Por que gostamos tanto de filmes de terror e de séries true crime?

Há quase três séculos, um dos principais pensadores do Iluminismo e crítico da Revolução Francesa, procurou explicar por que somos capazes de sentir prazer diante de representações do medo, do horror e do terror.
11 de agosto de 2026
Por que gostamos tanto de filmes de terror e de séries true crime? 1
"A dor, portanto, não corresponde simplesmente à ausência de prazer, assim como o prazer não consiste na ausência de dor. " Imagem: montagem com IA.

Para quem não é fã de filmes de terror, a ideia de pagar para sair do cinema assustado pode parecer completamente sem sentido. O mesmo vale para o enorme sucesso do gênero true crime, que transforma assassinatos, sequestros e outros crimes em entretenimento para milhões de leitores e espectadores. Essa aparente contradição, porém, intrigava filósofos muito antes do surgimento do cinema e do streaming.

Há quase três séculos, Edmund Burke (1729–1797), um dos principais pensadores do Iluminismo e um célebre crítico da Revolução Francesa, procurou explicar por que podemos sentir prazer diante de representações do medo, do horror e do terror. Em sua interpretação, o deleite provocado pela contemplação do sofrimento humano não constitui necessariamente uma perversão moral, mas pode ser, pelo contrário, um sinal de empatia e parte de um mecanismo para a preservação de nossa própria espécie.

Um irlandês no Parlamento da Inglaterra

Burke nasceu em Arran Quay, Dublin, em 1729. A Irlanda não possuía independência formal e vivia uma situação de terrível submissão à Inglaterra. Por isso, embora sua família fosse católica, seu pai converteu-se ao anglicanismo, a Igreja da Inglaterra, para evitar obstáculos em sua carreira jurídica. Sua origem irlandesa tornou-se um tema recorrente entre os seus críticos, que frequentemente o acusavam de ser um emissário do papa no mundo britânico. O próprio Burke ofereceu argumentos para alimentar essas suspeitas: casou-se com a católica irlandesa Jane Nugent, enviava auxílio financeiro à família na Irlanda e, já como parlamentar na Inglaterra, empenhou-se em melhorar a situação de sua terra natal.

Sua formação universitária deu-se no campo do direito, primeiro no Trinity College de Dublin e, depois, no Middle Temple, em Londres. Na Inglaterra, Burke abandonou a profissão do pai para dedicar-se à filosofia e às letras. Aos 33 anos, figurava ao lado de Adam Smith entre os fundadores do The Club e, desde 1758, dirigia o periódico Annual Register, ainda em circulação nos dias de hoje. Esse reconhecimento deveu-se, em parte, à publicação de Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo (1757), texto em que formulou suas reflexões sobre o terror e o sublime.

No final da década de 1750, sua trajetória voltou-se para a política. Burke atuou como secretário do deputado William Hamilton e, posteriormente, do marquês de Rockingham, função que exerceu durante 17 anos. Nas palavras de Modesto Florenzano, um dos primeiros estudiosos de Burke no Brasil, “na Inglaterra do século XVII, excetuando o mundo dos negócios, somente o da política oferecia oportunidades para quem, como Burke, era dotado de muita energia, de muito talento intelectual, e de muita ambição, mas não tinha nome, riqueza e poder, e desejava ardentemente os três.”

Burke, a propósito, afirma, entre as seções XV e XVII, na quarta parte, que a obscuridade não é uma cor, mas produto de uma escuridão parcial, e, por isso, descarta a associação entre as pessoas negras e o sublime. Nessa passagem, Burke faz referência ao célebre relato publicado por William Cheselden, em 1729, nos Philosophical Transactions da Royal Society (v. 35, n. 402, p. 447–450), no qual o cirurgião descreve a recuperação da visão de um menino de treze ou quatorze anos após uma cirurgia de catarata. O garoto, ao ver uma mulher negra, ficou aterrorizado. Burke afirma que o terror não se deve à cor negra, mas à associação que o garoto fez em relação a outras ideias desagradáveis anteriores. Essa passagem, a um só tempo curta, intrigante e confusa, merece maior atenção e reflexão por parte dos pesquisadores.

Em 1765, Burke foi eleito deputado pelo distrito de Wendover, permanecendo por 29 anos na Câmara dos Comuns do Parlamento britânico. Como parlamentar, destacou-se pela defesa de reformas no Império Britânico, sobretudo em relação à Irlanda, à América do Norte e à Índia, posição expressa em textos como Speech on Fox’s India Bill (1783), On American Taxation (1774) e On Moving his Resolutions for Conciliations with the Colonies (1775).

