Depois do tom otimista, convencional e heroico de Superman, o segundo filme da DC Studios no novo Universo comandado por James Gunn segue por um caminho um tanto inusitado. Dirigido por Craig Gillespie, roteirizado por Ana Nogueira e produzido pelo próprio James Gunn, essa Supergirl não se esforça para salvar o planeta Terra ou o universo de vilões. O filme mira em explorar temas como trauma, luto, vingança e identidade através da protagonista Kara Zor-El.
Em vez de funcionar como uma simples versão feminina do Superman, o filme faz questão de apresentar Kara como seu contraponto. Ela é impulsiva, cínica, agressiva, desiludida, emocionalmente marcada e muito mais disposta a recorrer à violência quando levada ao limite. O resultado é, possivelmente, um dos filmes de super-heróis mais incomuns que a DC produziu nos últimos anos — e também um dos mais divisivos aos olhos da crítica e publico.
Entre um faroeste espacial e uma roadtrip de autoconhecimento
O filme adapta a premiada HQ Supergirl:Woman of Tomorrow escrita por Tom King e ilustrada pela artista brasileira Bilquis Evely, e considerada pelo fandom a história definitiva da Supergirl na era moderna. Aqui Kara não cumpre o papel de personagem à sombra do Superman, ela aparece como uma protagonista completa, dona de suas próprias cicatrizes emocionais, visão de mundo e com uma complexidade moral.
Embora seja bastante inspirado na HQ, o filme evita seguir a estrutura tradicional dos blockbusters de super-heróis. Ele escolhe abraçar a narrativa de um faroeste de vingança ambientado no espaço e em diversos planetas. Mais especificamente, a história acompanha Kara e Ruthye em uma perigosa jornada por vários mundos alienígenas depois que uma tragédia destrói toda a família da pré-adolescente. Em muitos momentos, a narrativa se aproxima mais de Bravura Indômita (True Grit) ou The Mandalorian do que de um típico filme da DC, o tema aqui são os conflitos pessoais de Kara e Ruthye ao invés de ameaças capazes de destruir o universo, como em outros filmes do gênero.
Essa escolha mais intimista se torna uma das maiores qualidades da produção. A Supergirl de Gillespie e Nogueira não aposta constantemente em batalhas gigantescas repletas de efeitos visuais. O roteiro permite que seus personagens respirem, colocando a jornada emocional de Kara no centro da experiência. Muitos críticos destacaram essa abordagem como uma mudança refrescante dentro do gênero de super-heróis, embora nem todos tenham considerado que o ritmo mais lento funcionasse plenamente. Eu me junto ao grupo de quem curte essa abordagem, principalmente quando se trata de personagens femininas.
O roteiro de Ana Nogueira
Antes de se tornar uma das principais roteiristas da DC Studios, Ana Nogueira, filha de pai brasileiro, construiu sua carreira principalmente como atriz e dramaturga. Seu roteiro claramente evita repetir a trajetória clássica do Superman e apresenta Kara como alguém que se aproxima muito mais de uma anti-heroína. Kara é apresentada como uma personagem com compaixão, mas também disposta a ultrapassar limites morais.
O texto aprofunda os traumas emocionais que versões anteriores da Supergirl apenas sugeriam, como a vida de Kara em Argos após a destruição de Kripton, preservando algo da estrutura de coming-of-age da HQ. Porėm aqui começam as discordâncias da crítica. Eu me encontro no grupo que acha que o roteiro tenta desenvolver temas demais simultaneamente, como vingança, trauma, masculinidade tóxica, violência e redenção, sem conseguir aprofundar um dos cernes da história que é a construção da amizade entre Kara (Milly Alcock) e Ruthye (Eve Ridley).
A direção de Craig Gillespie
Craig Gillespie consolidou sua reputação como um dos diretores mais competentes de Hollywood quando o assunto são histórias protagonizadas por mulheres complexas. Ao longo de sua carreira, que inclui filmes como Lars and the Real Girl, Eu, Tonya, Horas Decisivas e Cruella, Gillespie demonstrou interesse constante por personagens imperfeitos e deslocados, muito mais do que por heróis tradicionais. Essa característica se encaixa perfeitamente em Supergirl.
Visualmente, vemos o filme misturar fantasia cósmica com a estética de pequenas cidades dos planetas visitados. A busca aqui é (re)criar uma visão que combina os quadrinhos clássicos da DC, o universo de Star Wars, o clima dos faroestes, Guardiões da Galáxia e até mesmo Mad Max – principalmente na estética Steampunk dos mercenários comandados por Krem (Matthias Schoenaerts).
