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Leão: a história por trás do nome escolhido pelo Papa Robert Prevost

Leão: a história por trás do nome escolhido pelo Papa Robert Prevost 3

Cidade do Vaticano, 2019. Foto: IanOS, via Unplash.

O conclave que elegeu Robert Francis Prevost como o novo Papa da Igreja Católica foi rápido. Em dois dias, os cardeais reunidos na Capela Sistina escolheram o norte-americano naturalizado peruano como o 267º líder da Igreja. Ao dizer sim, Prevost escolheu o nome que o acompanhará durante seu pontificado: Leão XIV.

Para quem acompanha a história do catolicismo, sabe que a escolha de um nome para os papas não é por acaso. Ao que tudo indica, o Leão XIV se propõe não só continuar o legado do Papa Francisco (2013-2025), mas também deve se inspirar nas ações de um de seus antecessores mais famosos, o Papa Leão XIII.

Leão XIII e a Doutrina Social da Igreja

Leão XIII foi Papa entre os anos de 1878 e 1903. O século XIX foi um período conturbado para a Igreja Católica. Em 1870, durante o papado de Pio IX (1846-1878), foi consolidada a unificação italiana e a cidade de Roma deixou de ser a capital da Igreja para se tornar o centro do novo reino da Itália. Findavam-se, assim, os Estados Pontifícios, território que, desde o século VIII, era governado pelos soberanos papais. Desta forma, Vincenzo Gioacchino Pecci, que viria a se tornar Leão XIII, foi o primeiro Papa da modernidade eleito sem um Estado sob seu comando direto.

Além disso, Leão XIII é conhecido como o Papa das encíclicas. Aproveitou esse novo momento da história da Igreja para escrever diversos documentos oficiais que buscavam instruir o mundo sobre moralidade, direitos do trabalho, doutrina católica, cultura, unidade da Igreja, entre outros assuntos. O Papa desejava recolocar a Igreja em lugar de destaque nas relações políticas e sociais de uma Europa em transformação, ao mesmo tempo que tentava recuperar não somente Roma, mas o próprio poder temporal dos papas. Sem renunciar aos valores cristãos mais tradicionais do catolicismo, Leão XIII procurou indicar caminhos para organizar, social, política e moralmente, o mundo do século XIX.

Robert Prevost, papa Leão XIV. Foto: Divulgação | Ordem Agostiniana

Em sua primeira encíclica como Sumo Pontífice, Inescrutabili Dei Consilio (21/04/1878), Leão XIII denunciou o que considerava como os “males do mundo”: a rejeição da doutrina católica, o anticlericalismo dos governos europeus pós-Revolução Francesa, ímpeto do liberalismo econômico, a liberdade de ensino e de imprensa e a usurpação dos Estados Pontifícios.

Ele ainda defendeu os princípios do Concílio Vaticano I (1869-1870) e a infalibilidade papal – uma vitória do ultramontanismo, tendência muito forte da Igreja do século XIX em que havia uma defesa ferrenha do poder central do papa na organização da religião e da sociedade – e as diretrizes do Syllabus, polêmico documento escrito por Pio IX. Nele, o Papa reafirmou que a Igreja Católica não deveria se reconciliar com um mundo moderno que negava a religião como bússola moral dos governos e da sociedade.

Diante desse momento inédito em que as relações entre os Estados liberais europeus e a Igreja estavam esgarçadas devido às ações de Pio IX, Leão XIII teve que refazer pontes diplomáticas, pensar na transformação do trabalho com o avanço da Segunda Revolução Industrial na Europa do século XIX e ainda refletir sobre o papel da Igreja nesse novo momento da história do catolicismo em um mundo que, cada vez mais, contestava o papel da religião na organização social.

E este era um mundo convulsionado pelo avanço da industrialização, do imperialismo das potências europeias na Ásia e na África e do próprio capitalismo europeu como modelo hegemônico. Leão XIII foi o responsável por lançar as bases da chamada Doutrina Social da Igreja, a partir da publicação da encíclica Rerum Novarum, de 15 de maio de 1891.

Esse é um daqueles documentos históricos que é difícil, hoje, compreender. Ao mesmo tempo em que pode ser visto com um certo progressismo – dentro dos limites da Igreja Católica, claro – ao se preocupar com a condição de vida dos operários e condenar o avanço selvagem e desumano do capitalismo, também pode ser lido como um exemplo claro de defesa da ordem capitalista ao naturalizar o direito à propriedade privada e negar a existência da luta de classes na sociedade moderna e industrializada.

Foi na Rerum Novarum que o Papa condenou veementemente movimentos socialistas, comunistas e anarquistas que se formavam nas fábricas e que reivindicavam melhorias nas condições de trabalho de uma classe trabalhadora explorada e empobrecida. Para Leão XIII, esses movimentos usavam a condição dos operários para impor ilusões de acabar com a miséria em que viviam, inflar o ódio contra os patrões e usar as greves como ameaças à tranquilidade pública. Segundo o Papa, tais questões não eliminariam a desigualdade, algo comum na organização da sociedade civil, pois o sofrimento sempre foi parte da condição humana.