Essa trajetória sofreu uma inflexão com a publicação das Reflexões sobre a Revolução na França, em novembro de 1790. Muitos esperavam que um crítico do rei Jorge III se tornasse também um defensor da Revolução Francesa; o conde de Mirabeau, por exemplo, citava longas passagens de Burke nos primeiros meses da Assembleia Nacional revolucionária. Ocorreu, precisamente, o contrário. Sua posição contrarrevolucionária lhe rendeu o reconhecimento e a gratidão das coroas europeias. Conforme desejara em seu testamento, Burke foi enterrado de forma anônima, em 1797. O pensador temia que seu túmulo fosse profanado por seus inimigos.

Por que o terror proporciona deleite?

Em artigo recente, procurei demonstrar que, antes da Revolução Francesa, a ideia de “terror” era empregada predominantemente no sentido estético e religioso, assumindo, em muitos casos, uma conotação salutar: o terror como caminho para a redenção, na tradição bíblica, e como experiência do sublime, nos textos filosóficos. Um exemplo expressivo dessa concepção encontra-se precisamente no texto de Burke, Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo (1757), publicado mais de três décadas antes da Revolução Francesa, no qual esses dois significados aparecem intimamente entrelaçados.

Para bem compreendermos as ideias de Burke sobre o Sublime e o Terror, é preciso, antes, discutir os conceitos de Gosto, Imaginação, Dor, Prazer e Deleite.

O texto de Burke começa afirmando que o Gosto, entendido como o conjunto das faculdades da mente afetadas pela imaginação e pelas belas-artes, embora pareça extremamente diverso, obedece a leis invariáveis e determinadas. As preferências individuais podem variar, mas há limites para essa variação. Embora cada pessoa tenha seus próprios gostos alimentares, observa Burke, quem afirmasse que o açúcar é amargo seria imediatamente considerado alguém cujos órgãos dos sentidos não funcionam adequadamente. Isso é possível porque uma mesma causa, isto é, a realidade apreendida pelos sentidos, produz efeitos semelhantes em indivíduos pertencentes à mesma espécie.

A mente humana, contudo, não se limita a receber passivamente as impressões sensoriais. Ela é capaz de recombiná-las e transformá-las, faculdade que Burke denomina de Imaginação. É por meio dela que podemos sentir prazer diante da imitação de um objeto original. Esse prazer, entretanto, pode ser modulado pelo conhecimento. Alguém com profundo domínio da anatomia humana, por exemplo, tenderá a perceber imperfeições em uma representação do corpo de um atleta que talvez passem despercebidas a um observador menos experiente. O mesmo vale para a literatura: quem aprecia a Eneida, de Virgílio, experimentará dificilmente a mesma satisfação diante de uma obra de consumo imediato. Nesses casos, a diferença de gosto decorre da diferença de conhecimento, já que o gosto pode ser cultivado.

O princípio do prazer, contudo, permanece o mesmo. Em outras palavras, o que varia não é a natureza da experiência estética nem sua causa, mas apenas seu grau, condicionado pelas sensibilidades naturais, pela atenção e pelo conhecimento adquirido. É por isso que, segundo Burke, existe menos divergência em matéria de Gosto do que em questões que dependem da razão pura: “há maior concordância a respeito da excelência de uma descrição de Virgílio do que sobre a verdade ou a falsidade de uma teoria de Aristóteles.”

Nesse sentido, dor e prazer não constituem, como muitos filósofos sustentavam, termos opostos. Quando terminamos de beber um bom vinho ou saímos de um belo concerto, por exemplo, não passamos imediatamente do prazer para a dor, mas para um estado de indiferença. A dor, portanto, não corresponde simplesmente à ausência de prazer, assim como o prazer não consiste na ausência de dor. Nesse sentido, Burke distingue duas modalidades de prazer. Há o prazer positivo, que existe por si mesmo, como aquele proporcionado por uma boa música. Existe também um prazer relativo, experimentado quando escapamos da dor ou do perigo. É esse segundo tipo de prazer que ele denomina deleite. Sendo o medo uma ansiedade da dor ou da morte e, por isso, experenciado como uma dor real, sua suspensão, consequentemente, provoca deleite.

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Na política, na literatura e no cotidiano, a obscuridade é um dos princípios frequentes do terror. Na imagem, frontispício da edição revista de 1831 de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada por Colburn and Bentley, em Londres. Imagem: Wikimedia.

