O historiador Daniel Gomes de Carvalho, professor de História Moderna da Universidade de São Paulo (USP), localizou uma edição praticamente desconhecida de Senso Comum (Common Sense), obra clássica de Thomas Paine sobre a Revolução Americana, publicada originalmente, em inglês, em 1776. A versão brasileira foi impressa em 1825, em Liverpool, na Inglaterra.
Carvalho conversou com o Café História. Ele explicou que a publicação não é uma simples tradução: ela seleciona e adapta as ideias de Paine para criticar D. Pedro I nos primeiros anos do Brasil independente. A descoberta abre, por isso, novas perspectivas para compreender como o pensamento revolucionário norte-americano circulou e foi mobilizado nos debates políticos brasileiros do século XIX.
Material ignorado
Embora sua existência fosse mencionada em fontes do século XIX, a edição de 1825 permaneceu praticamente desconhecida dos pesquisadores, citada em referências bibliográficas, mas ausente dos estudos sobre a recepção de Thomas Paine no Brasil.
Em abril de 2026, durante um intervalo em seus compromissos acadêmicos, o pesquisador retomou a busca e conseguiu localizar um exemplar da obra. Ela estava no setor de obras-raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
A localização do exemplar é resultado de uma longa busca. Especialista na obra de Paine e nas revoluções atlânticas, o historiador desenvolveu parte de suas pesquisas nos Estados Unidos sob a supervisão de Denver Brunsman, professor da George Washington University. A procura pela tradução brasileira tornou-se tema recorrente nas conversas entre os dois.
“O Denver brincava comigo que eu precisava encontrar logo essa tradução”, conta Carvalho. “Eu sabia que havia referências a ela, mas não tinha o texto em mãos. Era uma daquelas coisas que ficavam sempre no horizonte da pesquisa.”
A questão também surgia nas atividades da Thomas Paine Historical Association, organização norte-americana dedicada à preservação e ao estudo da obra e do legado do revolucionário, cujo conselho Carvalho integra.
“Na Thomas Paine Association, volta e meia me perguntavam sobre a tradução brasileira de Common Sense. Eu trabalhava com Paine, era brasileiro, então a pergunta acabava chegando a mim: onde estava essa tradução? O que havia nela? E eu não tinha ainda como responder”, lembra.
Outro passo importante veio do historiador Breno Ferraz Leal Ferreira, que chamou a atenção de Carvalho para referências documentais que indicavam a necessidade de investigar mais a fundo a existência da edição.
“Foi o Breno quem me advertiu sobre algumas referências que eu precisava seguir. Elas mostravam que aquela história merecia ser investigada com mais cuidado”, afirma Carvalho.
Um panfleto revolucionário nos debates do Brasil imperial
O título completo da edição oferece uma primeira indicação do alcance pretendido para a publicação: O Senso Comum, dirigido aos habitantes dos Estados-Unidos da America, por Thomaz Paine. Traduzido, e offerecido aos habitantes do Novo Mundo. Impressa em Liverpool, a obra foi publicada quase cinquenta anos depois da edição original de Common Sense, lançada anonimamente na Filadélfia, em janeiro de 1776.
O exemplar brasileiro de 1825 seleciona passagens do texto original e as insere em um contexto político distinto. Publicada apenas três anos depois da independência do Brasil, ela recupera argumentos formulados durante a Revolução Americana para intervir nos debates que marcaram os primeiros anos do Império brasileiro.
“Essa foi a parte que mais me interessou. Não se trata simplesmente de Paine traduzido para o português. Há um trabalho de seleção e de adaptação que faz com que um texto escrito no contexto da independência dos Estados Unidos seja utilizado, quase cinquenta anos depois, para pensar problemas políticos brasileiros”, explica Carvalho.
Entre os alvos dessa apropriação está D. Pedro I. A crítica à monarquia desenvolvida por Paine em 1776 é mobilizada em meio aos conflitos políticos que se seguiram à independência brasileira e à promulgação da Constituição de 1824. A edição permite, assim, investigar a circulação internacional de um texto revolucionário e as transformações de seu significado quando ele é apropriado em outra conjuntura histórica.
A publicação contém ainda elementos que apontam para outras possibilidades de investigação, entre eles uma referência ao Haiti. A Revolução Haitiana e a independência do país tiveram forte repercussão nos debates políticos do mundo atlântico desde o final do século XVIII, especialmente nas discussões sobre soberania, escravidão e os limites da liberdade política.
Para Carvalho, essas pistas exigem cautela e novas pesquisas. “Há algumas pistas que podem ligar a tradução a movimentos sociais e políticos do Brasil do século XIX. Mas, neste momento, são pistas. Precisamos reconstruir melhor as circunstâncias da publicação, as pessoas envolvidas e os possíveis caminhos de circulação do texto antes de fazer afirmações mais definitivas”, explica.
Novas pesquisas sobre a circulação de ideias políticas
A investigação entra agora em uma nova etapa. Carvalho trabalha com o historiador João Paulo Pimenta, também professor da USP e especialista nos processos de independência e na formação dos Estados nacionais nas Américas, em uma publicação dedicada à edição de 1825.
O estudo da tradução poderá contribuir para ampliar o conhecimento sobre as conexões intelectuais entre as revoluções atlânticas e os debates políticos no Brasil do século XIX.