Ícone do site Café História

O que os monumentos podem nos dizer sobre memória, história e poder?

O que os monumentos podem nos dizer sobre memória, história e poder? 2

Estátua de Francisco do Nascimento (Chico Matilde), herói do movimento abolicionista cearense. Foto: Eduardo Ramos/Flickr.

Ao andar pelos espaços públicos do país, como ruas, avenidas e praças, é comum encontrar bustos ou estátuas de figuras que conquistaram algum tipo de notoriedade. No Brasil, essa tradição foi inaugurada com a estátua equestre do Imperador Dom Pedro I, inaugurada no dia 30 de março de 1862. O monumento está localizado na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

“As estátuas e bustos seriam utilizadas de modo a representar e eternizar as glórias pátrias e teriam assim, uma função de memória, pois, através destas, se preservaria a história do país e de seus filhos mais ilustres, dentre eles, governantes, mártires e heróis”, explica a historiadora Liesly Oliveira Barbosa.

Liesly desenvolveu uma pesquisa sobre o tema em uma dissertação intitulada “Que estátua é essa?: os monumentos estatuários e bustos como fontes para a problematização dos objetos de conhecimento nas aulas de história no ensino médio”, defendida em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal do Ceará (ProfHistoria). A pesquisa pode ser acessada aqui.

“No contexto social e político hodierno, é urgente e necessário o debate em todos os espaços patrimoniais e educacionais a respeito da necessidade de realização de intervenções que problematizem o patrimônio estatuário público. E, diante do exposto, salientamos a importância da análise dos monumentos estatuários como fontes para a problematização dos objetos de conhecimento nas aulas de História”, defende Liesly.

Educação Patrimonial

O estudo é focado nos monumentos localizados na cidade de Fortaleza (CE) e está dividido em quatro capítulos. A primeira parte aborda o histórico da Escola Estadual de Educação Profissional Paulo VI, situada no bairro Jardim América, onde Liesly lecionou por quase 10 anos. O capítulo também analisa o perfil dos estudantes da escola, o currículo escolar e problematiza os conteúdos a partir dos monumentos estatuários nas aulas de História.

O segundo capítulo é voltado ao debate entre memória, História e educação. Também são tratadas as intencionalidades presentes na criação das diversas estátuas dispostas nas praças públicas de Fortaleza, suas funções e a relação desses monumentos com os habitantes da cidade.

No terceiro capítulo, a pesquisadora discute a Educação Patrimonial no Brasil, os monumentos estatuários como fontes para o ensino de história e como a legislação educacional brasileira propõe a utilização do patrimônio estatuário em sala de aula.

Estátua equestre do Imperador Dom Pedro I, primeira escultura pública edificada no Brasil, em 30 de março de 1862, na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Foto: monumentos.rio.br

No quarto e último capítulo, é proposta uma nova relação educativa com o patrimônio oficial erigido nas praças e espaços públicos da cidade, por meio das estátuas e bustos, possibilitando aos alunos conhecer, interpretar e apropriar-se ou resinificarem as memórias celebradas a partir de tais monumentos.

Memória e História

A partir da década de 1880, as praças do centro de Fortaleza passaram por um processo de revitalização, em um processo inspirado nos padrões europeus e nas demais remodelações realizadas nos principais centros urbanos do país. Os espaços receberam pavimentação, instalação de bancos, postes de iluminação, cafés e bares, criação de jardins e espaços para a prática de esportes e a ornamentação com fontes, esculturas e coretos, entre outros, proporcionando assim um espaço propício para o lazer da população.

Segundo a pesquisadora, foi nesse contexto de reformulações urbanas que as primeiras estátuas vindas da Europa foram erigidas na cidade, dispostas primeiramente na Praça dos Mártires.

“A partir da segunda metade do século XIX, com o fortalecimento do nacionalismo e da busca pela formação de uma identidade nacional, efetiva-se um projeto de seleção, criação e divulgação da História e da memória oficial da nação, nos espaços públicos, por meio de sua toponímia, ou pela ereção de monumentos. Houve, portanto, o crescimento na idealização e realização de monumentos cívicos que pretendiam celebrar a memória que deveria ser compartilhada pelos indivíduos da nação, nas principais praças das cidades, por iniciativa pública ou de particulares”, detalha Liesly.

Contudo, ela explica que um monumento estatuário instalado em um determinado período histórico pode perder uma parcela ou todo o seu significado com o passar do tempo. “Em uma grande parte dos casos, é possível perceber que o esquecimento se dá na medida em que é maior a distância temporal em relação ao período em que ocorreu o fato ou viveu o indivíduo selecionado para ser celebrado em um monumento estatuário, já que a memória daquele sujeito celebrada no monumento pode não mais ser compartilhada pela sociedade ou uma grande parte dela”, avalia.

A pesquisadora desenvolveu uma proposta de aula-oficina com foco em monumentos relacionados ao Movimento Abolicionista cearense. O material pode ser acessado aqui.  “É diante da aceleração do tempo e do medo do esquecimento, do desaparecimento, da destruição das obras e vestígios do passado, que os indivíduos, grupos, Estados-nação, reivindicam a necessidade de preservar o patrimônio histórico, nos bens móveis e imóveis, arquivar documentos, registrar memórias e construir monumentos para que estes possam ser suportes de memórias acessados pelos pósteros”, conclui.

Sair da versão mobile