Cartilha leva debate sobre história das mulheres e representações de gênero para sala de aula

A professora de história Janaína Jaskiu elaborou uma cartilha sobre as representações de gênero na revista “O Cruzeiro”, que circulou no Brasil entre os anos de 1930 e 1975.

Desigualdade de gênero é problema estrutural no Brasil e deve ser discutido na sala de aula. Foto: Pixabay.

No mestrado profissional em ensino de História, o ProfHistória, a professora de história Janaína Jaskiu produziu uma cartilha dinâmica e com linguagem simples que conversa diretamente com os estudantes da Educação Básica sobre representações de gênero. Com trabalho intitulado “Papéis em revista: ensino de História e representações de gênero na revista ‘O Cruzeiro’ (1930-1975)”, a professora explorou a história das mulheres por uma perspectiva crítica e questionadora.

No trabalho, orientado pela professora Angela Ribeiro Ferreira e defendido na Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná, Jaskiu escolheu quatro elementos: beleza, higiene, trabalho e sexualização do corpo feminino. Sua ideia foi observar como cada um desses temas acaba construindo uma visão muito problemática daquilo que deve ser entendido como mulher, com claras consequências negativas para as relações de gênero.

Beleza e higiene: uma questão social

No quesito beleza, Jaskiu aponta que nos anúncios da década de 1930 caberia às mulheres a tarefa de disfarçar a idade. Nesse contexto, grande parte dos anúncios eram dirigidos às mulheres com objetivo de conquistar ou impressionar os homens. Ou seja, além da necessidade de parecerem “jovens para sempre”, essa empreitada não era direcionada a elas mesmas, mas aos seus noivos ou maridos.

Ao levantar essa discussão no material didático que produziu para ser aplicado em sala de aula, a professora de história incentiva os estudantes a pensarem como o corpo feminino é percebido na atualidade. Para isso, ela apresenta dados sobre violência sexual e discute a objetificação das mulheres na mídia. Por meio dessa comparação é possível que os estudantes percebam que apesar das transformações ocorridas na sociedade, os discursos produzidos sobre as mulheres ainda são atravessados por antigas, machistas e preconceituosas visões masculinas sobre a mulher.

Outro aspecto destacado por Jaskiu sobre a beleza nesses anúncios publicitários é que ela estava associada à pele branca, desde os primeiros números da revista. Em anúncio de 1932, a famosa loção para a pele “Leite de Rosas” prometia “alvejar e amaciar” regiões enegrecidas do corpo. A professora destaca esses trechos para discutir de forma crítica com os estudantes sobre o púbico com quem a revista “O Cruzeiro” dialogava: majoritariamente mulheres das classes médias e altas. Dessa forma, o trabalho de Jaskiu também abre espaço para discussões sobre o racismo.

Belas e do lar?

Por se dirigir às mulheres das classes mais privilegiadas, os anúncios da revista “O Cruzeiro” não conversavam com as mulheres trabalhadoras, majoritariamente negras, que levavam o sustento para suas casas. Ao contrário, como aponta Jaskiu, essas propagandas serviam para reforçar padrões de gênero das classes médias: ao homem cabia o espaço público, do trabalho formal, da tomada de decisões e da inteligência. Já às mulheres, caberia o espaço privado, o cuidado da casa, da saúde do marido e dos filhos, e principalmente, o papel de obedecer.

A professora destaca que transformações sociais ocorridas a partir da década de 1970 levaram a uma nova forma de retratar a imagem feminina. Se nas décadas anteriores os slogans representavam a mulher “bela e do lar”, nos anos 70 ocorreu a superexploração da ideia de sensualidade, com retratos de mulheres com poucas peças de roupa, ou mesmo de biquíni. No entanto, em ambas as abordagens a mesma perspectiva seguia presente e dizia respeito a um discurso de submissão das mulheres pelos homens.  

Jaskiu convida os estudantes a explorar essas desigualdades de gênero e de classe por meio da análise dos textos escritos e das imagens de cada anúncio selecionado. Apesar das transformações ocorridas entre as décadas de 1930 e 1970, ocasionadas pela revolução sexual e pelo avanço das pautas feministas, as mulheres continuaram retratadas pela ótica masculina, pelo viés ora da submissão ora da sexualização.

Ao longo de todo o material didático, Jaskiu provoca os estudantes para que busquem desnaturalizar os papéis socias associados ao masculino e ao feminino. Os questionamentos da professora de história contribuem para a percepção de que ainda existem inúmeras conquistas a serem alcançadas e de que é possível contar a história do Brasil com um olhar atento às histórias das mulheres.   

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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