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Eu, um estudante de história autista

Eu, um estudante de história autista 2

Danilo no ICC Norte, UnB. Foto: Bruno Leal.

Durante muito tempo, as universidades públicas brasileiras eram espaços que privilegiavam apenas pessoas de classe média e alta, com maiores vantagens financeiras e brancas. Somente a partir da política de cotas raciais para pessoas negras e programas para indígenas é que se possibilitou uma maior diversidade nas instituições de ensino superior.

Também deve-se destacar em conjunto a preocupação com o grupo de pessoas com deficiência (PCD), ou seja, indivíduos diagnosticados com algum transtorno, distúrbio ou deficiência física ou psicológica, que necessitam de maior acessibilidade e atenção por parte dos professores, estudantes e técnicos administrativos.

Neste artigo, pretendo dar meu depoimento sobre minha experiência no curso de História da Universidade de Brasília, considerando minha perspectiva, a de um estudante autista, sobre o espaço acadêmico, convivência coletiva e impressões sobre o conhecimento histórico.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA)

É de suma importância explicar brevemente o que significa um indivíduo ser autista. O Transtorno do Espectro Autista (TEA), comumente chamado de autismo, é uma condição psicológica de desenvolvimento caracterizada pela dificuldade de interação social, foco em atividades específicas e, em casos mais severos, problemas relacionados à fala, articulação de ideias e aprendizagem, bem como ansiedade. Nesse sentido, há diferentes níveis de suporte no TEA, ou seja, distintas formas de ajuda a pessoas portadoras de TEA, considerando o grau diagnosticado por psiquiatras e seguindo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-5, escrito pela Associação Americana de Psiquiatria.

Fui diagnosticado com TEA quando tinha quatro anos de idade, em 2005, e o nível de suporte especificado nos laudos era o 1, significando que o meu grau de autismo era mais leve, denominado de Síndrome de Asperger. Dentre minhas características estão a alta capacidade de leitura e compreensão de textos, facilidade em processos de aprendizagem, foco em atividades, temas e assuntos, memorização e articulação de fala. Por outro lado, tenho dificuldades de socialização com outras pessoas, interpreto algumas falas literalmente, não entendendo o que é brincadeira e ironia, por exemplo, além de ser ansioso no cumprimento rigoroso de tarefas.  

Ingressei na Universidade de Brasília (UnB) no dia 6 de junho de 2022, por transferência facultativa, isto é, vindo da Universidade Federal de Catalão (UFCAT), no mesmo curso de História. Após dois semestres na instituição de ensino superior goiana, remotamente, consegui transferir-me para a UnB.

Naquele momento, as aulas voltaram a ser presenciais e ainda me sentia marcado, após dois anos da pandemia de Covid-19, com ansiedades, expectativas e dificuldades para me socializar e familiarizar com o ambiente acadêmico. Descobri, após cinco semestres, a Diretoria de Acessibilidade e me cadastrei no serviço pelo SIGAA em outubro de 2024. Embora tivesse sido acolhido no início pelos estudantes e docentes, o cadastro fez com que todos soubessem de meu autismo e me ajudassem.

Dentre as minhas características que me acompanharam no curso estavam a atenção plena nas aulas, a assiduidade rigorosa em todas, a leitura atenta dos textos passados e o cumprimento das atividades cobradas nas disciplinas. No começo, embora participasse das aulas, tive dificuldades de me expressar de forma objetiva e sucinta, falando prolixamente dos temas lidos e discutidos nas aulas.

“O meu interesse por História surgiu durante o Ensino Fundamental”. Foto: Bruno Leal

Além disso, não falava muito, exceto durante as aulas e quando me sentia familiarizado especificamente com pessoas no próprio Centro Acadêmico, no movimento estudantil e colegas de várias disciplinas que fiz. Desde o início, frequentei a Biblioteca Central, um espaço silencioso e calmo para ler, pesquisar e compreender livros de diversos temas, que me ajudou bastante em vários momentos.

O meu interesse por História surgiu durante o Ensino Fundamental, quando comecei a ler e me aprofundar em estudos sobre a ditadura militar brasileira, a partir do meu hábito de ouvir Música Popular Brasileira e de ver as notícias sobre conflitos mundiais do tempo presente. Esta minha vocação de pesquisar se manteve e fez com que, definitivamente, escolhesse esta área de atuação.

Nos meus estudos, preocupo-me muito com a descoberta de assuntos que não li a respeito, detalhes nunca vistos e aspectos ignorados. A novidade é que a leitura bibliográfica sobre temas historiográficos possibilitou e pavimentou novos caminhos e foi um incentivo para a continuidade de pesquisas e discussões em muitas disciplinas do Departamento de História, além de me aprofundar cada vez mais. 

Entretanto, existe algo diferente na forma como eu, um autista, entendo a história. Não é apenas estudar, mas compreender diferentes acontecimentos em seus respectivos espaços temporais e contextos, e relacionar com as próprias experiências pessoais.

Por exemplo, quando estudo acontecimentos da ditadura militar brasileira, escuto canções de Chico Buarque censuradas, ou quando leio sobre as crises econômicas na década de 1980 no mundo, meu repertório musical diversifica, incluindo outros artistas de MPB, como Vinícius Cantuária, Tunai, Fátima Guedes, Simone, Gal Costa, Cazuza, entre outros, que fizeram sucesso e estavam em trilha sonora de novelas da Globo, exibidas na época.

Além disso, não ignoro os fatos ocorridos no tempo em que vivo. Busco acompanhar as notícias, análises e discussões sobre conflitos, mobilizações, lutas e crises no Brasil e no mundo, para refletir criticamente, sobre como os processos históricos foram construídos até o tempo presente.

Nas minhas caminhadas pela UnB, observo e não acredito o quanto passaram os anos e o que aconteceu durante o curso de História. Estou participando do Programa Institucional de Iniciação Científica, mas antes atuei como monitor de disciplinas e de eventos acadêmicos de extensão. A emoção aparece; sinto-me ansioso, às vezes, com uma dose, entretanto, de ânimo para seguir a carreira de historiador. Como estudante autista, tenho convicção de que é esta profissão que seguirei.

Como citar este artigo

SALGADO, Danilo. Eu, um estudante de história autista (artigo). In: Café História. Publicado em 6 de maio de 2026. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/estudante-de-historia-autista/. ISSN: 2674-5917.

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