Por que os aliados não salvaram os judeus durante o Holocausto?

Uma das justificativas das forças aliadas era a de que a melhor estratégia para salvar os judeus seria vencer a guerra. Auxílio aos internados em campos de concentração e guetos veio basicamente da resistência. 

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

Desde os primeiros momentos da Segunda Guerra Mundial, sabia-se, com mais ou menos precisão, da perseguição e morte de judeus na Alemanha e em seus territórios ocupados. Essas informações vinham de agentes secretos, testemunhas oculares, oficiais do exército, membros da resistência polonesa e até mesmo de soldados alemães que voltavam para a casa de licença e conversavam com amigos e parentes. Muito antes do fim da guerra, portanto, já se tinha notícias do desaparecimento de comunidades judaicas inteiras na Europa. O problema é que nem todos acreditavam nessas histórias. 

Os relatos eram tão bárbaros, tão inacreditáveis, que países como Inglaterra e França custaram a acreditar neles, achando que essas narrativas não passavam de propaganda de guerra ou que eram histórias exageradas que os países ocupados pelos nazistas contavam a fim de receber maior atenção. Isso só começou a mudar quando a Alemanha invadiu os territórios soviéticos, em meados de 1941. A partir daí, a escala da violência foi tão clara e tão a céu aberto, que não era mais possível ignorar que havia algo errado. 

Mesmo assim, muito pouco foi feito para aliviar o sofrimento daqueles que viviam em guetos e campos de concentração e extermínio. Há três explicações básicas para isso. Em primeiro lugar, as forças aliadas não consideravam a libertação de prisioneiros civis um objetivo de guerra. Enquanto houvesse guerra e enquanto esta ainda não fosse vencida pelos aliados, a prioridade das tropas era lutar contra o Eixo no campo de batalha, efetivo militar contra efetivo militar, devendo a ajuda aos civis ser feita por membros da resistência, o que até acabou acontecendo, mas de forma muito limitada.

Holocausto - por que não salvar os judeus
Os três campos principais no complexo de Auschwitz na fotografia de 26 de junho de 1944. A foto foi feita por uma missão de reconhecimento fotográfico aliada (Comissão nº 60PR / 522). Podemos ver também a fábrica do IG Farben, a zona industrial próxima ao Campo I, o conjunto de Oswiecim. Foto: Yad Vashem.

Em segundo lugar, muitas das autoridades aliadas temiam que ações contra guetos e campos de concentração pudessem gerar algum tipo de retaliação por parte da Alemanha, em posse da qual estavam milhares de soldados aliados presos em campos de prisioneiros de guerra. Caso algo acontecesse com esses homens, o apoio da opinião pública ao esforço de guerra poderia ser seriamente comprometido. 

Em terceiro lugar, alegava-se uma dificuldade logística: os guetos, em geral, ficavam em áreas muito populosas, próximas de grandes cidades, muito bem guardadas militarmente, ao passo que muitos campos de concentração, instalados no interior, eram também de difícil acesso e com o caminho até lá muito bem protegido, já que serviam, em vários casos, a produção industrial, por meio do fornecimento de mão-de-obra. Para chegar até esses “alvos”, os aliados teriam que empregar armamento pesado e desviar parte das tropas e recursos para locais que não eram considerados estratégicos. 

Não se deve ignorar ainda o antissemitismo presente no meio social e também na própria estrutura de Estado. Segundo a historiadora Deborah Lipstadt, “os judeus eram sempre vistos como uma ameaça ao bem-estar dos Estados Unidos maior do que a de qualquer outro grupo nacional, religioso ou racial”. Pesquisas de opinião pública realizadas na época confirmam essa percepção. Segundo sublinha Michael Marrus, “em junho de 1944, com a França prestes a ser libertada, 44% dos americanos ainda consideravam os judeus uma ameaça, ao passo que apenas 6% pensavam isso dos alemães e 9% expressavam tal opinião sobre os japoneses”. Em suma, fossem os judeus vistos com mais humanismo nesses países e talvez o seu resgate e o amparo poderia ter sido considerado um objetivo humanitário dentro do plano da guerra. 

Bombardear Auschwitz-Birkenau?

Ao examinar a possibilidade de se bombardear o complexo de extermínio Auschwitz-Birkenau, os historiadores Avraham Milgram e Robert Rozett, do Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Israel, dizem que em junho de 1944, os aliados tinham informações detalhadas sobre Auschwitz, inclusive fotografias aéreas feitas por aviões. Por que isso, então não ocorreu? Milgram e Rozett explicam da seguinte forma a posição aliada:

“Alegaram que era tecnicamente impossível chegar ao campo. (…) Eles argumentaram que tal bombardeio não só não faria cessar o extermínio, como seria um desperdício de esforços bélicos indispensáveis para operações decisivas, além de colocar os pilotos em perigo. A única maneira de salvar os judeus, alegaram, seria vencer a guerra. Os principais argumentos eram, portanto, a ‘salvação pela vitória’ e ‘não desperdiçar energias bélicas’. Os aliados queriam evitar a impressão de estar lutando em prol dos judeus. A pergunta, se o bombardeio do campo de extermínio teria êxito ou não, é uma questão ainda aberta. No entanto, não há dúvida de que os aliados não tiveram a mesma energia e determinação para salvar os judeus como os nazistas tiveram para assassiná-los”. 

