No front das imagens: as fotografias da Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial também foi travada no front das fotografias. Civis e militares produziram uma enorme quantidade de registros visuais do conflito. Essas fotos, contudo, não são meros registros da realidade. Elas intencionam contar uma determinada narrativa da guerra.

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Escute este artigo, na íntegra, na voz de Bruno Leal, editor do Café História.

A Segunda Guerra Mundial é um conflito pop. Brincando com os versos de uma conhecida canção dos Engenheiros do Hawaii, essa guerra “tá na capa da revista”. E isso, ao menos em parte, graças a uma grande quantidade de fotos que esse conflito legou. A difusão de fotografias da Segunda Guerra Mundial foi e é tão intensa que chega a criar uma relação de intimidade tremenda entre a guerra e um público que não a viveu. Esse efeito é consequência direta de décadas de produção contínua da indústria cultural e de um mercado de antiguidades que não cessa de crescer.

Por um lado, isso é bom. Afinal, quanto maior a visibilidade da Segunda Guerra Mundial, maiores as oportunidades para uma boa divulgação do conhecimento histórico sobre o conflito. Por outro lado, isso pode gerar um entusiasmo ingênuo que tende a reduzir não só a nossa percepção da violência da guerra, como esconder os objetivos e as intenções com que essas imagens foram feitas. Mais do que um conjunto de curiosidades, essas fotos nos ajudam a entender um outro front: o front das imagens.

No front das imagens

A Segunda Guerra Mundial fomentou a produção de uma quantidade incomensurável e variada de documentos de naturezas oficial e particular. É o caso, por exemplo, dos registros produzidos pelos estados-maiores das forças armadas ou das cartas trocadas entre os soldados nas frentes de combate e seus amigos e familiares. Esse material serve atualmente de fonte para diversos tipos de publicações sobre o conflito, entre matérias de jornais e revistas, livros de memórias ou trabalhos acadêmicos.

As imagens também fazem parte desse patrimônio documental, especialmente as fotografias. Assim como os demais documentos gerados durante o conflito, são fotografias oficiais e não oficiais, ou seja, emitidas por órgãos de comunicação social e propaganda de governos ou por civis e militares que vivenciaram o cotidiano da guerra.

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Aviador alemão pertencente às forças da Luftwaffe em operações de guerra no norte da África. Fotografia distribuída pela “RDV”. Coleção Arquivo Histórico de Joinville – AHJ.

Contudo, segundo alertou o historiador Jacques Le Goff, um documento histórico não nasce como documento histórico, mas se torna um, devido a razões que fizeram com que ele sobrevivesse à ação do tempo, sendo elevado à categoria de “fonte histórica”. É isso, precisamente, o que não podemos esquecer quando vemos um álbum de fotografias de nossos avós ou de uma feira de antiguidades. As fotografias produzidas durante a Segunda Guerra Mundial foram concebidas para fins relacionados à guerra, tais como instrução, propaganda, ou mesmo recordação do serviço militar.

Organizações tais como a Propaganda Kompanie (Alemanha) e a US Army Signal Corps (Estados Unidos), por exemplo, foram responsáveis pela produção de filmes, fotografias e outras imagens visuais acerca das forças armadas dos seus respectivos países. O material fílmico e fotojornalístico produzido foi distribuído à imprensa através de órgãos de informação e propaganda, como por exemplo, as Estradas de Ferro Alemãs ou “RDV”, o Serviço Britânico de Notícias e o Serviço de Informações do Hemisfério – SIH, responsáveis pelo abastecimento de material fotojornalístico para revistas e jornais brasileiros durante a guerra. A intenção desses órgãos era construir uma determinada narrativa da Segunda Guerra Mundial. Muitas foram usadas para exaltar os esforços do próprio país, enquanto que outras foram feitas para macular o inimigo. Essas organizações estavam tão preocupadas com a construção dessas narrativas que chegaram a manter sucursais em diversos países. No Brasil, elas estiveram localizadas na cidade do Rio de Janeiro, na época, Distrito Federal. O material distribuído para os jornais e revistas do país ia ao encontro das diretrizes do Departamento de Imprensa em Propaganda – DIP, responsável pelo controle dos meios de comunicação no Brasil durante o Estado Novo (1937 – 1945), que determinava o que podia ou não ser publicado no país a respeito da guerra.

“Efeito de realidade”

Ao abordar a força das fotografias, o historiador inglês Peter Burke tomou emprestado do crítico Roland Barthes a expressão “efeito de realidade” para dimensionar o impacto que a imagem fotográfica produz entre as pessoas. Inicialmente, a fotografia foi considerada um registro fidedigno da realidade, produzido por uma operação técnica, em que a ação humana se restringia somente ao disparo do obturador. Assim, uma fotografia seria sempre “imparcial”, não registrando nada além da “realidade”. Uma fotografia não poderia mentir e, como diz o ditado, “contra fatos não há argumentos”. No caso específico da Segunda Guerra Mundial, as fotografias distribuídas à imprensa buscavam conferir esse “efeito de realidade” às narrativas dos Aliados e do Eixo.

