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De Mount Vernon a um bar gay em Manhattan: por onde anda Thomas Paine

De Mount Vernon a um bar gay em Manhattan: por onde anda Thomas Paine 5

As muitas faces de Thomas Paine, o herói de vários mundos.

Em Manhattan, na Greenwich Village, próximo ao famoso Stonewall Inn, ponto fundamental para a história dos direitos LGBTQIA+, um pequeno bar chama a atenção. Trata-se do Marie’s Crisis Café, espaço importante para a comunidade gay desde 1890, quando recebia o nome de “boy bar”.

Poucos sabem, entretanto, que o nome Crisis, exposto na entrada do bar, faz referência ao famoso panfleto de Thomas Paine, The American Crisis. Isso se deve ao fato de que o local foi residência de Paine nos últimos anos de sua vida.

Em frente ao bar, os visitantes podem encontrar uma pequena placa instalada em 1923 pela Greenwich Village Historical Society. Esse memorial não só marca o local onde Thomas Paine faleceu, em 1809, como também celebra seu espírito cosmopolita e revolucionário. Além de fazer referência aos países em que Paine lutou, França, Inglaterra e Estados Unidos – este último comodamente destacado na parte superior da placa –, o texto ressalta três célebres passagens do autor: “o mundo é meu país”, “fazer o bem é minha religião” e “todas as pessoas são meus irmãos”. Há, ainda, uma referência a um conhecido trecho do início de The Age of Reason: “eu acredito em um Deus, e nada mais.”

Todos esses cruzamentos, em última análise, constituem uma homenagem significativa, ainda que parcialmente involuntária: Paine, crítico da intolerância e de todas as religiões reveladas, também apoiou a Revolução Francesa e o novo código penal de 1791, que excluía dos crimes a relação entre pessoas do mesmo sexo, descriminalizando efetivamente a homossexualidade.

Por outro lado, é notório o apagamento de Paine em outros contextos. Mount Vernon, a imensa plantation de George Washington hoje convertida em memorial, abriga a chave da Bastilha – enviada pelos franceses ao primeiro presidente dos Estados Unidos em reconhecimento aos laços que unem as Revoluções Francesa e Americana. Contudo, o fato de a chave ter sido confiada por Lafayette a Paine não consta na exposição.

Mount Veronn, que no século XVIII tinha mais de 8 mil acres, era um monumento à barbárie: quase a totalidade da população que vivia na imensa propriedade da Virgínia era escravizada. Washington, antes de conflitos importantes, reunia seus homens para juntos escutarem passagens de The American Crisis, seu texto referido. A frase icônica, “esses são tempos que tentam as almas dos homens”, conclamava seus homens ao combate.

No entanto, embora tenham trabalhado juntos no contexto da Revolução Americana, Paine e Washington afastaram-se por uma série de razões. Paine, abolicionista e crítico do cristianismo, também viu as atitudes de Washington após a Revolução como autoritárias e elitistas. Em carta de 1796, Paine escreveu ao presidente dos Estados Unidos:

“E quanto a você, senhor, traidor na amizade privada (pois foi assim comigo, especialmente no dia do perigo) e hipócrita na vida pública, o mundo decidirá se você é um apóstata ou um impostor; o mundo decidirá se você abandonou bons princípios ou se, em algum momento, os teve”.

A lembrança de Paine em um lugar que ainda hoje celebra a luta, a diversidade e os direitos humanos, bem como seu apagamento em um espaço escravista, se afigura como um desfecho coerente.

Desconhecimento e reconhecimento

Durante minha atividade como professor, tanto na Universidade de Brasília (UnB) quanto na Universidade de São Paulo (USP), já me deparei com a rejeição de determinados grupos de estudantes em relação à figura de Thomas Paine. Segundo esses estudantes, essa postura se deve ao fato de o autor ser rotulado como “liberal”.

Deixando de lado o anacronismo da acusação (o termo “liberalismo” é da década de 1820, posterior à morte de Paine), é curioso notar que a esquerda revolucionária não teve a mesma postura. Em 1937, conforme observou o historiador Harvey Kaye, o Partido Comunista dos Estados Unidos publicou uma coletânea dos escritos de Paine, saudando-o como um radical visionário que via “além dos limites da revolução burguesa”, criticava a “acumulação de propriedade” e propunha um “sistema de seguro social”.

Thomas Paine Statue, King Street, Thetford, Inglaterra.

