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O ditador que ainda vigia a UnB: a história do monumento que homenageia Ernesto Geisel

O ditador que ainda vigia a UnB: a história do monumento que homenageia Ernesto Geisel 2

Totem com placa sobre Geisel. Foto: Bruno Leal

Em agosto de 1968, durante a ditadura civil-militar (1964-1985), a Universidade de Brasília sofreu a mais dura invasão pelas forças da repressão. Alunos foram perseguidos pelo campus, presos e espancados. Um estudante foi baleado. O episódio marcou o começo de uma nova era de repressão na instituição, com aulas vigiadas por informantes, professores sumariamente exonerados e alunos expulsos. Honestino Guimarães, Ieda Santos Delgado e Paulo de Tarso de Morais Dutra, ex-estudantes da UnB, desapareceram por meio de ações da ditadura e são dados hoje como mortos.

Em 15 de fevereiro de 1978, portanto, dez anos após a traumática invasão. o ditador Ernesto Geisel, então ocupando a Presidência da República, esteve na UnB para inaugurar o prédio da Faculdade de Tecnologia (FT). Na ocasião, o ditador proferiu um discurso exaltando a educação, a utilidade econômica dos cursos e o bom uso dos recursos públicos. Como se não bastasse a afronta de sua visita, Geisel recebeu um presente: um enorme marco e uma placa comemorativa, onde pode-se ler: “Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília, inaugurada pelo excelentíssimo senhor presidente da República, Ernesto Geisel, Brasília, 15 de fevereiro de 1978”. Ela está lá, imponente, até hoje.

Disputa por memória

Monumentos não são neutros, eles expressam escolhas de memória, indicam quem merece ser lembrado e quem é excluído de nossas lembranças. Em diversas partes do mundo, monumentos erguidos para ditadores, genocidas e perpetradores de graves violações de direitos humanos tornaram-se alvos de contestação, pois sua permanência sem qualquer ação de memória transforma violência em celebração. Disputas recentes, desde a remoção de estátuas de escravocratas na Europa até debates sobre monumentos confederados nos Estados Unidos, mostram que a memória monumental é sempre política e que homenagens públicas nunca podem ser tratadas como meras peças históricas.

Foi diante desse cenário que os membros do Projeto “Memória e Ditadura Militar nas Escolas Públicas do Distrito Federal”, no dia 30 de março de 2023, decidiram intervir – e isso foi feito com ironia. Diferente das ações de protestos que recorrem, nestes casos, ao sangue falso para provocar desconforto no espectador, na intervenção realizada na Faculdade de Tecnologia não foi necessário acrescentar sangue algum. O próprio chão de concreto já era um “mar de sangue”, resultado de décadas de aplicação de cera vermelha. O monumento possuía respingos dessa mesma cera. A intervenção se somou a esse ambiente.

Intervenção artística do projeto Memória e Ditadura na Faculdade de Tecnologia. Nathanael Pereira.

Para completar o cenário, os participantes do projeto colocaram uma trouxa ensanguentada (evocando vítimas da repressão) aos pés do monumento, e um lambe com o rosto de Geisel acompanhado da palavra assassino foi colado diretamente na estrutura. O monumento do ditador, normalmente inerte, tornou-se objeto de tensionamento, exposto à luz de uma memória que a universidade insistiu em não enfrentar. Durante a ação, um servidor da FT chegou a abordar de forma ríspida a equipe do projeto e tentou impedir a intervenção, afirmando que Geisel teria sido presidente e mereceria respeito.

A disputa pela memória, porém, não se limita à UnB. Em novembro de 2025, o Ministério Público Federal recomendou a desativação imediata de um memorial dedicado a Geisel, inaugurado na Universidade de Caxias do Sul. O MPF lembrou que, durante o governo de Geisel, o aparato repressivo continuou perseguindo, torturando e fazendo desaparecer opositores e afirmou que manter homenagens desse tipo em pleno contexto democrático é injustificável. A UCS respondeu defendendo a permanência do memorial em nome da autonomia universitária e de um suposto caráter documental do acervo, argumento que revela como a fronteira entre documentação e celebração pode ser mobilizada para neutralizar debates éticos e políticos. O relatório final da Comissão Nacional da Verdade aponta Ernesto Geisel como autor de graves violações de direitos humanos.

