Silêncio sob ruínas: a destruição da Alemanha

Raros são os relatos sobre a destruição de cidades e vidas durante os bombardeios aliados na Alemanha.

Por Monica Grin

Entre os mais de 7 milhões de alemães mortos na Segunda Guerra Mundial, cerca de 600 mil eram civis que viviam em grandes cidades industriais ou em cidades menores, medievais. Todas foram regularmente bombardeadas pelos britânicos da Royal Air Force (RAF) e pela Força Aérea Americana (USAAF) entre 1943 e 1945. Nesse período, 3 milhões e meio de habitações foram destruídas e 7 milhões e meio de pessoas foram desalojadas. Raros são os testemunhos de alemães e os relatos naquela língua sobre os bombardeios, seu significado e seu impacto sobre a população.

O escritor alemão W. G. Sebald espanta-se com o silenciamento dos alemães diante da trágica devastação das cidades históricas e de seus habitantes, “sem que pareça ter ficado rastro de dor na consciência coletiva”. Mesmo depois de 1947, quando os relatos da guerra começam a compor os esforços de renovação da literatura, quase ninguém falava sobre os horrores dos bombardeiros dos aliados. “No sentir da esmagadora maioria da população alemã, os aspectos mais negros do último ato de destruição tornaram-se uma espécie de tabu, como um segredo de família vergonhoso pelo qual as pessoas nem no seu foro privado podiam responder”, afirma Sebald.

Dresden, cidade alemã, após bombardeio dos Aliados. A guerra aérea, grande responsável pelo massacre da população civil, ainda é pouco referida na memória alemã sobre o conflito. Foto: reprodução da internet.

Os relatos existentes estão aquém da monstruosidade dos fatos, como se a destruição só alcançasse prédios de concreto, e não vidas. Os habitantes recalcaram a memória da devastação causada pela Guerra Aérea, mobilizados que estavam pela reconstrução pragmática de seu país e das regiões atingidas. Essa amnésia ou recalque dos efeitos morais dos bombardeios, bem como do repertório de males psíquicos gerados com os impactos nas cidades e em seus moradores seria a condição para o “sucesso” da Alemanha, que conseguiu se erguer em tão pouco tempo.

Mais recentemente, desde os anos 1990, os historiadores da Alemanha lançaram luzes sobre os ataques aéreos dos aliados, identificando, por exemplo, os planos do primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, para deixar em ruínas cidades alemãs, à parte de qualquer consideração moral. Certa narrativa da história da guerra aérea passou a considerar os bombardeios aliados como atos terroristas. Essa abordagem recebeu inúmeras críticas por sua atitude condescendente com a culpa pelos crimes cometidos especialmente contra os judeus durante o Terceiro Reich. Promovia um contraponto entre culpa e vitimização: os alemães eram culpados pelos crimes nazistas, mas vítimas de guerra área. A mesma ênfase de contraponto ocorria com o tema do estupro em massa praticado por soldados russos contra mulheres alemãs.

Os aspectos mais negros do último ato de destruição tornaram-se uma espécie de tabu, como um segredo de família vergonhosa pelo qual as pessoas nem no seu foro privado podiam responder

Embora se diga que o bombardeio da cidade de Dresden pela Força Aérea Britânica significou o fim das restrições morais na guerra área – resultando na morte de 25 mil pessoas, em milhares de desabrigados e na destruição de sítios históricos – diversas outras localidades alemãs sofreram ataques igualmente regulares e com significativas baixas civis. Foi o caso de cidades com Pforzheim, Darmstadt, Kessel, Berlim, Nuremberg, Colônia, Frankfurt, Aachen, Hamburgo e Wurzburg. Esta última, apenas no bombardeio de 16 de março de 1945 pela RAF, contabilizou 5 mil mortos e teve seu centro histórico totalmente desfigurado. Essas pequenas cidades selecionadas pela Royal Air Forte possuíam sítios arquitetônicos medievais que eram facilmente destruídos nas investidas dos aliados.

Há ainda muito para ser pesquisado sobre os ataques às cidades da Alemanha e sobre a história da guerra aérea. “A realidade da destruição de quase todas as grandes cidades alemães e de muitas outras menores que, podemos supor, dificilmente poderia ser ignorada na época e ainda hoje, marca a fisionomia da Alemanha, durante a reconstrução e depois, como um silêncio auto imposto, como uma ausência que marca também outros domínios do discurso, da conversa familiar à escrita da história”, criticou W. G. Sebald nos anos 1990. “Este déficit escandaloso que ao longo dos anos se foi tornando para mim mais evidente, recordou-me que tinha crescido com a sensação de que me ocultavam qualquer coisa, em casa, na escola e também por parte dos escritores alemães cujos livros lia na esperança de colher mais informação sobre os acontecimentos monstruosos que ocupavam o pano de fundo da minha vida”.


Referências Bibliográficas

ENZENSBERGER, Hans Magnus. Hammerstein ou a obstinação: uma história alemã. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SEBALD, Winfried G.; ANDERSCH, Alfred. Guerra aérea e literatura: Com um ensaio sobre Alfred Andersch. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

VON BENDA-BECKMANN, Bas. A German catastrophe?: German historians and the allied bombings, 1945-2010. Amsterdam University Press, 2010.


Monica Grin é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e co-organizadora do livro “Violência na História: memória, trauma e reparação” (Ponteio, 2012) e autora de “Identidades ambivalentes: desafios aos estudos judaicos no Brasil” (7 Letras, 2016), ao lado de Michel Gherman. O texto “Silêncio sob ruínas” foi publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 10, No. 10, Maio de 2015. O direito para publicação no Café História foi gentilmente cedido pela autora da publicação.


Como citar este artigo

GRIN, Monica. Silêncio sob ruínas (artigo).  In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/silencio-sob-ruinas/‎. Publicado em: 12 mar. 2018. Acesso: [informar data].

5 Comentário

  1. A psicologia Gestalt nos informa que a nossa casa seja a nossa cabeça, ou seja, o que se passa numa é o mesmo ou muito próximo ao que se passa na outra. Talvez por esse caminho se possa entender o que de fato tenha acontecido. Relatos pessoais tem-me afirmado que cada um dos aliados levou pra casa um pedaço do que restou da Alemanha, por fim, até os Norte americanos levaram os arquivos de patentes e a tecnologia já em desenvolvimento, a tal ponto que os a alemães que sobreviveram tiveram de recomeçar em praticamente um tudo, e dessa vez cometendo menos erros que no passado recente. O caso da patente da máquina de escrever IBM é um exemplo típico do que está agora em discussão.

  2. Instigante o artigo de Monica Grin acerca do silêncio dos alemães a respeito da destruição causada pelos bombardeios angloamericanos, principalmente pelo Bomber Command da RAF – desde 1942 e não desde 43 como citado. Faltou porém dizer que este silêncio está inserido em “silêncios” outros, tão ou mais significativos, como no que toca ao extermínios de eslavos (ca. de 30 milhões), judeus, comunistas, liberais democratas, homossexuais, ciganos e como também aos estupros de alemãs pelos soviéticos no fim da guerra. Em suma, os alemães não silenciaram somente acerca da destruição imposta por aviões às suas cidades mas também se calaram sobre a destruição ainda maior causadas por eles, das mais diversas formas, assim como – e isto é fundamental – acerca da abjeta aceitação do nazismo por milhões.

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