Com uma linguagem muito tradicional da Igreja, Leão XIII usou de certo paternalismo para instruir os ricos em seu dever de ajudar os pobres por meio da caridade e afirmou, ainda, que os trabalhadores teriam direito de se reunir em sindicatos, desde que estes fossem católicos. Tais entidades deveriam reivindicar salários justos e tempos de descanso, sobretudo para que os trabalhadores tivessem tempo livre para guardarem em oração à Deus. Já ao Estado cabia regular as relações entre patrões e operários – buscando sempre que necessário intervir por estes –, mas sem interferir nos direitos materiais e espirituais de cada um deles.

Mesmo que complexo, esse movimento de Leão XIII foi visto como um passo importante para fundar a chamada Doutrina Social da Igreja, um conjunto de princípios e ensinamentos que, ao articular a religião com a realidade social e a fé com a razão, buscam oferecer caminhos sobre questões sociais, políticas e econômicas que visem promover o bem comum e a dignidade social. Leão XIII buscou, dessa forma, colocar a Igreja no ritmo da modernidade e flexibilizar a rigidez que o reinado de Pio IX conduzira a Santa Sé.

Leão XIV: a continuação de legados?

Robert Prevost nasceu em Chicago, mas, para muitos, ele é um Papa mais latino-americano do que estadunidense. Isso porque atuou por mais de 20 anos no Peru e chegou a ser nomeado Bispo de Chiclayo em 2014, cargo que exerceu até 2023, quando foi transferido para o Vaticano. Poliglota, o Papa Leão XIII naturalizou-se peruano em 2015. O sacerdote, portanto, teve uma forte atuação missionária, além de possuir íntima ligação com a América Latina, tal como Francisco. Ele ainda é membro da Ordem Agostiana, que trabalha em favor da posição clerical, mas sem perder a atuação comunitária com os mais pobres.

A força do missionarismo também era um ponto importante para o papado leonino. Seguindo o legado de Pio IX, Leão XIII investiu no avanço das missões católicas na África e, por diversas vezes, exaltou a atuação dos missionários em catequizar populações africanas, as livrando do jugo da escravidão do corpo e da alma. Tal ponto pode ser destacado na encíclica In Plurimis (05/05/1888), endereçada aos bispos brasileiros. Nela, Leão XIII se colocou contra a escravidão negra no Império do Brasil, mas enfatizou, sobretudo, a importância do trabalho missionário na África.

Para reafirmar seu compromisso com essa questão, ele resgatou Pedro Claver, jesuíta que atuou no batismo dos escravos aportados em Nova Granada no século XVII, mas que só foi canonizado em 1888 e tornado patrono entre as missões africanas em 1896. Desta maneira, é possível prever que o avanço e o crescimento do trabalho missionário em regiões onde a Igreja não tem grande presença será uma das principais preocupações do Papa Leão XIV, tal como foi para seu homônimo do século XIX.

Em relação às transformações no mundo do trabalho, Leão XIV também deve ser uma voz atuante a favor das condições humanas de trabalho frente ao atual avanço das inteligências artificiais e dos algoritmos como mediadores das relações sociais e da própria produção da vida. Na homilia da missa de início de seu pontificado, Leão XIV se mostrou contrário ao caráter predatório do atual capitalismo – que busca gerar capital infinito em um planeta finito e à beira de um colapso ambiental – e ainda enfatizou como esse sistema marginaliza os mais pobres. Ele ainda reafirmou a importância da caridade, da fraternidade, da unidade e de uma Igreja missionária em busca da paz social.

Fato é que Francisco foi um ponto fora da curva na história do papado. Prevost parece ser o meio do caminho entre a direção iniciada por seu antecessor e o habitual tradicionalismo da Santa Sé. Tem uma forte atuação paroquial, assim como o Papa argentino, mas possui sólida formação em direito canônico e respeito à tradicional doutrina católica. Ao que tudo indica, Leão XIV pode ser um papa atuante que agrade “gregos e troianos” e ainda se propõe, tal como Leão XIII, a tentar recolocar a Igreja Católica em um lugar de protagonismo frente às aceleradas e imprevisíveis transformações da atualidade.

Referências

CHADWICK, Owen. A history of the Popes, 1830-1914. New York: Oxford University Press, 1998.

DUFFY, Eamon. Santos & Pecadores: História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

ÉPOCA NEGÓCIOS. Como a IA influenciou o novo papa a escolher o nome de Leão XIV. 12 mai. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

MARTINA, Giacomo. História da Igreja – de Lutero a nossos dias: III – a era do liberalismo. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

PAPA LEÃO XIII. Incrustabili Dei Consilio. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

PAPA LEÃO XIII. In Plurimis. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

PAPA LEÃO XIII. Rerum Novarum: sobre a condição dos operários. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

PINTO, Roberta Angélica Quirino. A imprensa ultramontana e a crise da Segunda Escravidão no Império do Brasil (1866-1888) São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2025. Dissertação de Mestrado em História Social. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

UOL. Leia na íntegra a homilia da missa de início do pontificado de Leão XIV. São Paulo, 18 mai. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 29 mai. 2025.

Como citar este artigo

QUIRINO, Roberta. Leão: a história por trás do nome escolhido pelo Papa Robert Prevost (artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historia-por-tras-do-nome-papa-leao. Publicado em: 22 de junho de 2025. ISSN: 2674-5917.

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