A ajuda aos judeus demorou muito. Nos casos em que esta realmente chegou durante a guerra, era proveniente dos movimentos de resistência, dos governos exilados e da comunidade judaica internacional, que procurou de todas as formas mobilizar recursos para tentar diminuir o número de mortes. No fim das contas, essa demora foi fatal para boa parte da comunidade judaica da Europa, contribuindo decisivamente para o número aproximado de seis milhões de mortos no Holocausto. 

Referências Bibliográficas

MILGRAM, Avraham; ROZETT, Robert. O Holocausto – as perguntas mais frequentes. Jerusalém: Yad Vashem, 2012. 

MARRUS, Michael R. A assustadora história do Holocausto. Prestígio: Rio de Janeiro, 2003.

LIPSTADT, Deborah. Beyond Belief: The Americans Oress and the Coming of the Holocaust, 1933-1945. Nova York, 1986. 

Bruno Leal Pastor de Carvalho é fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Mestre em Memória Social (UNIRIO, 2009), Especialista em História Contemporânea (PUCRS, 2010), Graduado em História (UERJ, 2006) e Comunicação Social (UFRJ, 2006). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Por que os aliados não salvaram os judeus durante o Holocausto? (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/por-que-os-aliados-nao-salvaram-os-judeus-no-holocausto/. Publicado em: 30 set. 2019.

9 Comentário

    • Oi, Nilton. Tudo bem? Obrigado pelo comentário. Há na literatura especializada diversos trabalhos que discutem o fenômeno do antissemitismo nos Estados Unidos. Também há algumas pesquisas de opinião pública, como a que eu cito no artigo, que mostram como o antissemitismo existia no país. O preconceito existia tanto no meio social quanto em alguns setores governamentais. Outra coisa: é muito importante destacar que o Estado de Israel é fundado apenas em 1948. E que o alinhamento que conhecemos atualmente entre Estados Unidos e Israel é tardio, por volta dos anos 1960. Há dois livros legais a respeito: “Anti-Semitism in America”, de Harold Earl Quinley, Charles Young Glock, e The Holocaust in American Life, do Peter Novick. Grande abraço!

  1. Eles não quiseram lutar por nós. Mas 1,5 milhao de bravos soldados judeus envergaram as fardas Aliadas, inclusive do Brasil. De certa forma, cada judeu que habita este planeta, é também um sobrevivente – a prova viva de que os inimigos de Israel não prosperaram. A maior guerra assimétrica da história aconteceu ha 70 anos, entre os judeus da Europa e a Alemanha Nazista, com todo seu poderio, contra civis judeus desarmados, incluindo idosos, mulheres, crianças, até recém-nascidos. Sem nenhuma defesa nem ajuda, ainda assim tentaram resistir. Apesar de 6 milhões de baixas esta guerra foi vencida pelo Povo Judeu. Enquanto o pretenso III Reich que deveria durar 1000 anos desapareceu encoberto pela pátina do tempo, o Povo de Israel continua sua caminhada de quase 6 mil anos, e venceu, a um alto custo em vidas humanas – podemos levantar bem alto essa bandeira: ESTAMOS AQUI ! Há alguns anos, arqueólogos descobriram em Jerusalém fragmentos das muralhas do aquartelamento da então poderosa Décima Legião Romana, enviada pelos Césares para invadir a Terra Santa. E onde está a famosa Decima Legião, com seus guerreiros, lanças, espadas e catapultas ? Resposta – desapareceu para sempre há quase 20 séculos. Nada restou, além de pedaços se pedra enterrados na Jerusalém de Ouro, capital do moderno Estado de Israel, iluminado pela luz da Torá. Hitler também tentou destruir os seguidores da Lei de Moisés, era a encarnação de Amalek, assim como Haman da Pérsia. Todos desapareceram, sem conseguir abalar a Eternidade de Israel. É necessário que cada um de nos esteja preparado para incorporar-se aos múltiplos elos da corrente de ouro que interliga as gerações, recebendo a bandeira de luta que os últimos sobreviventes do holocausto nos entregam, honrando assim o mandamento que a Bíblia nos ensina: ZACHOR – RECORDAR.

  2. Ver tambem nicholas Donin 1240 Ano Em que ele se tornou cristao e contou os horrores contidos no Talmud foi tao grave que muitos judeus foram mortos em Paris começava a Inquisiçao.

  3. «Os relatos eram tão bárbaros, tão inacreditáveis, que países como Inglaterra e França custaram a acreditar neles, achando que essas narrativas não passavam de propaganda de guerra» – propaganda de guerra aliada.

  4. Boa tarde, Bruno! Eu cheguei a visitar o Museu de Memória e Tolerância na Cidade do México e lá um dos pontos destacados pela mostra referente ao Holocausto foi que Auschwitz não foi bombardeada porque a prioridade seria atacar reservas de petróleo alemãs. Inclusive, uma das placas que registrei, explicava que a fábrica de petróleo sintético I. G. Farben foi bombardeada e estava a somente 8 km desse campo de genocídio. A informação é correta?

  5. Oi, Raissa. Tudo bem? Sim, a escolha de “prioridades” se encaixa totalmente dentro dos propósitos militares. Mas eu não sei se a a fábrica de petróleo de fato foi bombardeada. Vou procurar descobrir e te falo. Mas como a curadoria desses museus é sempre muito bem feita, imagino que sim. Abraço!

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