Sancionada em 10 de março de 2008, a Lei nº 11.645 tornou obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos ensinos fundamental e médio de escolas públicas e particulares de todo o país. O conteúdo deve ser trabalhado transversalmente em todo o currículo escolar, com destaque para áreas como educação artística, literatura e história.
Contudo, quase 20 anos depois, a inserção da temática indígena nas aulas do Ensino Básico ainda não foi concretizada, de acordo com a pesquisadora Luciane Bandeira Meireles. “Observa-se que a história e cultura indígena na escola, na maioria das vezes, ainda têm sido tratadas somente na data ou na semana do Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, ou seja, um ensino muito restrito, por vezes, preconceituoso, e que avança muito timidamente, pois os livros didáticos brasileiros ainda carecem de conteúdos significativos para o longo do ano letivo”, aponta.
Para contribuir com a efetivação do estabelecido na Lei nº 11.645/08 e auxiliar professores na missão de incluírem a temática indígena em suas aulas, Luciane desenvolveu um Manual de Oficina de Cerâmica Indígena. O material é resultado da dissertação “Oficina de cerâmica: um caminho para potencializar o ensino da história e da cultura indígena”, defendida por Luciane, em 2021, no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal de Santa Maria. O manual e a pesquisa podem ser acessados aqui.
A dissertação está estruturada em quatro capítulos. O primeiro aborda a relação entre o Ensino de História e a Cultura Indígena. No segundo capítulo é tratado o papel do Ensino no respeito e compreensão do Patrimônio Cultural. A terceira parte trata da origem, características, importância e história da cerâmica indígena no período anterior à chegada dos portugueses. E, por fim, é apresentado o Manual de Cerâmica, elaborado com base na cerâmica indígena brasileira, sendo os guaranis o ponto de partida para o ensino da história e cultura indígena.
“A produção de artefatos de cerâmica é algo que está e esteve presente em quase todas as culturas que já existiram, e hoje percebe-se o quão complexas eram essas sociedades. Cada sociedade desenvolveu uma maneira própria de fabricação, desde a moldagem da argila, a queima até a decoração, sendo possível, por meio dessas características, a identificação histórica e a diferenciação entre as culturas. Partindo-se disso, o que se busca com a realização das oficinas de cerâmica é a construção do conhecimento a partir da experimentação, da manipulação e da própria criação de objetos de argila, resultando em uma aprendizagem mais dinâmica e atrativa”, propõe Luciane.
Cerâmica e ensino
A ideia de elaborar um Manual de Cerâmica surgiu após Luciane participar de um Projeto de Extensão do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, no Campus de Feliz, em 2019, intitulado Ceramicando na Escola. Nos encontros foram trabalhados conhecimentos históricos e culturais da utilização da cerâmica e realizadas atividades práticas de manipulação da argila com diferentes técnicas de confecção.
“Pude perceber, durante o decorrer das atividades, a forte ligação entre o estudo, o manuseio da argila e as diferentes áreas do conhecimento, como as linguagens através da expressão artística, da natureza com o processo químico que se deu após a queima, da Matemática com o cálculo da porcentagem de redução da peça, bem como, obrigatoriamente, das Ciências Humanas”, explica.
O manual embasa teoricamente a origem da cerâmica e a cerâmica indígena e descreve passo a passo a produção de um artefato de cerâmica por meio de técnicas utilizadas por povos indígenas. A finalidade é oferecer suporte aos professores da Educação Básica no desenvolvimento de oficinas de cerâmica com proposta organizada para o componente curricular História, com ênfase em temática indígena.
“A partir desta pesquisa, percebe-se que a cerâmica passa a ser fonte para o ensino de História e Cultura Indígena, permitindo a ampliação do espaço restrito apenas à sala de aula, tornando o aprendizado mais dinâmico, reflexivo e despertando o sentimento de pertencimento”, conclui.
