Lobisomens, fantasmas e o luar: o medo noturno no início da Idade Moderna

Embora bastante associada à razão, à ciência e à tecnologia, a Idade Moderna ainda foi muito marcada por medos de épocas passadas.

Por Gil Karlos Ferri

Quem tem medo do escuro da noite? A história da humanidade é repleta de assombros noturnos: medo da lua, dos lobisomens, dos fantasmas, dos animais, da floresta, dos saqueadores, de tudo aquilo que pudesse existir (ou não) nas penumbras. Este artigo analisa os aspectos históricos do medo noturno e suas implicações sociais na Europa da Idade Moderna.

Minha proposta é contextualizar essas crenças em uma sociedade que se abria a uma nova fase, dita moderna, mas na qual persistiam angústias muito parecidas com a do período medieval. Em outras palavras, o dinamismo e a efervescência intelectual do período moderno são notáveis, mas ainda havia nele uma cultura popular muito atrelada ao sobrenatural.

As origens sociais do medo

Quando o sol não mais ilumina as ações dos homens, eis que a noite os coloca diante de temores, suspeitas e aflições que emanam da escuridão. Essa afirmação em estilo quase literário pode ser uma boa forma de descrever os europeus do início da Idade Moderna.

A despeito da modernidade ser frequentemente associada à razão, à ciência e à tecnologia, os europeus dos séculos XIV ao XVIII mantiveram traços antigos e medievais em sua mentalidade acerca dos medos. Como a barreira entre o mundo real e os possíveis mundos acreditados pelo imaginário de então ainda não estava bem definida, o sobrenatural continuava sendo uma constante em suas vidas. A floresta, por exemplo, se durante o dia era lugar de trabalho, à noite era uma ameaça eminente – algo bastante significativo em uma época em que o campo era a morada de grande parte dos europeus.1

Medo noturno na história
Detalhe da obra Osservazioni Astronomiche: La Luna. Donato Creti, 1711. Acervo: Musei Vaticani.

O historiador francês Jean Delumeau explica que os temores desta época podiam ser compreendidos tendo em vista as desgraças que foram se acumulando desde a Idade Média, afetando de forma duradoura os espíritos europeus: “[…] a peste negra, que marca em 1348 o retorno ofensivo das epidemias mortais; as sublevações que se revezam de um país a outro do século XIV ao XVIII; a interminável Guerra dos Cem Anos; o avanço turco inquietante a partir das derrotas de Kossovo (1389) e Nicópolis (1396) e alarmante no século XVI; o Grande Cisma – “escândalo dos escândalos” –; as cruzadas contra os hussitas; a decadência moral do papado antes do reerguimento operado pela Reforma Católica; a secessão protestante com todas as suas sequelas – excomunhões recíprocas, massacres e guerras”.2

O cenário de inquietação diante do desconhecido também deve ser compreendido em face às condições de vida da época. Carência alimentar, doenças e práticas medicinais arcaicas contribuíam para aumentar as taxas de mortalidade. A educação, por sua vez, era para poucos. Apesar de o movimento renascentista ter sido libertador para alguns homens letrados, a grande maioria da população continuava imersa na incompreensão dos mistérios do mundo.

A doutrina da Igreja pode ser tomada também como outra fonte para o medo noturno. Com base em seus livros e pensadores, ela enfatizava e relacionava a noite com as trevas, dando à escuridão um caráter de angústia e cautela. A propósito desse tipo de temor,  Sigmund Freud comenta em seu “Moisés e o monoteísmo” que os povos cristãos, “sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que eram seus ancestrais, bárbaros politeístas”.3

Lua, lobisomens e fantasmas: alguns medos dos primeiros modernos

Em oposição ao sol, que irradia luz e vida, a lua era tida por muitos homens do início do período moderno como “astro errante” e misterioso fomentador das marés e da agricultura. Segunda a crença em vigência, os males noturnos são assistidos por este astro, que é, então, o cúmplice de todo o mal que a noite comporta. Satã é, por excelência, o soberano das sombras e comanda os sabás (encontros demoníacos de bruxos e bruxas) sob a luz do luar.4

