A favela visível: o olhar fotográfico de Anthony Leeds

Em ensaios fotográficos feito na década de 1960, no Rio de Janeiro, antropólogo norte-americano registrou um cotidiano marcado por remoções de favelas. Confira o artigo exclusivo de Cristiane d’Avila, pesquisadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

Por Cristiane d’Avila

Dentre algumas definições, remover significa “fazer desaparecer”, “colocar fora do caminho”, “afastar”.1 O antropólogo norte-americano Anthony Leeds (1925-1989), entretanto, subverteu a lógica e a etimologia do verbo. Em ensaios fotográficos realizados na década de 1960, fez da negação documento, testemunho e presença ao registrar, em fotos emblemáticas, o cotidiano de uma favela do Rio de Janeiro que virou parque: a Catacumba, na Lagoa, área nobre da Zona Sul da cidade. 

Morador das comunidades do Jacarezinho e do Tuiuti durante sua extensa pesquisa (e de sua mulher, Elizabeth Leeds)2, por mais de uma década, Leeds clicou essas e outras favelas, como a Macedo Sobrinho, antes localizada no Humaitá, e a Catacumba, na Lagoa.3 O fez, sobretudo, com viés antropológico, sensível aos moradores e avesso aos estereótipos da marginalidade e da ruralidade colados a essas populações, expurgando pela lente perspicaz do fotógrafo os rótulos que a sociedade, ora piedosa, ora simpática, mas quase sempre cruel, lhes impingia. Seus estudos resultaram na obra A sociologia do Brasil urbano, reeditada pela Editora Fiocruz em 2015 e considerada um dos mais importantes estudos sobre favelas e habitações de baixa renda já realizado.

Anthony Leeds - Catacumba
Anthony Leeds (1925-1989). Rio de Janeiro – Catacumba – Lagoa. Placa: Oficina de rádio São Judas Tadeu – 1962 – 1965. Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz.

O arquivo fotográfico de Leeds, doado em 2014 à Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) por Elisabeth Leeds, é composto por 790 ampliações em papel (preto e branco), algumas centenas de negativos, além de cerca de 930 slides coloridos. Esse arquivo foi somado ao textual (doado à COC em 2007), que contém documentos sobre suas pesquisas empreendidas no Brasil e na América Latina. Segundo a chefe do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, a historiadora Aline Lopes de Lacerda, as fotografias em papel, conjunto de maior volume no arquivo, na sua totalidade relacionam-se às pesquisas realizadas nos anos de 1960, com forte concentração nas favelas do Rio, e com incidência maior nas favelas onde Leeds morou (Tuiuti e Jacarezinho).

“As fronteiras entre as favelas e a cidade parecem ser um aspecto visualmente digno de nota por Leeds, como também o registro das várias formas de sociabilidade. Os esforços conjuntos para melhorias na comunidade, os mutirões, foram registrados por ele de forma generosa, assim como as soluções responsáveis pela sustentação das formas de ali se viver. A relação das fotos com o livro A sociologia do Brasil urbano, por exemplo, é um fio condutor de sentido para se entender os usos das imagens nos trabalhos do antropólogo”, destaca Lacerda.4

Política de estado

No passado recente, o olhar despido de preconceito, contudo, se restringiu, em geral, à abordagem de pesquisadores e estudiosos sobre as favelas. Como comprova a história urbana do Rio de Janeiro, da extinção dos cortiços no período imperial, seguida do “bota-abaixo” (1902-1906) de Pereira Passos, às remoções das décadas de 1960/1970, interesses diversos, amparados por projetos que endossavam obras de remodelagem da paisagem urbanística, promoveram a retirada de moradias e pessoas – negras, pobres e migrantes, em sua maioria – de espaços urbanos cobiçados. A medida, adotada por governantes em inúmeros períodos, nos séculos XIX, XX e XXI acabou por se converter em política pública, apesar do (quase sempre) desastroso resultado para os atingidos.

Por mais justificada que seja a ação, o fato é que favelas são removidas e seus moradores deslocados para as periferias, ainda hoje, como “solução” para um “problema” urbano. Conforme observou o próprio Leeds,

Constante na política governamental ao longo dos últimos quarenta anos foi o tema da erradicação de uma doença social, a remoção do “crescimento canceroso, patológico, que arruína a paisagem tropical da sociedade e especialmente da turística e elitista sociedade visível da Zona Sul do Rio de Janeiro. (…) O mais recente e gritante exemplo do tema de erradicação de um “mal social” foi a remoção das favelas – especialmente da Zona Sul do Rio – para regiões periféricas desprovidas de mercados de trabalho, frequentemente de transporte e geralmente da ambiência urbana na qual o ex-morador da favela estava integrado”. 5

Escrito em 1972, o texto de Leeds é posterior à remoção da Catacumba, efetivada em 1969. Para além da posse da área, que no passado imperial fora chácara da então baronesa da Lagoa Rodrigo de Freitas (que teria deixado a terra para seus escravos), travava-se uma disputa discursiva, em que a grande imprensa endossava a remoção e a sociedade, por sua vez, chancelava a política de erradicação daquele “mal social”:

Como um grande cogumelo de miséria, a favela do Morro da Catacumba está crescendo. Os belos edifícios da orla da Lagoa são modernos e coloridos, mas por sobre eles os barracos miseráveis do morro são negros e disformes, e estão crescendo. Os moradores dos edifícios têm pavor dos barracos, mas os políticos e grileiros amam os barracos: é dos barracos que vêm seus votos; é dos barracos que vem o seu lucro. Muitos barracos têm televisão, alguns têm ar refrigerado, mas todos são feios e miseráveis. E enquanto os meninos ricos brincam de mocinho e bandido, com revólveres de brinquedo, na favela da Catacumba centenas de assaltantes preparam seus revólveres de verdade, para descer e matar. As autoridades estão dormindo – e a favela da Catacumba está crescendo.6

O artigo, publicado em 1960, mereceu destaque nas páginas do jornal. Nesse período, os governadores do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda (1960-1965) e Negrão de Lima (1965-1970), colocaram em prática as remoções na Zona Sul, erradicando, aproximadamente, 30 favelas e realocando centenas de famílias para os primeiros conjuntos habitacionais construídos na cidade: Vila Kennedy, Vila Aliança e Vila Esperança.

