Dicas de livros: março de 2017

22 de março de 2017
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Destacamos três obras que examinam conflitos bem diferentes.

Passado o carnaval, chegou a hora de colocar a leitura em dia. Separamos três lançamentos que podem ajudar você a voltar ao ritmo de estudo. Os temas? Conflitos. Mas estamos falando aqui de conflitos bem diferentes entre si. Um deles explora a Guerra Civil Espanhola. Trata-se da incrível reportagem do jovem jornalista sul-africano G. L. Steer, que testemunhou a luta do povo basco contra as tropas do General Francisco Franco na Guerra Civil espanhola. O outro livro, do jornalista Sérgio Buarque de Gusmão, pretende rever seis teses sobre a Cabanagem, conflito clássico da História do Brasil. E, finalmente, o terceiro livro, organizado por dois pesquisadores acadêmicos, que examina o conflito de interesses entre a população e as autoridades na cidade colonial.

STEER, G.L. “A árvore de Gernika – um estudo de campo da guerra moderna” São Paulo: Companhia das Letras, 2017, 525p.

A Companhia das Letras acaba de lançar “A Árvore de Gernika – um estudo de campo da guerra moderna”, escrito por G. L. Steer. O livro é a reportagem mais longa e importante da vida de Steer, um jovem jornalista freelancer do Times. Nascido em 1909, na África do Sul, Steer tinha apenas 27 anos quando viajou à Espanha, no final dos anos 1930, para escrever sobre a Guerra Civil espanhola. Desde julho de 1936, a Espanha vivia um grave conflito civil. O general Francisco Franco iniciara uma revolta contra o governo de esquerda da República da Espanha. Para combater os revoltosos, de linha conservadora e grande poder de fogo, as autoridades centrais concederam autonomia a várias regiões espanholas para que estas combatessem as tropas franquistas. Foi o caso da Catalunha e do País Basco, que irritaram profundamente Franco. “A Árvore de Gernika” trata do conceito da Guerra Moderna, mas o povo basco é o grande tema deste livro. Steer observou o combate dos bascos em quatro momentos: de agosto a setembro de 1936, na fronteira franco-espanhola; durante janeiro de 1937, em Bilbao; na derradeira e feroz ofensiva de Mola, nos meses de abril, maio e junho, e em agosto de 1937, pouco antes de serem forçados a se render. “A imensa maioria das coisas descritas neste livro foi testemunhada por mim. Em agosto e setembro, como mostra o livro, desfrutei de uma perspectiva muito íntima a guerra: tive a visão de um árbitro”. A obra é indispensável para aqueles que estudam conflitos na primeira metade do século XX e História da Espanha. G. L. Steer formou-se em Oxford e se mudou para a Etiópia em 1935, onde escreveu três livros sobre a invasão italiana ao país. Morreu aos 35 anos num acidente, quando servia ao exército inglês na Índia, em 1944. Para saber mais sobre esse lançamento da Companhia das Letras, clique aqui.

Livros-Marco
Cabanagem, Guerra Civil Espanhol e Cidades Coloniais. Tudo isso em nossas dicas de março de 2017. Foto: Café História.

GUSMÃO, Sérgio Buarque de. “Nova história da Cabanagem – Seis teses revisam a insurreição que incendiou o Grão-Pará em 1835”. Juiz de Fora: Gráfica Garcia, 2016, 322p.

O jornalista paraense Sérgio Buarque de Gusmão acaba de publicar pela editora Garcia, de Juiz de Fora, o livro “Nova história da Cabanagem – seis teses revisam a insurreição que incendiou o Grão-Pará em 1835”. Essas seis teses orientam a divisão do livro. São elas: 1. Grenfell foi o tutor da Independência; 2. Batista Campos foi valente, ambíguo e oportunista; 3. Félix Malcher foi tão cabano quanto qualquer outro; 4. O número de 30.000 mortos foi exagerado; 5. A Cabanagem cumpriu o programa das lideranças; 6. A palavra cabano saiu do Nordeste e era um insulto. O livro é um esforço de anos de pesquisa bibliográfica e documental. “A boa-nova vem da Academia. Para realizar esse trabalho, examinamos aproximadamente 300 textos produzidos em universidades e centros de pesquisa, e muitos merecem o selo de estudos sérios, inovadores na construção teórico-metodológica e consistentes na pesquisa documental”. O estudo também levou em conta, explica o autor, em documentos na Biblioteca Nacional e no Arquivo Nacional; documentos localizados no Centro de Documentação e Informação da Câmara dos Deputados; na hemeroteca do Grêmio Literário Português e no Projeto Resgate, além de levar em conta materiais de outas instâncias, como o Arquivo Público do Estado do Pará.  Sérgio Buarque de Gusmão é paraense. Jornalista, começou a trabalhar em 1968, na Província do Pará, e na década de 1970 mudou-se para são Paulo, onde atuou em diversos grandes jornais da mídia brasileira, como Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e O Globo. Para saber mais sobre esse lançamento, clique aqui.

RODRIGUES, Gefferson Ramos; POETTERING, Jorun. “Em Benefício do Povo” – Obras, governo e sociedade na cidade colonial. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016. 380p.

Com a realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016, a população brasileira viveu uma cidade em acelerado processo de transformação, que foi positivo e negativo, ao mesmo tempo. Remoção de populações, abertura de novos túneis, introdução de sistemas de transporte, fechamento de ruas, demolições, edificação de pontes e outros cortes sensíveis no tecido urbano fizeram com que milhares de pessoas repensassem a sua relação com o território. Mas esse tipo de situação não é exatamente inédito. A relação entre as obras públicas e a sociedade é uma marca típica da modernidade. É isso o que mostra o belo livro organizado por Jorun Poettering e Gefferson Ramos Rodrigues, que acaba de ser lançado pela Editora Mauad X. Na obra, os autores se debruçam sobre as cidades coloniais, ou melhor, sobre as fortificações, pavimentos, pontes e outras obras-públicas modernas que procuraram reproduzir, nas cidades coloniais, o projeto arquitetônico e urbanístico das metrópoles europeias. Com frequência, essas obras eram justificadas “em benefício do povo”. Porém, nem sempre correspondiam, de fato, aos anseios da população. Ao invés de facilitar a vida do habitante da cidade, ela a dificultava; ao invés de servir a maioria (pobre), servia a uma minoria (rica); ao invés de permitir mobilidade, limitava. Eram obras realizadas sob o signo da exclusão: visavam o homem livre, sobretudo o branco, excluindo indígenas e populações negras escravizadas. Essas incongruências geraram, claro, todo tipo de conflito entre sociedade e governo central. “Em benefício do povo” explora, além de projetos e sonhos importados, os desencontros que tais obras públicas acabavam provocando na cidade colonial. Além de várias contribuições sobre cidades coloniais na América Portuguesa, esta coletânea inclui estudos sobre cidades na América Espanhola, Inglesa e Ásia Holandesa. Para mais informações, clique aqui.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

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