Vemos o esforço (nem sempre com bons resultados) de Gillespie em garantir sequências de ação dinâmicas e visualmente impressionantes. Infelizmente temos a sensação de monotonia em coreografias já manjadas, criaturas pouco críveis e criativas, CGI por vezes questionável e cenas que nos dão a sensação de uma repetição das de outros filmes de super-heróis. Gillespie claramente estava muito mais interessado na vida emocional de seus personagens do que no espetáculo visual. Mas para que isso tivesse sucesso, o roteiro teria que ser muito bom, e não é.
A produção de James Gunn
Embora James Gunn não tenha dirigido Supergirl, sua influência criativa é clara em diversos aspectos da produção. Seu estilo pode ser percebido nos protagonistas emocionalmente feridos, em mundos alienígenas excêntricos e caricatos, no humor irreverente, em heróis moralmente imperfeitos, no tema da família construída ao longo da jornada e na utilização da música como pontuação da intenção e da personalidade dos personagens. Vale aqui a indicação da playlist oficial do filme que nos apresenta uma mistura que vai de Garota de Ipanema de Tom Jobim e Le Temps de l’Amour de Françoise Hardy a bandas indie como Eagles of Death Metal e – a minha predileta do momento – os britânicos da Wet Leg.
Milly Alcock carrega o filme nas costas
A meu ver Milly Alcock entrega a atuação que é o maior trunfo de Supergirl. Depois de conquistar reconhecimento internacional interpretando a jovem Rhaenyra Targaryen em House of the Dragon, a atriz incorpora uma Kara extremamente vulnerável por trás de sua personalidade sarcástica e rebelde. Alcock interpreta alguém profundamente marcado por ter sobrevivido à destruição de Krypton e carregado consigo o trauma de testemunhar a morte de inúmeras pessoas antes mesmo de chegar à Terra.
Sua Supergirl é impulsiva, emocionalmente imprevisível, divertida, furiosa e, em determinados momentos, até assustadora. É uma personagem que se diferencia completamente do Superman e ganha identidade própria. E aqui vale citar uma diferença importante entre os primos: enquanto Clark cresceu na Terra com os costumes humanos, Kara perdeu tudo já numa idade em que a saudade do seu planeta natal pesa muito. Como escutei bem pontuado por aí: Clark é um imigrante, Kara é uma refugiada. Mesmo entre os críticos mais duros quanto ao filme como um todo, a atuação de Alcock foi frequentemente apontada como o principal motivo para assistir ao filme. Para mim também é poder ver o cachorrinho Krypto fazendo suas bagunças e o Jason Momoa no papel de Lobo, apesar de alguns exageros que coloco na conta da empolgação do ator pelo papel.
Uma avalanche de críticas negativas
A reação negativa de grande parte do público e da crítica em torno de Supergirl nasce, na minha percepção, de diferentes fatores, e não de uma única controvérsia. Muitos fãs da DC esperavam uma aventura tão otimista quanto Superman, mas encontraram uma história mais sombria, lenta e moralmente ambígua e uma Kara que se distancia ainda mais da imagem de “boa moça” evitando também as tradicionais roupas justas e closes de câmera que vemos muito quando se trata de personagens femininas. Já os leitores da HQ se dividiram diante das mudanças realizadas no final da adaptação, especialmente nas escolhas feitas por Kara em comparação com a obra original de Tom King.
Tem ainda o fato de que o filme nunca decide completamente se deseja ser um drama sério ou uma aventura leve de super-heróis, produzindo momentos de certa irregularidade tonal, e isso dificulta a experiência para quem espera um transcorrer linear e padrão. É fato que Supergirl não alcançará o mesmo status de unanimidade e importância cultural do clássico Superman estrelado por Christopher Reeve. Trata-se de um filme imperfeito, por vezes excessivamente carregado de ideias e ocasionalmente dividido entre o estilo irreverente de James Gunn e o drama intimista conduzido por Craig Gillespie.
No final o conjunto da obra me agradou. A interpretação de Milly é sensacional e sua versão da Supergirl é fresca e em sintonia com a geração Z. Com certeza veremos mais dela não somente em um Supergirl 2 como também no proximo filme do Superman. O filme está em cartaz nos cinemas.