Faz algum tempo que o tema da ética tem me encantado. Ele apareceu em muitos momentos ao longo da minha carreira de professor universitário e de ensino básico. Nesses últimos quase 40 anos, após ter estudado muito a Ética segundo Spinoza, publiquei muitos livros e artigos discutindo a relação entre os afetos e o Ensino de História. O que mais, então, eu teria a dizer sobre esse tema?
O que me faz escrever agora é uma vontade de pensar sobre as nossas escolhas, afinal, por que escolhemos a História, como campo de trabalho e de pensamento? Por que e como escolhemos ser professoras de História?
Cada um de nós, professores e pesquisadoras do campo, já deve ter pensado ou conversado com alguém ou relatado em uma aula sobre as razões de ter escolhido ser professor de História. Às vezes, em razão de um(a) professor(a) que nos encantou, outras, porque teria uma vontade inaudita de mudar o mundo, ou simplesmente porque achou História tão interessante que é desnecessário expor razões, até porque nem as sabe.
A partir de agora, eu explicarei as minhas razões — a minha ética em ensinar História.
Sobre minhas razões
Penso meu trabalho como professor como uma tentativa perseverante de ser mais e de ver os meus alunos ampliando sua potência de vida. Por isso, eu gosto de pensar a coisa como uma ética de ensinar História, não uma moral. Porque uma moral é o que molda o pensamento daquele que julga, que estabelece modelos, padrões e regras. Meu objetivo é um olhar para si na busca de um amor intelectual, divino, por Deus, pela vida.
Quando ensinamos e pesquisamos História, narramos o mundo e a realidade para os estudantes, principalmente os da nova geração. E narrar o mundo é uma grande responsabilidade. É quase um peso, mas é, na verdade, uma leveza, porque a gente fala tanto sobre o mundo que a gente interpreta dos vestígios quanto o mundo que a gente sonha.
Dizer o mundo, visto e sonhado, exige um envolvimento gigantesco, o qual é o envolvimento da pesquisa e do ensino. Porque dizer o mundo é muito sério. É sério porque a gente fala sobre a vida dos outros, às vezes até enredado com a nossa própria vida. Mas é quase sempre um dizer, um contar, um narrar, um criar, um inventar uma vida para os outros e para nós mesmos, contando a partir de narrativas construídas pela ciência histórica e a partir dos nossos sonhos, daquilo que queremos para nós e para os outros.
Quem sabe, pode ter sido por isso que me encantei não apenas por ensinar História. Mais do que isso: pode ter sido por isso que me encantei por pesquisar como a gente ensina História, como a gente narra o mundo, com seriedade e responsabilidade.
Desde o início da minha relação com a escola, como professor, sempre me deparei com a ideia de que ensinar História era fácil, pois era somente repetir o livro didático. Depois me deparei com pessoas que achavam que era difícil ensinar História, pois tinha que ler bastante e estudar muito para ter erudição histórica. E depois ainda me deparei com pessoas que acreditavam, como eu passei a acreditar, que ensinar História é apenas uma parte desse processo intenso e complexo de dizer o mundo, porque há um a priori do ensinar História. E é um a priori que, às vezes, cai num profundo e maldito esquecimento. É um a priori tão importante que chega a ser quase divino. Esse a priori é a pesquisa sobre o ensino de História. Esse a priori, quase divino, nos ajuda a pensar, a inserir o pensamento em tudo o que imaginamos para uma aula de História.
E pensar é algo muito sério e algo muito necessário.
Hannah Arendt dizia que o pensamento é o único modo de nos livrarmos do mal, da banalidade e do fascismo. Porque pensar tem a força fervente de um vulcão, ele rasga o banal, desvia da opinião, se contrapõe ao hábito. Ele salta das determinações que guiam a nossa ação, o agir das pessoas, e nos obriga a problematizar o que vivemos e o modo como vivemos.
O ensino de História, quando feito com responsabilidade e ética, afasta-se da banalidade, da mera opinião, da mera cópia, das forças terrificantes e neutralizadoras do hábito. E o hábito é um fantasma que ronda a escola e as nossas aulas de História: ele é muito sedutor, é uma lógica pronta, feita, não exige esforço, por isso é tão perigoso.
A sala de aula de História é lugar do pensamento, da vida, das singularidades e isso exige força interpretativa, explicativa, compreensiva, investigativa. Porque a sala de aula é também lugar da multiplicidade. Não do Uno, não do equívoco, mas do múltiplo, sem referência de comparação, sem modelo a seguir, sem padrão que defina o que se pode ser, apenas com um apreço por ser mais, através das relações, do conhecimento e dos sonhos.