“As remoções eram realizadas a despeito da aceitação dos moradores, enquanto conjuntos não contavam com infraestrutura adequada. Nos governos seguintes, novos conjuntos habitacionais foram criados e mais famílias removidas”.7 Segundo a historiadora Janice Perlman, a partir de 1964, com a ascensão dos militares, “o governo passou a dispor do poder, da centralização e dos recursos para uma erradicação total. No caso do Rio, o objetivo era a remoção de 100 favelas por dia”, afirma. 8

A redução das favelas a três letras

A sensibilidade que se depreende das fotos de Leeds, bem como os textos do antropólogo em A sociologia do Brasil urbano, ainda respaldam o debate sobre as políticas de Estado para as populações urbanas pobres, em especial as favelas. A mais recente, e já em franca decadência, baseada na instalação de Unidades de Polícia Pacificadora em diversas comunidades do Rio, mereceu estudo apurado da vereadora Marielle Franco, em sua dissertação de mestrado em Administração defendida na UFF, em 2014. Na pesquisa, Marielle procurou demonstrar que as UPPs, enquanto política de segurança pública, reforçam o modelo de um estado que penaliza essas populações:

Um Estado Penal que, pelo discurso da “insegurança social”, aplica uma política voltada para a repressão e o controle dos pobres. A marca mais emblemática deste quadro é o cerco militarista nas favelas e o processo crescente de encarceramento, no seu sentido mais amplo. Os elementos centrais dessa constatação estão nas bases da ação militarizada da polícia, na repressão dos moradores, na inexistência da constituição de direitos e nas remoções para territórios periféricos da cidade (o que acontece em vários casos). As UPPs tornam-se uma política que fortalece o Estado Penal com o objetivo de conter os insatisfeitos ou “excluídos” do processo, formados por uma quantidade significativa de pobres, cada vez mais colocados nos guetos das cidades e nas prisões.9

Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados em 14 de março de 2018. Até o momento da publicação deste texto, o crime não foi solucionado.


Notas

1 HOUAISS, Antonio (Ed.). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2009.

2 Leeds realizou sua pesquisa no Brasil e em outros países da América Latina.

3 Nenhuma das duas comunidades existem mais.

4 LACERDA, Aline Lopes de. Texto de apresentação da mesa “Modos de ver as favelas no Rio de Janeiro”. In: Seminário O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo Anthony Leeds, 2015, Rio de Janeiro.

5 LEEDS, Anthony; LEEDS, Elizabeth. A sociologia do Brasil urbano. Elizabeth Leeds e Nísia Trindade Lima (Org.). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015. p. 349.

6 Enquanto todos dormem uma favela está crescendo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Ed. 66, p.1, 20 e 21 mar.1960.

7 CARVALHO, Camila; PONSO, Fábio. Na Guanabara, Lacerda, Negrão de Lima e Chagas governam a Cidade Maravilhosa. O Globo, Rio de Janeiro, 22 set. 2016. Acervo. Disponível em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/na-guanabara-lacerda-negrao-de-lima-chagas-governam-cidade-maravilhosa-20163142#ixzz5IKM1TG5Y. Acessado em 12 jun. 2018.

8 PERLMAN, Janice. O mito da marginalidade. Favelas e política no Rio de Janeiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. 377 p. Disponível em www.cronologiadourbanismo.ufba.br. Acessado em 7 jun. 2018.

9 SILVA, Marielle F. da. Upp – a redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. 2014. 136 f. Dissertação (Mestrado em Administração) Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Turismo, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.


Referências Bibliográficas

HOUAISS, Antonio (Ed.). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2009.

LACERDA, Aline Lopes de. Texto de apresentação da mesa “Modos de ver as favelas no Rio de Janeiro”. In: Seminário O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo Anthony Leeds, 2015, Rio de Janeiro.

LEEDS, Anthony; LEEDS, Elizabeth. A sociologia do Brasil urbano. Elizabeth Leeds e Nísia Trindade Lima (Org.). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015.

PERLMAN, Janice. O mito da marginalidade. Favelas e política no Rio de Janeiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

SILVA, Marielle F. da. UPP – a redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. 2014. 136 f. Dissertação (Mestrado em Administração) Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Turismo, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.

Cristiane D’Avila é Jornalista, Doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História da Ciência e da Súde.

Como citar este artigo

D’AVILA, Cristiane. A favela visível: o olhar fotográfico de Anthony Leeds (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Publicado em 4 de fevereiro de 2019. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/favela-visivel-anthony-leeds/

2 Comentário

  1. Ótimo trabalho de Cristiane d´Avila com recortes fotográficos de Anthony Leeds. Desperta ainda mais a atenção de quem se debruça sobre um tema tão caro e levado ao revés, através de medidas estatais que até agora em nada serviram a essas comunidades como concluído no final de texto.

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