O romance histórico surgiu no século XIX, na Europa, e relaciona fatos históricos com narrativas ficcionais, propõe interações entre figuras reais e personagens imaginados, sugere situações imaginárias em contextos verídicos. Diante dessa interseção, o romance histórico apresenta diversas possibilidades didáticas para que os professores de História abordem os conteúdos curriculares do Ensino Básico em sala de aula.
“A aproximação da história com a literatura é acima de tudo um diálogo e nos impõe desafios ao lidar com o texto literário, pode gerar novas problematizações, novas questões, novas perguntas para a história, gerando novas possibilidades. A história exposta em um romance histórico, por exemplo, traz experiência, emoção, sentido, um repertório que nos torna investigadores, levando-nos a buscar os sinais da história em meio à ficção”, reflete o pesquisador Antônio Carlos Negreiros Machado.
Machado criou uma sequência didática baseada no livro “Beija-me onde o Sol não Alcança”, da historiadora e escritora Mary del Piore. O material é resultado da dissertação “O Romance Histórico na EJA, em busca de uma leitura historiográfica”, defendida por Machado, em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A dissertação e a sequência didática podem ser acessadas aqui.
A pesquisa está dividida em três capítulos. O primeiro deles discute a obra literária e o potencial da literatura enquanto fonte histórica, principalmente nas aulas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O segundo capítulo é dedicado à análise da obra. Já o capítulo final traz um Guia Didático voltado para o professor e um suplemento com atividades para o uso do aluno.
“Tanto o currículo escolar como a obra escolhida permitem desenvolver reflexões sobre a história e podem servir como mote para atividades relacionadas ao ensino e aprendizagem da leitura e da escrita”, assegura Machado.
Literatura e História
“Beija-me onde o Sol não Alcança” conta a história factual de um triângulo amoroso entre a sobrinha dos riquíssimos Breves do Vale do Paraíba Fluminense, Ana Clara Breves (Nicota), o conde russo Maurice Haritoff, que veio ao Brasil aumentar a fortuna da família, e Regina Angelorum, uma escrava “de dentro”, nascida poucos dias depois da lei do ventre livre e mantida em cativeiro até a alforria em um festejo na fazenda Bela Aliança, com a presença de Joaquim Nabuco.
“A obra cita resistências coletivas, como a campanha abolicionista e as fugas sistemáticas apoiadas, por exemplo, pelos caifazes. Elas funcionam como pano de fundo social e político para os movimentos de resistência individual. Os três personagens principais cumprem papéis sociais determinados pela sociedade e o modo como eles reagem perante a vida exemplifica variadas formas de resistência”, analisa Machado.
Para escrever o livro, Mary del Priore utilizou cartas (algumas inseridas na íntegra) trocadas entre Nicota e Maurice e entre este e sua família e amigos para construir o enredo. O desenrolar da narrativa segue uma cronologia da História do Brasil do Segundo Império até os primeiros anos da República. O guia didático teórico-prático tem o objetivo de ser um facilitador das práticas pedagógicas do professor com ações adaptadas e coordenadas na leitura da obra, permitindo discernir a pluralidade histórica no período retratado do Vale do Paraíba do século XIX.
“Enquanto romance histórico, a obra proporciona conhecimentos históricos, entendimento das relações sociais, humanização dos personagens feitos ‘de carne e osso’ vivendo suas histórias de vida como qualquer um de nós, provocando identificação de espaços na localidade”, avalia Machado.