Mas quando examinamos as fotografias da Segunda Guerra com um pouco mais de cuidado, logo constatamos as intenções de quem estava atrás do obturador da câmera. Na batalha das fotografias, os inimigos capturados eram ridicularizados, a exemplo da figura a seguir, distribuída pelo Serviço Britânico de Notícias, em que um grupo de soldados italianos capturados pelos ingleses em Reggio Calabria, no sul da Itália, foi representado como uma “ópera cômica”, reforçada pelos uniformes puídos e pela patética sombrinha que um deles está a segurar. De acordo com a legenda em português fixada no verso da fotografia: “[…] um prisioneiro italiano chega à retaguarda das linhas aliadas, com um guarda-sol brilhantemente colorido, evidentemente preparando-se para uma longa estadio [sic.] sob o sol africano”.

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Fotografia fornecida pelo Serviço Britânico de Notícias em que foi retratado um grupo de prisioneiros italianos, no início da Campanha da Itália, em 1943. Coleção do autor.

Esse tipo de material fotojornalístico foi destinado à publicação em jornais ou revistas. Para facilitar a operação, sobre seu verso foi fixada uma etiqueta com um breve texto datilografado em português que deveria servir de legenda quando da publicação da imagem.

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Fotografia fornecida pela International News Photo em que aparecem prisioneiros japoneses entrando em um campo de prisioneiros após a Batalha de Okinawa, em 1945. Coleção do autor.

A humilhação dos prisioneiros é um tema recorrente, por sinal, como na figura acima, em que um grupo de prisioneiros japoneses seminus, após da Batalha de Okinawa, em 1945, é conduzido para dentro de um campo de internação improvisado, conforme sugere uma desleixada cerca de arame farpado.

Na óptica dos aliados ocidentais, britânicos e americanos, a Segunda Guerra Mundial foi uma cruzada da civilização contra a barbárie, da liberdade contra a escravidão, da democracia contra o fascismo. Essas representações sobre o conflito foram expressas através de fotografias que retrataram toda a destruição causada pelo Eixo, em especial, suas vítimas civis e seus alvos não militares.

Já o material fotojornalístico fornecido pela Alemanha, pelo menos até 1942, retratou o seu próprio exército como uma força militar moderna, profissional e audaciosa, que supera rapidamente o inimigo. Além desses temas, o anticomunismo e o antissemitismo também foram assuntos explorados nas fotografias alemãs.

Mas se é verdade que muitas das fotografias nasceram à serviço de uma determinada narrativa, também é verdade que nem todas essas narrativas são pura manipulação da realidade. O fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 8 de maio de 1945, foi acompanhado da revelação dos crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados pelos alemães e seus aliados, especialmente, no leste europeu. Aquilo que ficou historicamente conhecido como Holocausto, isto é, o processo de genocídio dos judeus europeus, tornou-se público, e as fotografias foram fundamentais que a sua publicização. Fotografias feitas em campos de concentração, tais como Dachau, ajudaram a denunciar a barbárie nazista para a opinião pública internacional.  Mais que materiais de guerra, essas fotos foram os primeiros registros públicos de um dos aspectos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. Imagens que, como bem observou Peter Burke, podem ser consideradas “evidências” da história.

Referências

BURKE, Peter. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidência histórica. São Paulo: Editora UNESP, 2017.

KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo: estudos sobre história. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC-Rio, 2014.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 4. ed. Campinas: Unicamp, 1996 (Coleção Repertórios).

OLIVEIRA NETO, Wilson de. O “misterioso” álbum 3.1.8.36.7.: fotografia e história no contexto da Segunda Guerra Mundial. 2019. 236 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultural, UFRJ, Rio de Janeiro, 2019.

Como citar este artigo

OLIVEIRA NETO, Wilson de. No front das imagens: as fotografias da Segunda Guerra Mundial. In: Café História. Publicado em 19 abr. de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/as-fotografias-da-segunda-guerra-mundial/. ISSN: 2674-59.

Wilson de Oliveira Neto

Doutor em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, professor adjunto da Univille e pesquisador de História Militar com ênfase em fontes impressas e visuais. Autor de trabalhos sobre o nordeste de Santa Catarina no contexto da Segunda Guerra Mundial e as relações entre guerra e fotografia, com destaque para o livro O Exército e a cidade, escrito em coautoria com Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes e Marília Gervazi Olska, lançado em 2008, pela editora da Univille. E-mail: [email protected]

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