A multiplicidade nos informa que a aula de História é aberta a todos os modos de vida, a todas as histórias que “adiam o fim do mundo”, como diz Ailton Krenak, a todas as singularidades, menos aquelas que forçam e torcem a vida para um fim, um modelo, uma moral, aquelas que defendem a interdição dos modos de vida, a censura, a violência. Essa complexidade que nos traz a multiplicidade exige pesquisa e pensamento, sem o que caímos na ardilosa armadilha do fascismo.
Escolhemos a História para levar alegria ao mundo
Escolher a História é convidar para uma “dança cósmica”, nas palavras de Krenak. Onde dançam gentes de todos os tipos, vidas de todos os modos, que conviveram, disputaram, amaram, criaram e persistiram em viver. Por crer em um ensino que mostra uma quantidade enorme de iniquidades, de sofrimentos, de genocídios, mas também, uma quantidade gigantesca de criações, de arte, de benevolência, de solidariedade, de amizades, de afetos ativos. Cada nova história contada cria mais vida, mais referência, mais pertencimento, mais visibilidade, mais exemplos, como dizia o pensador, ajuda “a adiar o fim do mundo”. Tudo se passa como se contar histórias preenchesse um vazio no mundo, inserindo nele novos territórios por onde andar; novos modos de ser para aprendermos a viver melhor.
Para se debater contra os poderes
Escolhemos ensinar, aprender e pensar a História, para se debater contra os poderes, já explicava Deleuze. Porque ensinar História é um ato de pensamento. E o pensamento se dá pelas frestas e pelos buracos que criamos nos diagramas de poder.
Escolhemos História, porque ela nos mostra que os sentidos mínimos da aula de História nos levam a combater toda a iniquidade, toda a exploração, toda a miséria e todo o preconceito. São o mínimo de sentido que uma aula precisa ter. Porque dar aula de História por si só é um ato de profunda resistência. Resistir com aprendizagem, com experiência, com atuação, com um agir coletivo, que promove a criação de novas gerações que não pactuem com o racismo, com a exploração e com a violência de gênero.
Para contemplar a beleza da diferença
Escolhemos ser professoras e professores de História porque gostamos de gente. E isso nos ensina a estarmos atentos às singularidades que nos rodeiam, que se dispõem em nossa sala de aula, que andam pelos cantos, pelo meio, pelo centro da sala e fora dela. Atentos à diferença mínima e pura de cada existência. Porque as histórias que contamos falam, mostram e apresentam a diferença, fazendo sucumbir os modelos, os padrões, as predominâncias que silenciam e que apagam. A beleza da diferença está na escuta e na palavra, na escrita e no verbo que faz de cada um, um nós, um coletivo que está no mundo para criar e para existir.
Escolhemos História para conviver na sala de professoras. Para conhecer mais pessoas, mais gente. Para ter dias e dias convivendo com jovens, crianças ou adultos, conversando, aprendendo, ensinando. Para mostrar que professoras e professores gostam de gente, de infinitos tipos, de infinitas artes, de infinitas cores, de infinitos modos de ver o mundo, de infinitas maneiras de existir. Só não entra a tristeza, o fascismo, o que nos torna menos, o que nos tira a força de existir. Só não entra a triste sina daqueles que promovem o mal, dos que inibem a existência alheia, dos que condenam os modos de vida.
Nesse sentido, tornar-se professora de História pode muito bem consistir em aprender as muitas e infinitas composições que os seres realizam para dar continuidade ao tempo, ou seja, à vida. Nesse sentido, a docência consiste em se tornar cada vez mais suscetível a encontros que potencializam a vida e a relação afirmativa entre os seres. Aprender a ser professor ou professora de História, hoje, exige encontrar-se com epistemologias, cosmologias e metafísicas não brancas, a fim de aprender muito mais do que a ideia de humano legado pelos modos de vida eurocentrados.
Eis um dos maiores desafios que nosso tempo exige da docência em História, pensar a multiplicidade, aprender com ela e se abrir ao infinito das vozes do mundo. O desafio de ensinar para relações entre os seres, que sejam generosas e solidárias, implica um duplo sentido, por um lado, hesitar em relação a tudo o que nos constitui; por outro lado, se abrir para modos de vida e de pensamento dos mundos não brancos e de mundos, ainda que europeus, que existiram nas frestas das cosmologias predominantes.
Referências bibliográficas
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Como citar este artigo
PEREIRA, Nilton Mullet. Por que escolhemos a História? Ed. Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/por-que-escolhemos-a-historia/. Publicado em: 2 nov. 2026. ISSN: 2674-5917.
