Conselho escolar nos EUA proíbe “Maus”, premiado livro sobre o Holocausto

Membros de um conselho escolar do Tennessee, nos Estados Unidos, decidiram que “Maus”, obra do premiado artista Art Spiegelman, não deveria ser adotada. O uso de alguns “palavrões” e uma cena nudez (animal) foram mencionados como justificativa.

"Maus" em livraria da Fnac. Foto: ActuaLitté.

Um rato desenhado nu e o uso de alguns palavrões fizeram com que os membros do Conselho Escolar do Condado e Mcminn, no Tennessee, Estados Unidos, vetassem a história em quadrinhos “Maus”, desenvolvida pelo artista judeu Art Spiegelman nos anos 1980 e que usa personagens animais para retratar as experiências de seus pais no Holocausto. “Maus” venceu de mais de 20 prêmios, incluindo um Pulitzer, e é adotado em escolas do mundo todo.

A reunião escolar aconteceu no dia 10 janeiro para deliberar sobre o currículo da oitava série, frequentada por alunos que têm, em geral, entre 13 e 14 anos. O caso, entretanto, só foi tornado público ontem, quarta-feira, às vésperas do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, celebrado hoje, 27 de janeiro. As atas do encontro foram tornadas públicas (veja aqui) e mostram que 10 membros do conselho escolar votaram a favor da proibição.

“Doutrinação”

O Diretor Parkison foi o primeiro a falar na reunião. “Há uma linguagem grosseira e censurável neste livro”. Parkinson sugeriu que o material fosse, por isso, editado, mas devido a riscos envolvendo direitos autorias, a equipe jurídica consultada pelo conselho sugeriu que nenhuma edição fosse feita, o que levou, então, a proibição completa da obra.

Um membro do Conselho, Tony Allman, tentou justificar o veto desqualificando Spiegelman. “Posso estar enganado, mas esse cara que criou a arte fazia as ilustrações para a Playboy. Você pode olhar para a história dele, nós estamos deixando-o levar suas ilustrações para alunos do ensino fundamental”.

Conselho escolar nos EUA proíbe “Maus”, premiado livro sobre o Holocausto 1
Art Spiegelman em divulgando seu livro “Breakdowns”. Foto: Michael Rhode.

Outro membro, Mike Cochran, alega que “Maus” estaria expondo os alunos à vulgaridade e à nudez. Ele fala também em “doutrinação” para se referir ao material. “O meu problema é que, ao que parece, todo o currículo é desenvolvido para normalizar a sexualidade, normalizar a nudez e normalizar a linguagem vulgar. Se eu estivesse tentando doutrinar os filhos de alguém, é assim que eu faria. (…) Acho que precisamos rever todo o currículo”.

Conservadorismo

De acordo com o jornal britânico The Guardian, o veto de “Maus” deve ser compreendido à luz de um movimento conservador amplo. “A decisão ocorre quando grupos conservadores em todo o país estão intensificando campanhas para banir livros das bibliotecas escolares, muitas vezes focados em obras que abordam questões raciais, LGBTQ ou comunidades marginalizadas.”

O professor Odilon Caldeira Neto, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, especialista em movimentos de direita e de extrema-direita, tem uma leitura parecida com a do veículo. Em conversa com o Café História, ele comentou o caso ocorrido nos Estados Unidos:

“Por trás de argumentos moralistas e pueris, este evento ilustra a forma como ocorrem disputas sobre a memória do Holocausto, e particularmente um fenômeno conservador, que busca o esvaziamento e sua relativização. Ao argumentarem que uma determinada obra deveria ser vetada por apresentar a nudez antropomorfizada, o genocídio é lido como um fenômeno banal, tal como fazem outros grupos conservadores ao afirmarem que o Holocausto é um fenômeno comparável à vacinação contra covid-19”, disse o historiador.

O artista fala

Em entrevista dada à rede americana CNBC nesta quarta-feira, Art Spiegelman disse que conhecia muitos jovens que tinham aprendido com o seu livro, e que estava “perplexo” com o caso. “Isso está me deixando de boca aberta, tipo, ‘O quê?’”, disse o autor de 73 anos, acrescentando que achava que o conselho escolar era “orwelliano” por aprovar a proibição e que algo “muito confuso” estaria acontecendo no Tennessee.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.