“Backrooms” (2026) não é ruim, e muito menos o pior filme deste ano. Ele é apenas decepcionante. Mas veja: isso não tem a ver com toda a enorme expectativa que se criou em relação ao grande fenômeno da internet; tem a ver com a sua falta de substância mesmo – o filme esbanja forma e deixa a desejar em conteúdo.
As Backrooms são uma lenda da internet sobre um lugar infinito e perturbador, composto por salas vazias, corredores sem fim, carpetes amarelos, paredes desbotadas e luzes fluorescentes que zumbem constantemente. Imagine uma sala de escritório convencional, mas completamente vazia, com luzes levemente piscando, um zumbido bem baixinho, carpete velho e filtro levemente amarelado e quente. Essa visão é a estética clássica de uma Backrooms, que se tornou uma espécie de novo gênero do terror quando um usuário, em 2019, publicou uma dessas imagens em um fórum online, sugerindo que, se alguém “saísse da realidade” por acidente (um conceito chamado noclip), acabaria preso nesse lugar.
A visão capturou a imaginação das pessoas e foi escalonando para uma ideia de universo paralelo em que a realidade banal do cotidiano de trabalho passa a ser mais assustadora do que os piores dos pesadelos com Freddy Krueger.
O ápice das Backrooms aconteceu em 2022, quando Kane Parsons, um jovem de apena 16 anos produziu o curta The Backrooms (Found Footage), que rapidamente viralizou. O sucesso foi tão grande que chamou a atenção do mais badalado estúdio do momento: o A24, que nos trouxe recentemente títulos como “Guerra Civil”, com Wagner Moura” (2024), e o lindíssimo “Aftersun” (2022). Em 2025, Parsons foi contratado para fazer um longa-metragem baseado em seu curta.
E eis que vem a decepção
O melhor estúdio do momento, um jovem cineasta e um novo gênero do terror. O projeto da A24 tinha tudo para ser um golaço. Financeiramente, o filme até que foi um fenômeno. Ele custou 10 milhões de dólares e arrecadou quase 400 no mercado global, de modo que o estúdio está sorrindo à toa. Mas falando apenas de cinema, o filme, acredito eu, decepciona bastante. Ele não é ruim. É apenas…vazio.
Quando uma passagem misteriosa surge no porão de uma loja de móveis, o proprietário Clark (Chiwetel Ejiofor, de “12 anos de escravidão”), que vive uma crise existencial após um difícil divórcio, é levado a explorar um labirinto infinito de corredores e salas desertas conhecido como Backrooms. À medida que desaparece nesse espaço que desafia as leis da realidade, sua terapeuta, Mary Kline (Renate Reinsve, de “Valor sentimental”), que também luta contra os seus próprios demônios, inicia uma busca para resgatá-lo, descobrindo que o lugar guarda horrores indescritíveis e está ligado a uma organização que há anos tenta compreender seus segredos.
Um dos grandes problemas do filme é a superficialidade. Nada é explorado a fundo. Nem os personagens, nem os estranhos Backrooms, nem a empresa que os descobriu, nadinha. O filme é absolutamente rasteiro ao contar a história, e isso faz com que ele desperdice tanto a excelente dupla de atores quanto as ricas possibilidades desse novo gênero (cá entre nós, um Stranger Things para adultos).
A partir de agora, spoilers
O backroom que Clark descobre em sua loja é um universo paralelo e escondido que se parece muito com o nosso, mas com referências meio desorganizadas, nonsense e, claro, assustadoras. Pelo que podemos deduzir, as pessoas que entram lá acabam enfrentando os seus próprios monstros. Seus inconscientes, permeados por medos, traumas e memórias difíceis, assumem formas que perseguem, assustam e matam seus próprios hospedeiros. É como um espelho deformado em que vemos nossa face mais oculta. Como explica Clark em certo momento do filme, a backroom materializa um lugar e pessoas a partir de lembranças vagas e bagunçadas – por isso, as pessoas parecem deformadas e os móveis fundidos.
O grande problema é que o filme não avança muito em nenhuma direção. Se você gosta de drama, o passado de Clark e Kline é apenas um pastiche de outras tramas do cinema. Se você é fã de ficção científica, não espere nada relacionado a ciência ou sobre a organização que, sem querer, descobre esse universo paralelo. Finalmente, se você é daqueles que curte terror, nem pense em ver qualquer monstro. Nem susto você vai tomar. Backroom é um filme bobo, moroso e perdido, que parece perdido dentro do próprio labirinto que propõe representar.
Não chega a ser uma perda de tempo. A estética é muito legal, Parsons parece competente (vamos ficar de olho) e há algumas boas ideias. E eu sempre dou atenção a qualquer coisa que a A24 produza, pois ele é, de longe, o melhor estúdio da atualidade, apostando em projetos promissores e gente criativa. Mas nem sempre a mágica do cinema acontece. Backroom tem muita estética e pouco conteúdo. A gente fica sempre esperando que aconteça alguma coisa e sempre esperando ser surpreendido com alguma informação, mas nada disso chega. Quando termina, não tem muito o que se falar sobre o filme, exceto um mero “mhé”. É por isso que digo: é a maior decepção do ano. Até agora.