As paixões mais intensas do ser humano, prossegue Burke, estão ligadas ao instinto de autopreservação. Sentimos prazer ao desfrutar de boa saúde, mas a ideia da doença, do sofrimento ou da morte iminente desperta emoções muito mais vigorosas. Daí a superioridade da dor sobre o prazer em intensidade. As ideias associadas ao perigo e à destruição exercem um impacto mais profundo sobre a mente do que aquelas vinculadas ao bem-estar. Ela provoca, em uma palavra, terror. É justamente por isso que o sublime deriva de tudo aquilo que é terrível ou que evoca o terror, ou seja, constitui a emoção mais poderosa de que a mente humana é capaz. Em consequência, existe um vínculo necessário entre a emoção “terror” e o nosso instinto de autopreservação.

É nesse momento que o terror se converte em uma possível fonte de prazer. Quando o perigo ou a dor nos atingem de maneira imediata, não produzem prazer: eles são, simplesmente, terríveis. Entretanto, quando são experimentados à distância, ou sob determinadas circunstâncias que suspendem suas consequências reais, podem tornar-se agradáveis. Em outras palavras, o terror, desde que não ameace diretamente nossa existência, pode transformar-se em deleite.

“Se a dor ou o terror forem modificados a ponto de não serem realmente nocivos, se a dor não for causada por violência e se o terror não estiver relacionado à destruição iminente da pessoa (…), elas serão capazes de produzir o deleite; não o prazer, mas uma espécie de horror deleitoso, uma espécie de tranquilidade tingida de terror, o qual, por pertencer à autopreservação, é uma das mais fortes paixões”

Edmund Buke, Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e do Belo

Nas artes, esse mecanismo articula-se a outra faculdade humana, a empatia. Por meio dela, somos capazes de nos colocar no lugar de outras pessoas e de compartilhar, pela imaginação, suas emoções. É assim que a poesia, a pintura e o teatro nos permitem encontrar prazer na representação da miséria, da violência e da própria morte. Aquilo que, na experiência direta, nos causaria horror, pode tornar-se fonte de satisfação estética quando representado. O mesmo valeria, hoje, para um filme ou uma série true crime. Ao acompanharmos esses sofrimentos, identificamo-nos com aqueles que os vivenciam, mas, ao mesmo tempo, permanecemos protegidos e totalmente livres do que eles sofrem. Experenciamos os medos da dor e da morte e, num instante, sua suspensão. É justamente essa distância que transforma o terror em deleite. Por essa mesma razão, observa Burke, relatos sobre o colapso de impérios ou a decadência de civilizações tendem a despertar mais interesse do que narrativas de prosperidade contínua. Como sintetiza o autor, “o terror, sempre que não está muito próximo, é uma paixão que sempre produz deleite.”

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A gravura, de 1790, satiriza Edmund Burke ao retratá-lo como um Dom Quixote, tendo o papa, representado como um asno, como sua montaria. A gravura reforça a associação entre Burke, a monarquia francesa e a Igreja Católica, que a caricatura procurava ridicularizar. Imagem: Wikimedia.

No passado e no presente, muitos de nós consideraríamos esse prazer moralmente condenável. Burke, porém, pensava justamente o contrário. Para ele, o deleite diante da representação do sofrimento possui uma função providencial. Deus teria ordenado nossas paixões de tal modo que encontrássemos algum prazer em contemplar a desgraça alheia, pois é justamente nessas circunstâncias que nossa compaixão se torna mais necessária. Esse prazer, afinal, não é absoluto: ele quase sempre vem acompanhado de mal-estar e inquietação. Se a contemplação da dor produzisse apenas sofrimento, tenderíamos a evitar qualquer pessoa ou situação capaz de despertar tais sentimentos. O deleite, ao contrário, nos aproxima das cenas de miséria; o desconforto que acompanha esse prazer desperta em nós o desejo de aliviar o sofrimento daqueles que padecem. Assim, para Burke, o prazer associado ao terror não é necessariamente um desvio moral, nem uma hipocrisia, mas parte da própria ordem providencial que protege a vida em sociedade.

As faces do terror

O terror é o princípio do sublime. Em sua manifestação mais extrema, o sublime produz o assombro, estado de espírito em que, segundo Burke, todos os movimentos da alma ficam suspensos por um certo grau de horror. Nessa condição, a mente deixa de raciocinar sobre o objeto que a ocupa. Em graus menos intensos, o sublime também desperta admiração, reverência e respeito.

