Debruçado sobre vasto material musical para seu novo livro sobre a Bossa Nova, o escritor Jeff Harris (na voz do ator Jeff Goldblum) se encanta, quase que por acaso, com o solo do pianista de um dos discos de Vinícius de Moraes. Ao pesquisar mais sobre o tal pianista, nada encontra. Seu nome era Tenório Jr. e está desaparecido desde 1976.
Esta é a premissa de “Atiraram no Pianista”, do diretor espanhol Fernando Trueba, ao lado do artista e designer, Javier Mariscal. Guiados pelo ímpeto do escritor em descobrir o que ocorreu com o pianista Tenório Jr., o espectador é conduzido a uma viagem no tempo, onde Rio de Janeiro e Buenos Aires sobrevivem às agruras da ditadura através do esplendor da música, no caso do Brasil, da Bossa Nova.
Tenório Jr. era um pianista de qualidade indiscutível e, segundo os depoimentos daqueles que conviveram com sua música, sua contribuição para o cenário musical e, mais especificamente, para a Bossa Nova, é inestimável. Tenório Jr. circulava em turnês com Vinícius de Moraes e Toquinho, colaborou com Tom Jobim e João Donato e se apresentava, junto a grandes nomes da música brasileira, no Beco das Garrafas. Seu desaparecimento é o episódio cinzento desta animação colorida, e perpassa a história da Bossa Nova, enquanto aborda a Ditadura Argentina.
Não é novidade a utilização do formato de animação em filmes para contar histórias duras e dramas de tragédias humanas. Ari Folman já nos havia brindado com o seu aclamado “Waltz with Bashir” (Valsa com Bashir, 2008) sobre a Guerra do Líbano de 1982, concorrente à Palme d’Or, em Cannes, e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Folman se volta para a animação como um recurso para ilustrar a sua memória da guerra e seus lapsos, e a combinação lúdica entre sonhos e o subconsciente.
O resultado seria, provavelmente, aquém do satisfatório, fosse o filme realizado de forma tradicional. No caso de “Atiraram no Pianista”, o diretor Trueba recorre à animação porque simplesmente não havia muito material relacionado ao desaparecimento de Tenório Jr. – e ele não queria que seu filme se tornasse um mar de depoimentos pouco sublinhados com imagens e sons. A escolha do formato resulta num documentário em animação com traços simples e cores exuberantes, com movimentos limitados e extremamente rico em detalhes. Uma animação que, aliada ao som dos instrumentos da Bossa Nova, recria a atmosfera da época e nos coloca dentro do Beco das Garrafas (com um copo de whisky na mão, como privilegiados a presenciar a revolução musical brasileira).
Ao longo do filme, descobrimos que Tenório Jr. desapareceu após se apresentar junto a Vinícius de Moraes e Toquinho, num estabelecimento em Buenos Aires. Tenório teria saído do hotel, na madrugada, para comprar um sanduíche e nunca mais voltou. De acordo com algumas testemunhas, foi sequestrado pela Marinha Argentina, torturado e assassinado, mesmo sem ter ligação alguma com a política brasileira ou argentina.
O período da Ditadura Militar na Argentina foi iniciado por Juan Carlos Onganía, em 1966, e passou pelos ditadores Roberto Marcelo Levingston e Alejandro Agustín Lanusse até 1973, que chegaram a modular o regime de forma similar ao que ocorria no Brasil. Após breve período de retomada de poder civil e o retorno de Perón, em 1976, um novo golpe militar se sucedeu. Dentre os anos de 1976 e 1983, cerca de 30.000 pessoas desapareceram na Argentina, ou nos termos dos próprios militares, foram “desaparecidas” – prática utilizada pelo poder militar para oprimir, desorientar e causar insegurança na população.

Tenório Jr. foi uma dessas pessoas (provavelmente por estar no lugar errado, na hora errada, morto apenas para que não houvesse provas). Num dos depoimentos mais marcantes, a então esposa de Tenório Jr. diz que, pelas leis brasileiras, ainda hoje é considerada casada, pois se não há corpo, não há crime, não há assassinato, não há divórcio, não há viuvez. Os filhos (eram 5) têm vagas lembranças do pai em casa, reunido com músicos e ao piano. Os netos não o conheceram.
Em certo momento do filme, os depoimentos de personalidades como Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Milton Nascimento, entre outros, dão o tom de homenagem merecida, mas acabam por não acrescentar tanto à essência da história. Enquanto outros momentos do filme emocionam e tocam a alma.
Na infinidade de filmes com temáticas relacionadas às ditaduras, seja no Brasil, na Argentina ou em outros países da América do Sul, “Atiraram no Pianista” destaca-se por sua animação colorida e impactante, uma história conhecida, mas que continua causando reflexões. Sua sonoridade nos leva de volta aos anos 70, aos bares e becos onde a música brasileira respirava em meio à atmosfera de temor.