A propaganda, as pesquisas, os debates, o voto na urna e, finalmente, a apuração dos resultados finalizada em poucas horas. O voto e a eleição já não são novidades. Muitos de nós ingressaram em uma seção eleitoral antes da idade que permite o alistamento e a aquisição do título de eleitor, levados à cabine de votação pelos pais, pelos avós, pelos adultos da casa.
Desde a redemocratização, no final dos anos 1980, as eleições presidenciais sucederam-se sem interrupções, conformando rotinas e modificando práticas de campanha – pela mudança dos hábitos, dos meios de comunicação e, em grande medida, pelas alterações na legislação. Mas sempre foi assim?
As eleições presidenciais de 1989 foram marcantes na retomada da democracia no Brasil. Foram 29 anos de espera para votar para presidente desde 1960, quando cerca de 12 milhões de eleitores foram convocados para eleger o sucessor de Juscelino Kubitschek. Na ocasião, Jânio Quadros foi eleito com quase 50% dos votos. E isso nos leva à demarcação das diferenças entre um período e outro.
Nas eleições de 1960, votava-se para presidente e vice-presidente separadamente; havia apenas um turno e elegia-se o mais votado independentemente do percentual; aos analfabetos era proibido o alistamento, o que impedia grande parcela da população do exercício desse direito; o voto era em papel, primeiro com cédulas impressas pelos próprios partidos políticos e, gradativamente, em cédula única emitida pela Justiça Eleitoral; a apuração dos resultados durava semanas.
De 1945 a 1960, foram eleitos presidentes Eurico Dutra, Getúlio Vargas e os já mencionados Juscelino e Jânio. Saindo da ditadura do Estado Novo e de 15 anos de Vargas no poder, as eleições marcadas para 2 de dezembro de 1945 abriram um novo tempo na história do voto, dos partidos e da democracia no Brasil. O eleitorado cresceu, atingindo dimensões então inéditas, chegando a cerca de 25% da população em meados dos anos 1950. Os partidos políticos tornaram-se nacionais e o sistema eleitoral, efetivamente competitivo. A demografia e a economia do país estavam se alterando, tornando-se mais urbanas e industriais. Os meios de comunicação haviam evoluído muito a partir da década de 1930, incluindo o desenvolvimento do cinema, do rádio e, desde 1950, da televisão. Tudo isto tornou o cenário eleitoral incerto, sem controle do governo e com chances de vitória para as oposições. Abriu-se a era dos grandes comícios, da propaganda massiva e dos jingles marcantes.
A ampliação da propaganda eleitoral caracterizou o período, no qual se identificou a ascensão de um novo perfil de candidato, ligado a práticas de mobilização, convencimento e construção de popularidade. Estas práticas, evidentemente, conviveram com os modos tradicionais de aliciamento, clientelismo e mandonismo. A experiência de democracia iniciada em 1945 e interrompida pelo golpe de 1964 deixou marcas profundas nas divisões políticas, na identificação dos eleitores com partidos e no imaginário sobre o voto e as eleições. Surgiram ou ganharam impulso nesse período algumas identidades políticas que passaram a mobilizar grandes grupos: o udenismo, o trabalhismo, o getulismo, o ademarismo, o janismo, o lacerdismo… Esse sistema eleitoral e partidário, com suas imperfeições, limitações e fragilidades, foi fundamental para a construção de um interesse pelo voto e pela representação política. Como demonstram as fotorreportagens da época, vestia-se a melhor roupa de domingo para ir à seção eleitoral. Os jornais noticiavam dia a dia a contagem parcial dos votos. Ficava-se atento ao rádio, para o anúncio do resultado.
Milhões de brasileiros – e brasileiras, que votaram pela primeira vez em uma eleição presidencial em 1945 – aprenderam a votar e construíram sentidos para a eleição e para a representação política naqueles anos. São muito numerosos os exemplos de comitês populares, comitês femininos, pequenos comícios, propaganda popular – feita à margem dos partidos e da propaganda oficial. Este experimento democrático foi tão marcante que o termo “redemocratização” se consolidou nos anos 1980, quando o Brasil concluiu sua saída da ditadura militar. A memória referia-se ao pré-1964. O cenário partidário e eleitoral do pós-1945 foi herdado em outra transição política: aquela pensada pelo regime autoritário de Vargas desde fins de 1942. Mas a competição política levou o período que se seguiu a uma dinâmica própria, marcada pela autonomia crescente do eleitorado.
Sobre as fragilidades do regime pós-1945, pode-se dizer que a intervenção dos militares na política foi seu calcanhar de Aquiles. Todas as eleições presidenciais tiveram candidatos militares. A de 1955 deu-se toda sob o ambiente de golpe militar iminente. As crises institucionais de 1954 e de 1961 foram agudas, mas foi com o golpe de 1964 que as Forças Armadas selaram o destino da experiência democrática. Não sem o apoio de setores civis. A participação das camadas populares no corpo eleitoral, sua autonomia, sua mobilização e a eleição de candidatos com grande apoio das massas jamais foram vistas com bons olhos pelo liberalismo elitista e sua tendência excludente. Em nome de uma certa noção de democracia, abriu-se caminho para 21 anos de ditadura.
Temos, assim, indesejáveis semelhanças com o contexto dos anos 1950 e 1960: nos últimos anos, eleições presidenciais e tentativas de golpe voltaram a figurar em conjunto no noticiário. No presente, a propaganda é online e os jingles podem ser feitos por inteligência artificial, mas a ameaça à democracia é um passado que insiste em não passar.
Como citar este artigo
ANGELI, Douglas. Zona Eleitoral: entenda como eram as eleições brasileiras entre 1945 e 1964. Ed. Bruno Leal. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/zona-eleitoral: 2674-5917.