No texto “a história me absolverá”, de 1953, Fidel Castro não hesitou em mencionar passagens de Common Sense e citou Paine como um exemplo de advogado da liberdade. As obras completas de Paine, publicadas por Philipe Foner em 1945, foram traduzidas e publicadas na União Soviética em 1959. Os soviéticos reconheciam a Independência dos Estados Unidos como a primeira das revoluções do século XVIII.

Em todas as abordagens, mesmo reconhecendo as limitações das ideias de Thomas Paine, os autores revolucionários encontravam nele reflexões significativas para o pensamento de esquerda. Nos primórdios do movimento operário e dentre os chamados “socialistas utópicos”, por exemplo, Paine se destacava como uma referência crucial, a ponto de o historiador socialista E. P. Thompson considerá-lo um dos fundadores da classe operária.

Isso não significa, evidentemente, que Paine não tenha sido apropriado por correntes de direita. Ronald Reagan transformou as célebres palavras de Paine – “está em nosso poder começar um mundo novo” – em um grito que defendia a ordem neoliberal. Glenn Beck, conhecido por fomentar teorias da conspiração nos Estados Unidos, também procurou construir uma imagem de Thomas Paine que atendesse a seus interesses pessoais. Da mesma forma, Donald Trump – como bem observou recentemente a historiadora da Universidade da Pensilvânia, Sophia Rosenfeld, em entrevista publicada pela Folha de São Paulo – tenta sugerir que o Common Sense está ao seu lado.

Recentemente, foi publicado no Brasil um artigo que, tão bem fundamentado quanto um prego na areia, alega que o “bom senso” de Paine seria contrário ao “wokismo” – uma interpretação que, à luz do que discutimos nesta série de textos, é totalmente incoerente com a vida e as obras do autor.

Thomas Paine: o que vem por aí

Apesar dos desafios, há boas novas. Há muito tempo já se sabe que a edição das obras completas de Thomas Paine, organizada na década de 1940 por Philip Foner (não confundir com seu sobrinho, Eric Foner, também historiador e autor de importantes estudos sobre Paine), é, na verdade, incompleta. Por isso, há mais de uma década, a Thomas Paine National Historical Association, sob a liderança de Gary Berton e com o apoio de historiadores de diversos continentes, vem preparando uma nova edição das obras completas do autor. A previsão é que essa coletânea seja lançada no próximo ano pela Princeton University Press, ampliando substancialmente os trabalhos disponíveis sobre Paine.

Com as novas pesquisas, descobriu-se, por exemplo, que textos como An Occasional Letter on the Female Sex, African Slavery in America e Of the Old and New Testament – encontrados em coleções e trabalhos anteriores – não são de autoria de Paine.

Além disso, grande parte dos novos textos de Paine foi publicada antes de sua chegada aos Estados Unidos. O historiador Frank Cogliano, em seu clássico Revolutionary America – amplamente utilizado no ensino superior nos Estados Unidos – afirma:

Em 10 de janeiro de 1776, Robert Bell, um impressor da Filadélfia, publicou um panfleto com um título simples: Common Sense. Embora tenha sido publicado anonimamente, o autor de Common Sense era um imigrante inglês obscuro chamado Thomas Paine. Um cobrador de impostos e fabricante de espartilhos malsucedidos, Paine imigrou para a Filadélfia no final de 1774, aos trinta e sete anos.

O texto reproduz uma visão tradicional – também presente nas obras mais antigas do autor deste artigo – de que, antes de imigrar para os Estados Unidos, Paine era um célebre desconhecido. Entretanto, os novos documentos indicam que, desde os vinte anos, Paine já atuava em diversos jornais, inclusive como editor, e integrava a oposição ao governo inglês. Essa revelação nos convida não só a repensar suas ligações com Benjamin Franklin e sua chegada à América, como também a situar a Revolução Americana numa contínua tradição de oposição à autoridade inglesa.

Série “Idade da Razão”

Daniel Gomes de Carvalho, professor de História Moderna na FFLCH-USP, é pesquisador visitante na George Washington University (GWU), sob a supervisão de Denver Brunsman. Em sua atual pesquisa, ele investiga os debates nos Estados Unidos provocados pela publicação de The Age of Reason (a “Idade da Razão”), de 1794. Nesta série produzida especialmente para o Café História, ele compartilhará parte de suas descobertas.

Como citar este artigo

CARVALHO, Daniel Gomes de. Qual Thomas Paine? De Mount Vernon a um bar gay em Manhattan (artigo) In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/thomas-paine-em-um-bar-gay/. Publicado em: 16 de junho de 2025. ISSN: 2674-5917.

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