Assim como muitas cidades centenárias do interior brasileiro, Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata mineira, teve sua paisagem e rotina influenciada ao longo dos anos pelo sistema ferroviário, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, com a extensão da Ferrovia D. Pedro II e a inauguração do ramal da Estrada de Ferro Leopoldina na década de 1870.
Desta forma, ao longo dos anos, parte do desenvolvimento urbano e industrial da cidade esteve ligada à linha férrea, além de também influenciar as dinâmicas sociais da região com a geração de empregos e migrações. Foi pensando nesta relação que a pesquisadora Giselli Maria Araújo de Souza Pereira desenvolveu um roteiro pedagógico, voltado a estudantes do Ensino Básico, com base na demarcação do “percurso de memória” ao longo da linha férrea, entre a região da Zona Norte e o centro urbano de Juiz de Fora, e na seleção de bens culturais que fazem parte desse entorno.
“Repensar o espaço urbano sob o prisma das mudanças, das permanências e das simultaneidades, entrelaçar diferentes perspectivas históricas e relacionar o local com o nacional e o universal possibilita a compressão de diferentes narrativas sobre o passado e o desenvolvimento do pensamento histórico-crítico sobre a cidade e seus elementos, bem como promove a capacidade de reflexão acerca das operações que envolvem temporalidade, memória e construção da própria identidade, a partir das convivências entre local-cotidiano, espaço-tempo e sujeitos-objetos”, explica.
O roteiro pedagógico é resultado da dissertação “Ensino de história pela cidade e educação patrimonial: ‘movimento que tem barulho de trem’”, defendida por Giselli, em 2024, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O material e a dissertação podem ser acessados aqui.

A pesquisa está dividida em três partes. No primeiro capítulo, a autora aborda a relação entre História e Memória, as políticas de patrimonialização, os conceitos de Educação Patrimonial e História Local e suas potencialidades para a construção do saber histórico no âmbito do Ensino de História na Educação Básica. O capítulo seguinte é dedicado a analisar a cidade como artefato e seus espaços como possíveis lugares de memória, além de apresentar o percurso patrimonializado que integra o cotidiano de educandos/as e educadores/as da região da Zona Norte de Juiz de Fora como uma possibilidade para o Ensino de História. No último capítulo, é apresentada a proposta pedagógica.
“A partir de um diálogo entre Educação Patrimonial e História Local, apresentamos ações educativas com vistas para a construção do conhecimento histórico e do olhar crítico sobre os lugares de memória da cidade, para o entendimento das políticas de patrimonialização, para a percepção de diferentes maneiras de ver o mundo e para a produção de imagens do passado que possibilite aos/às estudantes se orientar no tempo e no espaço”, define.
Educação Patrimonial e História
Para a pesquisadora, ao se pensar na construção do conhecimento histórico, a Educação Patrimonial, em diálogo com a História Local, pode inverter a lógica imposta pelos currículos tradicionais que continuam priorizando explicações estruturais para situações nacionais ou regionais, descartando as particularidades de cada região. “Tratando especificamente do potencial da educação para o patrimônio na Educação Básica, podemos destacar como esta pode contribuir para o reconhecimento dos sujeitos sociais de certas localidades como produtores de um saber, assim como dos bens culturais como produções culturais que se encontram inseridas em determinados contextos históricos-sociais associados à memória local”, argumenta.
Dentro desta perspectiva, Gisseli destaca que a linha férrea de Juiz de Fora pode ser utilizada como um ponto de interseção entre a Educação Patrimonial e a História. De acordo com a pesquisadora, além de atravessar uma parte significativa da cidade, o trem permanece, até os dias atuais, como um “elemento marcante, tanto na paisagem urbana quanto no cotidiano dos moradores de Juiz de Fora”.
Desta forma, o roteiro pedagógico desenvolvido envolve oficinas, roda de conversa, sugestão de visita mediada, realização de atividades coletivas, entre outras ações. “A proposição didática aqui apresentada convida os/as docentes e discentes a olharem para o que está próximo e para suas rotinas com o intuito de perceberem passados presentes nas marcas da ação humana no tempo e no espaço em que vivem, e de identificarem os sentidos, as inquietações, as memórias e as relações entre pessoas com esses lugares em diferentes temporalidades”, afirma.