A lua influenciaria ainda a Terra e as formas de vida que nela estão. Acreditava-se, por exemplo, que a lua podia causar a loucura, pois, uma vez que os animais e as plantas sentem-se mexidos pela força dela, o homem também é abalado por seus caprichos. Várias ações do cotidiano eram realizadas levando em consideração o estado do astro noturno, ainda que tais práticas e crenças fossem condenadas pela Igreja.5

Em uma época em que os homens viviam muito próximos do ambiente natural, os animais selvagens também ocupavam um lugar de destaque no imaginário do medo. O lobo era visto por muitos como um animal indomado e sanguinário, inimigo dos homens e dos rebanhos. Para combater os lobos, caçadas coletivas eram realizadas. Como exemplo, o abade Saint-Hubert promulgou um decreto em Luxemburgo no ano de 1696, apresentando os estragos causados por esses animais e ordenando a organização da população para caçá-los. Contra eles, as armas da religião não eram excessivas. O “Pai Nosso do Lobo”, mesmo sem o aval da Igreja, era rezado como precaução em diversos povoados europeus.6

No imaginário dos camponeses, havia ainda o temor quanto ao lobisomem, ou o homem-lobo. Em descrições da época, ele se parece com um lobo, porém não tem as patas tão compridas. O animal que tantos malefícios causava ao homem assumiu uma forma grotesca e assustadora que, por excelência, tem na escuridão sua melhor expressão. Para a mentalidade do período, a noite era aliada dos lobos e a lua, por sua vez, fomenta a transformação deste ser. O lobisomem mantém-se ativo durante a escuridão, atiçando os cães e causando prejuízos ao atacar os rebanhos. Eis que o homem-lobo é uma crença que regulamenta a noite: causa medo, mas serve para justificar o que o escuro e o temor não deixam compreender. As ações atribuídas ao homem-lobo também podiam despertar a inquietação sobre o vizinho que tenha um modo de visa suspeito, funcionando assim como bodes expiatórios. 

 Para a mentalidade do período, a noite era aliada dos lobos e a lua, por sua vez, fomenta a transformação deste ser. O lobisomem mantém-se ativo durante a escuridão, atiçando os cães e causando prejuízos ao atacar os rebanhos. Eis que o homem-lobo é uma crença que regulamenta a noite: causa medo, mas serve para justificar o que o escuro e o temor não deixam compreender. 

Além da lua e dos lobos, os fantasmas eram outro elemento de terror no imaginário dos homens europeus no princípio da modernidade. A mentalidade coletiva dos séculos XV e XVI tinha por certo que os mortos podiam voltar. No âmbito popular, as aparições eram costumeiramente relatadas, e eram vistas principalmente à noite, na hora de dormir. O sono podia ser atormentado por quaisquer barulhos banais, mas que, para uma sociedade crente, podia ser um fantasma. Crucifixo, rosários e objetos sacros têm o seu lugar no quarto, auxiliando o homem moderno em um bom sono – afinal de contas, o moderno é um sujeito que crê, mas que não deixa sua vida ser paralisada por esse medo iminente.7

Embora aterrorizantes, muitas aparições cumpriam uma função social importante: quase sempre traziam consigo uma mensagem. Colaboravam, por exemplo, para a vida dos que ficaram na Terra, confessando um crime ou testemunhando algo. As viúvas e os viúvos eram frequentemente visitados por tais almas, e estas podiam auxiliá-los em alguma situação ou reprimi-los por não estarem cumprindo um trato anteriormente estabelecido, como a promessa de não se casar novamente. Os fantasmas também pesavam na consciência de quem cometia algum delito. E se as almas podiam ser enviadas do Purgatório com alguma finalidade, corrigir um crime seria um bom motivo para infortunar o culpado.8

