A escola estadual indígena Tuxaua Bento Louredo da Silva está localizada na Comunidade Indígena Bananal, no município de Pacaraima, em Roraima, distante 214 km da capital Boa Vista. Lá os estudantes assistem às aulas aos pés da Serra WaipaTüpüque, que em taurepang significa “Serra da Maloca”. Em 2017, durante aproximadamente seis meses, os 30 estudantes indígenas da comunidade trocaram cerca de 200 cartas com alunos do sétimo ano do Centro de Educação do Serviço Social do Comércio — SESC, situado em Boa Vista. A proposta fazia parte do projeto “Entre idas e vindas: cartas que entrelaçam”, criado pela pesquisadora Hstéffany Pereira Muniz Araújo.
“Nesse período, pudemos observar o quanto os alunos de Boa Vista, a cada carta, descobriam coisas jamais imaginadas sobre os alunos da comunidade. As informações que obtinham ao longo do tempo por intermédio das cartas iam de encontro aos estereótipos construídos durante suas vidas, os quais são reforçados pelo senso comum em diferentes espaços e pelas mídias e, consequentemente, formam suas representações sociais”, aponta Hstéffany.
A iniciativa deu origem a duas sequências didáticas, frutos da dissertação “Ensino de História Indígena — uma proposta de sequência didática a partir do projeto escolar Entre Idas e Vindas: cartas que entrelaçam”, defendida por Hstéffany, em 2022, no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal de Roraima. A dissertação e as sequências didáticas podem ser acessadas aqui.
A pesquisa está dividida em três partes. O primeiro capítulo aborda o ensino de História indígena, a Comunidade Bananal e analisa as cartas produzidas pelos estudantes. Em seguida, a pesquisadora faz uma revisão da literatura indígena e busca entender como as universidades estão preparando futuros professores para atuarem na educação básica. Por fim, é apresentado um caderno de sequências didáticas, divididas em etapas para alunos do 6º e 7º ano.
“Entre os motivos principais para a realização dessa pesquisa com tal temática, está o fato de geograficamente estar em um estado com muitas comunidades indígenas e, proporcionalmente em relação à população total, somos o estado com a maior população indígena do país. Desse modo, a atividade Entre idas e vindas: Cartas que entrelaçam mudou a forma como alunos e professores envolvidos compreendem a questão indígena”, afirma Hstéffany.
Uma proposta didática
Professora de História do Ensino Básico, Hstéffany conta que o projeto “Entre idas e vindas: cartas que entrelaçam” nasceu da ideia de criar uma proposta didática interdisciplinar. “No ano de 2017, a partir de uma conversa com a professora Leidiane Leite, de Língua Portuguesa, decidimos montar uma atividade interdisciplinar que resolveria uma dificuldade da disciplina de língua portuguesa (a escrita de carta pessoal sem um destinatário que pudesse se comunicar com os alunos) e ainda traria mais significado para as aulas de história, ao trabalhar o processo de colonização do Brasil, uma vez que já havia identificado a dificuldade com a temática de tratar os indígenas como seres do passado”, detalha.
Na primeira troca de correspondências, os estudantes foram orientados a escrever uma carta de apresentação, sem identificação nominal, e sim com um “código”. A ideia era que as trocas de cartas mantivessem um “mistério” em relação aos nomes e focassem na descrição de características físicas, gostos pessoais e personalidades. Das 200 cartas escritas pelos alunos, cerca de 27 foram selecionadas para serem analisadas mais profundamente.
“Percebemos que o conhecimento que se construía paulatinamente, pelo intercâmbio das cartas com as crianças e adolescentes indígenas sobre os seus cotidianos e o da comunidade, contribuía para desfazer uma série de estereótipos. As cartas escritas pelos indígenas proporcionavam o contato com um conhecimento diferente daquele mostrado pelo livro didático, que, comumente, retrata os indígenas como seres do passado, com hábitos de andar nus e praticar a antropofagia, os quais eram escravizados pelos portugueses”, ressalta.
A análise das cartas resultou nas duas sequências didáticas com diversas sugestões de atividades que propõem uma reflexão sobre os povos indígenas, especialmente os de Roraima, como povos heterogêneos, com passado e presente. “A intenção da atividade sempre foi aproximar os alunos de culturas que não estão tão longe da realidade deles, de modo que pudessem descobrir semelhanças e diferenças entre eles e os estudantes indígenas, embora vivessem em contextos bastante distintos”, conclui.
