Em maio de 2025, estreava, em Cannes, o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e protagonizado por Wagner Moura. O filme competiu pela Palma de Ouro e conquistou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator, além do Prêmio FRIPESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema), impulsionando uma carreira de sucesso em festivais internacionais, com mais de 50 prêmios e culminou em 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Internacional.
O elenco foi também muito celebrado, não somente pelo ótimo trabalho de Wagner Moura, mas também pelo reconhecimento da solidez das atuações de outros atores e atrizes que o compunham. É também a força deste elenco diversificado, com figuras locais e atores experientes, que enriquece o universo criado por Kleber Mendonça Filho. São personagens que entram e saem de cena, ocupam o filme com suas aparições singulares e com a devida importância para o roteiro. Entre estes personagens revela-se Hans, interpretado pelo ator alemão Udo Kier.
Kier é o rosto mais conhecido internacionalmente do elenco. Seus personagens povoaram o imaginário do público desde os anos 70, quando teve destaque no filme “A Marca do Diabo”, de Michael Armstrong, um verdadeiro “torture porn” à frente de seu tempo. Tornou-se notório interpretando vilões nos filmes: “Flesh For Frankenstein” (1973), e Conde Drácula em “Blood For Dracula” (1974). Passou a frequentar os filmes do gênero Terror, como “Suspira” (1977), de Dario Argento. Colaborou com os conceituados diretores, Gus Van Saint e Werner Herzog, e agora com Kleber Mendonça Filho.
De Cannes até a premiação do Oscar, inúmeras críticas, artigos, matérias e resenhas a respeito de “O Agente Secreto” foram publicadas. No entanto, dificilmente encontram-se algumas linhas dedicadas a Hans, uma verdadeira peculiaridade do filme e uma gema em questões históricas abordadas no roteiro.
Hans aparece numa única cena, suficiente para gerar uma fagulha de interesse no público mais atento, e que, com um pouco mais de oxigênio, tornaria-se a chama que aquece o debate mais aprofundado sobre o que a tal cena se propõe.
Em determinado momento do filme, o protagonista, vivido por Wagner Moura, é levado a observar a maneira com que oficiais da justiça importunam o alfaiate judeu, sobrevivente do Holocausto, Hans. O peculiar da cena é que os oficiais acreditam que Hans é um fugitivo nazista. Imaginam que suas cicatrizes são marcas das glórias da guerra de um suposto herói, quando na verdade, são memórias de tempos sombrios e tortuosos nos campos de concentração talhadas em seu corpo. O profundo constrangimento de Hans é quase que um fetiche para os oficiais a serviço da ditadura. Para o alfaiate, é mais um mecanismo de sobrevivência.
Por mais que pareça inverossímil – não há registro de sobreviventes do Holocausto vivenciando situação semelhante no Brasil – a cena denota os desejos de aproximação da ditadura brasileira e sua admiração ao regime nazista. Neste contexto histórico, Hans é melhor acolhido como oficial nazista fugitivo da guerra.
Não é novidade que o Brasil flertou com o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra. Os casos mais conhecidos de oficiais nazistas que encontraram refúgio em terras brasileiras são os de Mengele, Herbert Cukurs, Klaus Barbie, Franz Stangl e Gustav Wagner – todos gozaram de certa proteção do governo brasileiro no período da ditadura (até que esta se tornasse inevitável pela pressão popular). Herbert Cukurs, por exemplo, sentia-se à vontade no Brasil – não se escondia, mantinha seu nome verdadeiro, ficou famoso e circulava, confortavelmente, entre os militares e a elite brasileira.
Por outro lado, sobreviventes do Holocausto tinham dificuldades em entrar no país. Muitos conseguiam clandestinamente, outros com documentação forjada – vide as histórias do diplomata Souza Dantas, que, contrariando a política de Getúlio Vargas, concedeu vistos a centenas de judeus oriundos da Europa em guerra, e de Aracy Guimarães Rosa, que conseguia aprovação de vistos para judeus escaparem da Alemanha.
Na estreia de “O Agente Secreto”, em Los Angeles, Udo Kier e Kleber Mendonça Filho participaram de um debate após a sessão. Sobre o personagem Hans, Kleber menciona sua própria convivência com a comunidade judaica de Recife, na infância, e que teria se inspirado num alfaiate imigrante da Romênia.
Não é a primeira vez que Kleber pincela a presença da sombra do nazismo pairando sobre o Brasil. Em “Bacurau” (2019), o personagem, Michael, também interpretado por Udo Kier, revela-se como a personificação do nazismo. Seu destino final é a clausura de um buraco, onde é, metaforicamente, enterrado vivo. Não de maneira que ele morra imediatamente soterrado: pressupõe-se que se mantenha respirando, assim como o nazismo, “enterrado vivo”, à espera do momento oportuno para ressurgir. Já no documentário “Retratos Fantasmas” (2023), Kleber aborda a história do Cine Art-Palácio, em Recife, projetado para ser um cinema da Ufa – estúdio alemão e braço da propaganda nazista.
Em seguida, surgem imagens de arquivos do Graf Zeppelin, o dirigível alemão. Apossado, nos anos 30, pelo regime nazista, o Zeppelin ostentava uma imponente suástica, enquanto deslizava majestosamente pelo céu de Recife e foi recebido com louvor pelas autoridades locais e com curiosidade pelo povo.
Singelos detalhes elevam uma obra de arte. Kleber Mendonça Filho vem desfrutando da riqueza do universo brasileiro e, mais particularmente, pernambucano, para contar suas histórias em seus filmes. O personagem Hans é um belo exemplo. Foi o último trabalho de Udo Kier no cinema. O ator faleceu em novembro de 2025, pouco depois da estreia de “O Agente Secreto”.