O sublime não depende necessariamente da grandeza física dos objetos. Animais pequenos e grandes podem igualmente despertá-lo, desde que inspirem terror. Uma serpente, embora de pequenas dimensões, pode ser tão sublime quanto uma montanha, justamente porque suscita terror. Mais do que do tamanho, o terror parece depender da obscuridade. Quando conhecemos plenamente a natureza de um perigo, ou quando nossos olhos se acostumam com ele, a ansiedade tende a diminuir. A incerteza e a confusão, ao contrário, intensificam o sentimento do sublime. Está em nossa natureza temer o pior quando não sabemos o que poderá acontecer conosco. Não por acaso, a noite amplifica nossos temores diante do perigo. No Paraíso Perdido, Milton, um dos mestres do terror, descrevia Lúcifer como uma “glória obscurecida.” Da mesma forma, observa Burke, os governos despóticos procuram manter seu governante distante do olhar dos súditos, cercando-o de mistério e inacessibilidade. O argumento retoma, nesse ponto, uma ideia apresentada dez anos antes por Montesquieu em O Espírito das Leis (1748): o princípio do despotismo é o medo ou o terror.

As ideias de eternidade e de infinito, justamente por escaparem à plena compreensão humana, figuram entre as mais propícias ao sublime. No Antigo Testamento, por exemplo, a passagem do livro de Jó (4:13–17) ilustra como a obscuridade intensifica o terror: “ele parou, mas não consegui identificar sua forma; uma imagem estava ante meus olhos; havia silêncio e eu ouvi uma voz – Pode um homem mortal ser mais justo que Deus?” É precisamente a impossibilidade de identificar aquilo que se apresenta diante do observador que confere à cena sua força. Do mesmo modo, tudo o que possui poder excessivo é capaz de suscitar o sublime, pois encerra a possibilidade da dor, da destruição e da morte. Daí o “frio na espinha” que sentimos diante da ideia de um grande exército (sobretudo quando sua extensão escapa ao olhar) ou de fenômenos naturais e cósmicos cuja magnitude e poder ultrapassam nossa imaginação, como um astro ou um buraco negro.

Não apenas as coisas grandiosas, mas também o infinitamente pequeno pode despertar o sublime. Daí o calafrio que nos percorre ao imaginarmos as criaturas mais diminutas ou as escalas microscópicas da existência: a divisão é tão infinita quanto a adição. Há um horror deleitoso em tudo aquilo que se apresenta como infinito, pois a imaginação é incapaz de alcançar seus limites e, por isso mesmo, não encontra repouso.

É verdade que tudo o que envolve privação – o vazio, a escuridão, a solidão e o silêncio[1] – possui, para Burke, um caráter naturalmente terrível. No entanto, a própria luz também pode produzir o sublime. Quando sua intensidade é tão extrema que deixa de revelar os objetos e passa a ofuscar os sentidos, como ocorre ao olharmos diretamente para o Sol, ela produz o mesmo efeito da escuridão, isto é, a obscuridade. Assim, tanto a ausência quanto o excesso conduzem ao sublime, desde que impeçam a mente de apreender com nitidez aquilo que está diante dela. O mesmo vale para a feiura: ela não é necessariamente sublime, a não ser que seja terrível. E, nessa qualidade, a beleza pode ser igualmente terrível, como atestamos ao imaginar seres mitológicos cuja irresistibilidade seria capaz de provocar a destruição de muitos homens.

O excesso e a privação contribuem, ambos, para a imaginação preencher as lacunas com o terror. Um som extremamente intenso, como o estrondo de um trovão, pode abalar profundamente a mente e despertar o sublime. Mas o mesmo ocorre com sua interrupção. Burke observa que tanto o início súbito quanto a suspensão repentina de um som são capazes de produzir temor. “Poucas coisas”, escreve, “causam maior temor que o bater de um grande relógio, quando o silêncio da noite impede que a atenção esteja demasiado dispersa”. O mesmo vale para uma única batida de tambor repetida em intervalos regulares ou para o estampido distante de um canhão. Assim como uma luz intermitente pode ser mais perturbadora do que a escuridão contínua, sons descontínuos frequentemente se mostram mais aterrorizantes do que o silêncio absoluto, pois mantêm a imaginação em permanente estado de expectativa. Se a voz conhecida de alguma criatura nos proporciona calma, diz Burke, vozes inarticuladas de seres humanos, bem como de animais com dor ou em perigo, também invocam ideias grandiosas.