Vale lembrar que, no início do período moderno, a Europa tinha uma baixa expectativa de vida, e todos estavam expostos ao óbito súbito. Isso contribuía para a crença nos fantasmas: a morte era uma ideia sempre presente. Pessoas que em um momento estavam ativas neste mundo, em outro já não estavam. Um vazio que hoje é menos perceptível, pois os idosos se afastam da vida social lentamente, o que torna sua falta, grosso modo, menos sentida.9

Concluindo

Em um clima de impotência diante do desconhecido, o medo fomentou as crenças dos europeus modernos a fim de anestesiar uma situação de penúria e falta de compreensão acerca do mundo. De fato, o contexto psíquico-social em que os indivíduos estão inseridos produz as crendices e realidades de cada época. O medo noturno é, portanto, uma expressão cultural –  e as crenças que dele emanam constituem por si só uma explicação para quem o teme.

 Jean Delumeau, assim, provoca: “devemos falar então de ‘Idade Média Moderna’ e dizer que a modernidade secreta novos arcaísmos? Não é antes a revelação de que a racionalidade – superficial – de nossa civilização camuflou, mas não destruiu, reflexos coletivos que não esperam senão as ocasiões propícias para se manifestar novamente? O que é provado pelo estudo dos rumores que continuam a circular um pouco em toda parte em nossas cidades”.10

A partir do século XVIII podemos notar um crescente abandono das crendices e medos. Entretanto, eles não desapareceram por completo da cultura popular, mas sim foram sendo modificados no decorrer do tempo. Ainda hoje, mesmo no século XXI, sociedades tradicionais e interioranas continuam preservando mitos noturnos ancestrais. Conforme sublinha  Danuta Dawidowicz Pkladek, “a tríade ‘mente-corpo-espírito’ é mais forte que qualquer substância bioquímica, eles transcendem e desafiam os conhecimentos científicos”.11


Notas

1 VAN DÜLMEN, Richard. Los Inícios de La Europa Moderna. 1550-1648. 4ª ed. Madrid: Siglo XXI, 1990. p. 96.

2 DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 302.

3 FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo (1939). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXIII. p. 59. Disponível aqui. Acesso em: 18 jan. 2018. 

4 DELUMEAU, op.cit., p. 117.

5 Idem.

6 Ibidem, pp. 103 e 105.

7 DUBY, Georges (org.). História da Vida Privada – vol. 2: da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 305.

8 THOMAS, Keith. Religião e o declínio da magia: crenças populares na Inglaterra: séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. pp. 482-484.

9 Ibidem, pp. 486-489.

10 DELUMEAU, Op.cit, p. 226.

11 POKLADEK, Danuta Dawidowicz. Medo: Compreensão e Enfrentamento. Santo André: Instituto Psicoethos, 2019. Disponível em aqui. Acesso em: 18 jan. 2019.


Sugestões Bibliográficas

DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

DUBY, Georges (org.). História da Vida Privada – vol. 2: da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo (1939). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXIII. Disponível aqui. Acesso em: 18 jan. 2018. 

POKLADEK, Danuta Dawidowicz. Medo: Compreensão e Enfrentamento. Santo André: Instituto Psicoethos, 2019. Disponível aqui. Acesso em: 18 jan. 2019.

THOMAS, Keith. Religião e o declínio da magia: crenças populares na Inglaterra: séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

VAN DÜLMEN, Richard. Los Inícios de La Europa Moderna. 1550-1648. 4a ed. Madrid: Siglo XXI, 1990.

Gil Karlos Ferri – Bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (2014) e Mestre em História pela Universidade Federal da Fronteira Sul (2018). Pesquisa e leciona História. Sua pesquisa tem ênfase em estudos ítalo-brasileiros, vitivinicultura e História Ambiental Global.

Como citar este artigo

FERRI, Gil Karlos. Lobisomens, fantasmas e o luar: o medo noturno no início da Idade Moderna. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/medo-noturno-na-historia. Publicado em: 21 jan. 2019. Acesso: [informar data]

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