“Emergência Radioativa”: uma instigante ficcionalização do caso Césio-137

O maior incidente com radioatividade fora de usinas nucleares volta à ordem do dia com minissérie da Netflix.
20 de abril de 2026
"Emergência Radioativa": uma instigante ficcionalização do caso Césio-137 1
O que difere um documentário de uma série documental?

Foi numa aula de química do Ensino Médio que ouvi falar pela primeira vez da tragédia causada pela contaminação com Césio-137 em Goiânia nos anos 80. Nasci depois do ocorrido, nunca havia visto matérias de jornal ou televisão sobre a emergência radioativa. Mas o caso foi mencionado apenas en passant, sem esmiuçar os pormenores. Ainda bem que existe o streaming para voltar no assunto e dar a conhecer novamente um desastre como o Brasil nunca viu.

Dois jovens pegam um recipiente de chumbo num centro de radioterapia abandonado em Goiânia e o vendem num ferro-velho. Evenildo (Bukassa Kabengele), dono do estabelecimento, fica encantado com o objeto que brilhava no escuro e o leva para casa. Dias depois, com sintomas de mal-estar graves, a esposa dele, Dona Antônia (Ana Costa), leva aquela coisa desconhecida, mas que ela tinha certeza que estava envenenando a todos, para a Vigilância Sanitária.

A ida de Dona Antônia para o hospital acende um sinal vermelho para um médico que diagnostica aqueles sintomas como de contaminação por radioatividade. Ele telefona para seu amigo, o físico nuclear Márcio (Johnny Massaro), que está passando uns dias em Goiânia. Logo tem início uma megaoperação de descontaminação, isolamento de áreas e pessoas contaminadas e mitigação dos efeitos nocivos.

Concomitantemente, a delegada Marlene (Marisa Salles) tenta encontrar a resposta para a pergunta que não quer calar: quem deixou o material radioativo exposto, numa clínica abandonada, em vez de descartá-lo seguindo os protocolos de segurança?

Entre perguntas e respostas

Para explicar os conceitos complexos da física nuclear, Márcio dá exemplos e faz comparações que simplificam o assunto — como deveria acontecer em boas aulas de física. Mesmo com dom de ser professor, Márcio não quer seguir na carreira, apesar de estar sendo pressionado para tal pelo pai e pela esposa. As explicações são úteis e a minissérie nunca cai num didatismo que enjoe, ou pior, infantiliza o espectador.

Desconfiança e desinformação tornam a missão mais difícil. A desconfiança é até justificada: imagine ser forçado a sair de casa, ter sua rotina alterada, ir para triagem num estádio de futebol e de lá para uma ala isolada do hospital — tudo sem saber muito bem a razão por trás disso tudo. E aqui entra a desinformação, compartilhada por gente simples e autoridades que dizem querer evitar o caos — mas estão mais interessadas em não fazer a economia parar. Qualquer semelhança com a recente pandemia de COVID-19 não é coincidência.

Para conter a emergência, são chamados funcionários da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), entre eles o físico Benny Orenstein (Paulo Gorgulho) e o presidente da comissão, César (Emílio de Mello). Curiosamente, o ator Paulo Gorgulho também esteve no elenco do filme de 1990 “Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia”. No filme, protagonizado por Nelson Xavier e Joana Fomm, Gorgulho e o xará Paulo Betti interpretam os catadores que tiraram o material radioativo da clínica abandonada. Feito em uma época difícil para o cinema brasileiro, com a recente extinção da Embrafilme, o filme serve como uma prequel para a série, uma vez que foca na circulação do césio antes de ser decretada a emergência radioativa.

O que difere um documentário de uma série documental? Um documentário é um filme, de curta ou longa metragem, que preza por contar um fato real. Uma série documental muda o formato, agora em episódios, mas não o compromisso com a verdade. “Emergência Radioativa” não é nenhuma das duas: é uma ficcionalização, com personagens fictícios no lugar das pessoas que realmente passaram por aquele evento. Aí residem algumas críticas à minissérie, que não foi gravada em Goiânia e não ouviu os sobreviventes. Ao mesmo tempo, ela mereceu elogios por trazer de volta à conversa o cenário possível de um acidente nuclear e como, quase quarenta anos mais tarde, estamos ou não preparados para enfrentá-lo.

Cada episódio dura mais ou menos 60 minutos, mas a série é tão dinâmica que parece que acontece mais coisa nessa hora de projeção que em muitos longas-metragens inteiros. Todos foram dirigidos pela dupla Fernando Coimbra e Iberê Carvalho, ambos veteranos do audiovisual.

Assistir a filmes e séries pode ser um exercício radical de empatia. Você está lá sentado em frente à TV e, de repente, vem a dúvida: “e se fosse comigo”? Colocar-se no lugar dos personagens funciona em vários níveis em “Emergência Radioativa”. Você pode se colocar no lugar das pessoas contaminadas, enviadas para hospitais isolados sem respostas satisfatórias para suas perguntas. Você pode se colocar no lugar dos físicos, numa missão inimaginável e complexa, tendo de tomar decisões rapidamente com base não em certezas, mas sempre tendo a ciência como guia. Mas nem sempre a razão prevalece.

Se uma palavra permeia todos os episódios, é “indignação”. Ficamos indignados com as vítimas quando elas deixam a desconfiança tomar conta e escolhem não obedecer aos especialistas. Ficamos indignados pelas vítimas, abandonadas à própria sorte uma vez que são declaradas livres de radiação. Indignados com as autoridades, que estão só preocupadas em se livrar de qualquer responsabilidade. E, o mais importante, que deveria ser um ato constante: ficamos indignados com a ignorância, que deve ser sempre combatida para evitar novos desastres.

Letícia Magalhães

Letícia Magalhães

Historiadora e crítica de cinema. Contribuiu com sites como Filmes e Games e Leia Literatura. Mantém desde 2010 o blog Crítica Retrô, sobre filmes clássicos e antigos, e contribui para os sites Revista Eletrônica Ambrosia e Cine Suffragette, no qual é também editora. Foi vencedora do prêmio do Collegium do Festival de Cinema Mudo de Pordenone em 2021, escrevendo sobre o que mais gosta: cinema e história.

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