme frio, bem pelo contrário, nos silêncios borbulham sentimentos em quase erupção. E aqui um aplauso para Samantha Morton, no papel de Nessa, que conseguiu encarnar com maestria o sofrimento silencioso de uma mãe.

Há cenas em que o rosto de Ray é filmado longamente, imóvel, até que o espectador perceba que está diante de algo mais do que ficção. É o próprio Day-Lewis refletindo sobre o que resta da arte quando o tempo apaga a urgência da criação. O resultado é de uma honestidade desarmante. E aqui, mais uma vez, a cinematografia nos oferece imagens brilhantes com close-ups.

Forma, tempo e espaço

A estética do filme é extremamente minimalista e rigorosa. A fotografia de Fordesman adota tons frios, cinzas, azulados e verdes úmidos nas externas, reforçando o clima de clausura da casa, quente e avermelhado, em contraste à amplitude da paisagem ao redor. A estética da cabana com seus objetos envelhecidos ou o mato que invade as janelas – tudo parece suspenso entre o passado e o presente, dando um ar de desprendimento material extremo.

A montagem de Nathan Nugent trabalha com longos intervalos, planos, elipses e pausas. O filme não apressa o espectador, mas sim, o obriga a respirar com o personagem. Em tempos de narrativas fragmentadas e efeitos incessantes, Anemone é uma provocação: um filme que exige paciência e contemplação. Talvez além do necessário, considero a duração de duas horas – até para o fã mais contemplativo – desnecessária.

O último gesto

Mais do que um retorno, Anemone parece ser um gesto ético. Em uma era de performances fabricadas e ritmo industrial, Daniel Day-Lewis escolhe a lentidão, o silêncio e o recolhimento. Sua volta não busca redenção nem aplausos — nos toca mais como uma despedida serena.

O filme pode ser visto como um testamento artístico, mas também como um convite à humildade. Day-Lewis parece não querer encerrar um ciclo com grandiloquência, e sim com leveza e discrição. A flor do título, frágil e resiliente, representa, no fim, o próprio ator: alguém que floresce no silêncio e resiste à necessidade de ser visto e festejado.

Ao final, Anemone nos deixa uma espécie de sensação de paz, hoje rara no cinema contemporâneo mainstream. É um filme sobre o fim, mas também sobre reencontro e o que permanece — o gesto, o olhar, a lembrança, a conexão, o elo familiar. Daniel Day-Lewis não retorna para provar nada ou como uma forma de nepotismo – sendo Ronan seu filho. Mas porque ainda há algo a dizer, e porque talvez, no cinema, o silêncio seja mesmo uma das formas mais puras de fala.

O filme já está nas plataformas de streaming para aluguel e compra.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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