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Eles se recusaram a lutar: os objetores de consciência da Primeira Guerra Mundial

Opositores no Campo Dyce, em Aberdeen

Opositores no Campo Dyce, em Aberdeen, onde enfrentaram 10 anos de trabalhos forçados. Fotografia: Sociedade Religiosa dos Amigos (Quakers) na Grã-Bretanha.

Em meados de maio de 1918, um grupo de britânicos caminhava pelas ruas da cidade de Knutsford, em Cheshire, na Inglaterra, quando foi surpreendido por dezenas de moradores armados com bastões. O grupo foi covardemente espancado. O motivo de tanta raiva era a intolerância: aqueles homens eram “objetores de consciência”, isso é, homens que haviam se recusado a lutar pelo Reino Unido na Primeira Guerra Mundial. Taxados de covardes, maricas e antipatriotas, eles sofreram todo tipo de intolerância, perseguição e privação de direitos.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, o serviço militar era voluntário para os homens britânicos. E eles afluíram para os centros de recrutamento nos primeiros meses do conflito. Mas à medida que a guerra avançava e os relatos aterrorizantes dos soldados se espalhavam por todo o Reino Unido, os homens britânicos foram deixando de se alistar – não queriam morrer. O governo tentou reverter a situação por meio de campanhas de propaganda sedutoras e de novos esquemas de recrutamento, mas nada disso deu muito certo. Em janeiro de 1916, o governo decretou, então, o que muitos acreditavam ser um grande risco para o liberalismo: o serviço militar obrigatório.

A Lei de Serviço Militar de 1916 (em inglês, Military Service Act) entrou em vigor em 2 de março de 1916. A lei obrigava todos os homens solteiros e viúvos sem filhos, com idades entre 18 e 41 anos, a apresentar-se para alistamento, salvo as exceções previstas em lei. Para abranger maior contingente, em maio de 1916, um segundo Ato estendeu a conscrição também aos homens casados, mantendo as mesmas faixas etárias e critérios de isenção. Por motivos de segurança nacional, os irlandeses não fizeram parte do regime de conscrição obrigatória, assim como os civis de domínios e colônias do Império Britânico. 

O ato previa algumas exceções para os britânicos. Eram isentos, por exemplo, aqueles em profissões consideradas essenciais à economia de guerra, indivíduos considerados medicamente incapacitados, ministros de culto e os chamados objetores de consciência, homens que se recusavam total ou parcialmente a participar do esforço de guerra, fosse por motivos religiosos, como os quakers, ou por motivos morais e ideológicos, caso da maioria dos pacifistas.

Porém, não bastava simplesmente se declarar um objetor de consciência para permanecer em casa. Cada objetor de consciência deveria preencher um formulário requisitando a isenção do serviço militar. Todos os casos seriam avaliados por um tribunal local, formado por civis e representantes militares. Se o tribunal concordasse integralmente com a solicitação, a pessoa receberia o certificado de isenção. Se o tribunal aceitasse o pedido parcialmente, a pessoa poderia prestar serviços alternativos, trabalhando, por exemplo, na agricultura ou em serviços militares fora da frente de batalha, como os Corpos Não Combatentes e Corpo Médico Real do Exército. Mas se o tribunal local rejeitasse totalmente o pedido, a pessoa deveria prestar o serviço militar, seja lá qual fosse.

Quando a guerra começou, havia cerca de 16 mil “conchies”, como eram mais conhecidos os “objetores de consciência”. E quando o recrutamento se tornou obrigatório, em 1916, quase 14 mil deles recorreram aos tribunais procurando isenção. Deste número, cerca de 6 mil tiveram pedidos que foram aceitos parcialmente, mas negaram o serviço alternativo. Eram os “absolutistas”, em contraposição aos “alternativistas”, isto é, os que aceitavam serviços alternativos.

Objetores de consciência: organização e repressão

Embora formasse um grupo numericamente pequeno, os objetores de consciência preocuparam bastante o governo e os militares britânicos, pois eram organizados e atraiam simpatizantes. Acreditavam que, se a causa objetora continuasse se expandindo, isso poderia deslegitimar o alistamento obrigatório.

A principal organização dos objetores de consciência no Reino Unido foi a No Conscription Fellowship (NCF). A NCF foi fundada antes mesmo da Lei de Serviço Militar de 1916, em novembro de 1914, pelo jornalista Fenner Brockway, editor do jornal antiguerra Labor Leader, do Partido Trabalhista Independente. Objetores políticos e religiosos eram livres para aderir à nova organização. Entre os fundadores mais ilustres da organização estavam o filósofo Bertrand Russell, o político socialista escocês John Bruce Glasier e o compositor Evelyn Merrick.

Cartaz de 1916 divulgando a Lei do Serviço Militar, que explica como solicitar um certificado de isenção.

O NCF foi muito ativo politicamente. Realizava protestos, recorria a parlamentares, fez um arquivo com todas as petições de seus membros, monitorou prisões, publicou panfletos, manifestos, livros, peças de teatro, artigos na imprensa e até mesmo um jornal semanal chamado The Tribunal.

William Harrison foi um objetor de consciência. Membro do NCF, ele apelou para um tribunal local. Em sua apelação, ele incluiu a carta de um ex-colega de trabalho, R.H. Rudd, mostrando como os objetores eram capazes de sensibilizar outros civis, embora a simpatia da causa não fosse comum. Rudd tenta convencer os membros do tribunal de que Harrison era um cidadão decente: 

“O Sr. William Harrison está recorrendo como Objetor de Consciência. Ele trabalhou comigo no escritório da fábrica por cerca de três anos — três ou quatro anos atrás — e eu sei que, mesmo naquela época, ele já era fortemente contrário a todas as formas de militarismo. Eu não sou um Objetor de Consciência e meu único filho está no exército, mas acho justo atestar que Harrison já possuía as mesmas convicções que tem agora, muito antes da guerra”.