Ao contemplarmos a natureza de Deus como a união de um poder e de uma sabedoria que ultrapassam infinitamente os limites da compreensão humana, sentimo-nos reduzidos à pequenez de nossa própria condição. Diante de um ser onipotente e onipresente, somos, de certo modo, aniquilados. O terror surge naturalmente de uma força à qual nada pode resistir. Mesmo a alegria é acompanhada pelo temor: quando recebemos benefícios, trememos diante do poder capaz de concedê-los. Como escreve o salmista: “a terra estremece e os céus também caíram na presença do Senhor” (Salmos 139:14).

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Capa do livro original de Burke. Imagem: Wikimedia.

A verdadeira religião, conclui Burke, deve, portanto, ser acompanhada de um temor salutar, capaz de despertar assombro, admiração, reverência e respeito. O terror, em sua filosofia, não possui um valor moral intrínseco. As mesmas paixões que podem sustentar a experiência religiosa também podem ser mobilizadas pelo despotismo. Ainda assim, é significativo que Burke identifique na ideia de Deus, ao mesmo tempo infinitamente poderoso e infinitamente bom, a manifestação mais elevada do sublime. Seja como for, em todos os casos, a origem última do terror é o nosso instinto de autopreservação.

True Crime, questões de gênero e a relevância de Edmund Burke

Estudos recentes apontam uma relação entre o sucesso das séries true crime e as questões de gênero. Uma pesquisa da Universidade de Illinois, por exemplo, constatou que cerca de 70% das avaliações de livros sobre o tema na Amazon foram feitas por mulheres. As razões para esse predomínio são múltiplas e, por sua complexidade, extrapolam os limites deste texto. Interessa-nos apenas observar que parte das interpretações propostas por pesquisadoras contemporâneas mobiliza justamente as ideias de autopreservação e empatia, conceitos que dialogam com a filosofia de Burke. Por exemplo, como afirma Melanie Haughton, professora de Psicologia da University of Derby, o “fato de o público ser majoritariamente feminino tem muito a ver com a desigualdade de gênero na sociedade (…) Podemos acompanhar a resolução de um caso de perseguição sem estarmos nós mesmas em perigo, ver uma pessoa má ser presa e sentir alívio, ou explorar nossos próprios comportamentos e pensamentos sem sermos julgadas”. Na mesma direção, outra pesquisadora observa que “talvez seja mais fácil para as mulheres se colocarem no lugar das vítimas”, já que, na maioria dos casos retratados por esses programas, elas também são mulheres.

Naturalmente, Burke não poderia explicar, por si só, um fenômeno cultural tão complexo e recente quanto a popularidade contemporânea das séries true crime. Ainda assim, sua obra permanece um testemunho de como, muito antes do cinema e do streaming, já se buscava compreender a relação entre terror, deleite, empatia e autopreservação. Que essas categorias reapareçam, ainda hoje, em interpretações sobre a atração exercida pela violência representada, talvez seja um indício da longevidade de suas reflexões.

 A pesquisa de Daniel Gomes de Carvalho sobre o Terror e a Era das Revoluções tem apoio da FAPESP, 2025/08961-7.

Referências

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. São Paulo: Edipro, 2014.

BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica acerca da origem das nossas ideias do sublime e do belo. Edipro, 2016.

CARVALHO, Daniel Gomes de. A historiografia do (T) terror na Revolução Francesa: da perspectiva clássica à revisão crítica (1794-2024). História da Historiografia, v. 18, p. e2269, 2025.

CARVALHO, Daniel Gomes de. O Pensamento Conservador na Europa. In: Aarão Reis et al (org), História Contemporânea: O nascimento do mundo contemporâneo (Vol. 1): Séculos XVIII e XIX, Rio de Janeiro: Record, 2025

FLORENZANO, Modesto. Burke: ‘A Man for All Seasons’. Revista Brasileira de História, 1997, 17.33: 32-69.

GINZBURG, Carlo. Medo, reverência, terror: quatro ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

JONES, Emily. Edmund Burke and the invention of modern Conservatism, 1830-1914: an intellectual history. Oxford University Press, 2017.

Notas

[1] FLORENZANO, Modesto. Burke: ‘A Man for All Seasons’. Revista Brasileira de História, 1997, 17.33: 32-69, p. 36.

Como citar este artigo

CARVALHO, Daniel Gomes de. Por que gostamos tanto de filmes de terror e de séries true crime? In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/series-true-crime-terror/. Publicado em: 11 ago. 2026. ISSN: 2674-5917

Daniel Gomes de Carvalho

Daniel Gomes de Carvalho

Professor de História Moderna no Departamento de História da Universidade de Sao Paulo (USP). Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social pela Universidade de São
Paulo (USP). Podcaster no História Pirata. Autor de "Revolução Francesa" (Contexto, 2022).

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