Em um memorando da CIA revelado pelo pesquisador Matias Spektor, demonstra-se que Geisel autorizava e avalizava a execução sumária de opositores políticos da ditadura civil-militar. Seu governo é lembrado pelas mortes de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho, ambos assassinados em instalações do exército que tinha como Chefe Supremo o ditador Ernesto Geisel. O período também foi marcado pelo genocídio de povos indígenas executado pelo Exército Brasileiro.

Memória universitária e responsabilidade histórica

Tudo isso mostra que a disputa pela memória permanece aberta, afinal, decidir pela permanência de monumentos como esse é, no fundo, escolher que sociedade desejamos construir, que memória universitária queremos afirmar e que posicionamento estamos dispostos a defender quando naturalizamos homenagens a responsáveis por graves violações de direitos humanos.

Em 2024, a UnB realizou a cerimônia de outorga do diploma post mortem de geólogo a Honestino Guimarães, líder estudantil perseguido e expulso da mesma universidade em 1968, desaparecido político em 1973. Seu corpo nunca foi encontrado. Ações como essa reforçam o compromisso institucional com a memória. Mas esse gesto torna ainda mais incômoda a permanência do nome de Geisel na Faculdade de Tecnologia. Não há conciliação possível entre homenagear as vítimas da ditadura e preservar monumentos dedicados a seus algozes.

A intervenção com o lambe, a trouxa ensanguentada e a ironia da cera vermelha já presente não foram meros gestos estéticos, mas uma disputa simbólica. Expôs o que estava estabilizado como normalidade e reforça o conflito entre memória e apagamento. A permanência do marco em concreto com a placa dedicada à inauguração pelo “excelentíssimo senhor presidente da República Ernesto Geisel” evidencia que a universidade ainda não elaborou plenamente sua própria história de violência. A memória seguirá sendo disputada, e seguiremos relembrando os horrores da ditadura mesmo que de forma inconveniente. O desafio colocado à UnB é simples e profundo, é necessário assumir uma política de memória coerente com seus compromissos democráticos ou seguir reproduzindo, mesmo que involuntariamente, vestígios do passado autoritário.

Referências

BRASIL. Presidência da República. Improviso na Universidade de Brasília (UnB), por ocasião da inauguração da Faculdade de Tecnologia: discurso de Ernesto Geisel, 15 fev. 1978. Disponível em: https://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/ernesto-geisel/discursos/1978/19.pdf.

G1. Em memorando, diretor da CIA diz que Geisel autorizou execução de opositores durante ditadura. SP. 10 mai. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/em-memorando-diretor-da-cia-diz-que-geisel-autorizou-execucao-de-opositores-durante-ditadura.ghtml

G1. MPF recomenda desativação de memorial em homenagem a ex-presidente da ditadura militar inaugurado há 5 dias em universidade do RS. 24 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2025/11/24/mpf-recomenda-desativacao-de-memorial-em-homenagem-a-ex-presidente-da-ditadura-militar-inaugurado-ha-5-dias-em-universidade-do-rs.ghtml

JORNAL DO COMÉRCIO. UCS rebate MPF e pretende manter memorial a Geisel em Bento Gonçalves. 25 nov. 2025. Disponível em: https://www.jornaldocomercio.com/jornal-cidades/2025/11/1227368-ucs-rebate-mpf-e-pretende-manter-memorial-a-geisel-em-bento-goncalves.html

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE (CNV). Relatório final. Brasília: CNV, 2014. Disponível em: https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/

Como citar este artigo

TORRES, Mateus. PEREIRA, Nathanael Martins. O ditador que ainda vigia a UnB: a história do monumento que homenageia Ernesto Geisel (Artigo). Editor: Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-ditador-que-ainda-vigia-a-unb/. Publicado em: 1 de dez. 2025. ISSN: 2674-5917.

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