A falta de homens no campo de batalha provocou uma pressão muito grande em cima de todos os homens britânicos. A polícia fazia rondas sistemáticas em busca de “covardes” (shirkers), “preguiçosos” (Laggards) e “indolentes” (Slackers). Os agentes iam a teatros, casas de espetáculos, parques e jogos de futebol pedindo aos homens que mostrassem o certificado de dispensa. Quem não apresentasse o documento era levado para a delegacia para dar explicações.

Muitos objetores de consciência “absolutistas” enfrentaram péssimas condições de vida na cadeia e perderam direitos políticos. Quando deixaram a prisão, depois do fim da guerra, tiveram dificuldade de encontrar emprego e se reinserir na sociedade – estavam estigmatizados. Calcula-se que mais de um terço dos 16.500 objetores de consciência foram presos durante a guerra.

Durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1.500 e 2.000 opositores e infratores foram condenados, ou passaram a ser controlados pelo Estado, por sua oposição à guerra. Pelo menos 64 deles ainda estavam na Prisão de Waikeria (foto) em 5 de março de 1919 – alguns dos quais haviam entrado em greve de fome em protesto. Foto: ABGU W3777 Caixa 11/149, Arquivo da Nova Zelância.

Além das condições ruins de encarceramento, os objetores também tinham tarefas monótonas, como colar selos em cartas. Há relatos de maus-tratos físicos, isolamento social e falta de atendimento médico. Situações extremas de confinamento solitário tiveram efeitos psicológicos negativos em vários prisioneiros. Cerca de 70 objetores de consciência morreram em prisões britânicas, segundo levantamento do Museu Imperial de Londres, na Inglaterra.

Preconceito social

Contudo, é provável que o maior desafio dos objetores de consciência tenha sido a própria sociedade britânica. Em sua maioria, os britânicos consideravam os objetores de consciência antipatrióticos, traidores, egoístas e, principalmente, covardes. Eram alvos de constante constrangimento por parte de vizinhos, autoridades, intelectuais, colegas de trabalho e até de familiares. Na imprensa, eram objeto de chacota.

Restaurantes colocavam placas nas vitrines dizendo que não serviam os “conchies”. Cartazes distribuídos nas ruas os comparavam com porcos medrosos e aproveitadores. Eles eram excluídos de clubes, suas candidaturas a conselhos municipais eram indeferidas e se tornaram inelegíveis em comitês educacionais. Em setembro de 1917, um fazendeiro de Yorkshire disse para o objeto de consciência John Boast que ele deveria se enforcar.

Em estudo sobre a representação de soldados e objetores de consciência na sociedade britânica, Louis Bibbings pontua que a questão dos objetores precisa ser matizada também como uma questão de gênero. Segundo Bibbings, a propaganda britânica durante a guerra produziu uma narrativa polarizada: de um lado estariam os soldados da frente, representados como heróis, verdadeiros homens reais, patriotas, corajosos, enquanto, de outro, estariam os objetores de consciência, retratados de forma afeminada, embora não raro fossem vistos como “menos que uma mulher”, não-homens e criminosos.

Cartão postal da Primeira Guerra Mundial retrata comandantes cantando para tropas alemãs – um exemplo típico de opositores sendo ridicularizados como fracos e covardes. Imagem: worldwar1postcards.com.

“As próprias coisas que você tenta realizar pelo uso da força acabam recaindo sobre você, pois é preciso recorrer a algo pior ou mais poderoso — que é o mal — para combater o mal que você procura superar. O resultado é que, passado um tempo, você não só obtém exatamente aquilo que tenta opor, mas algo ainda pior do que aquilo que desejava combater. Não se pode vencer o mal com o mal”, disse o antigo objetor Walter Griffin, em entrevista ao Museu Imperial de Guerra.

Apesar de todas as provações a que foram submetidos, os objetores de consciência seguiram firmes em suas convicções, deram musculatura ao movimento pacifista e prepararam a base para outros objetores de consciência que surgiriam na Segunda Guerra Mundial, na Guerra do Vietnã e em ouros conflitos do século XX e XXI. Em vários países, como o Brasil, a objeção de consciência é um direito constitucional. No fim das contas, os objetores lutaram uma guerra própria, justa e ética, e foram vitoriosos, entre mortos e feridos.

Referências

CHARMAN, T. C. The First World War on the Home Front. Londres: Andre Deutsch e IWM, 2014.

BIBBINGS, Lois. Images of manliness: The portrayal of soldiers and conscientious objectors in the Great War. Social & Legal Studies, v. 12, n. 3, p. 335-358, 2003.

KENNEDY, Thomas C. Fighting about Peace: the No-Conscription Fellowship and the British Friends’ Service Committee, 1915-1919. Quaker History, v. 69, n. 1, p. 3-22, 1980.

HARRISON, W. Private Papers of W Harrison. Londres: Imperial War Museum. Disponível aqui. Acesso em: 19 fev. 2025.

IMPERIAL WAR MUSEUMS. Conscientious objectors in their own words. Disponível aqui. Acesso em: 19 fev. 2025.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Eles se recusaram a lutar: os objetores de consciência da Primeira Guerra Mundial (artigo).In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/objetores-de-consciencia/. ISSN: 2674-5917. Publicado em: 26 de maio de 2025.

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