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Educar pela pesquisa: como o método científico pode ser usado como ferramenta didática na Educação Básica?

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Seabra situa-se na Chapada Diamantina, no estado da Bahia, a 456 km da capital Salvador. O município surgiu como entreposto comercial que ligava Jacobina a Rio de Contas por meio do trânsito de tropeiros e negociantes pela estrada real, que foi construída em função da mineração de ouro na primeira metade do século XVIII. Seguindo essa tradição, Seabra é atualmente um polo comercial para onde convergem as populações vizinhas que demandam as atividades econômicas do setor terciário.

Para além da atividade econômica, outra característica importante de Seabra é a forte ligação com grupos de descendentes de pessoas escravizadas. O município possui 11 comunidades quilombolas certificadas, das quais dez já passaram por todo o processo de regularização fundiária e estão de posse do título coletivo de suas terras. “São comunidades com muitas histórias de resistências, mas com suas narrativas silenciadas pelos discursos oficiais. Inclui-se nesse cenário os espaços escolares, que pouco fazem para incluir na parte diversificada do currículo as histórias das comunidades e seus sujeitos de aprendizagem”, argumenta o pesquisador Lauro Roberto Ferreira Oliveira.

Professor da rede municipal de educação básica de Seabra, Lauro desenvolveu uma atividade com uma turma do 9º ano do Ensino Fundamental a partir da coleta de relatos orais de moradores da comunidade quilombola do Agreste.

“No processo, devidamente orientado, os alunos aplicaram os procedimentos de pesquisa da história oral, entrevistaram vários colaboradores e produziram documento histórico por meio da transcrição da entrevista. Aplicando os princípios da história oral analítica, buscaram identificar, comparar, contextualizar, interpretar e analisar os documentos produzidos, com a finalidade de desenvolver habilidades autorais elaborando um artigo”, explica.

Pesquisa e sala de aula

Lauro conta que o ponto de partida do projeto se deu a partir de uma aula sobre cidadania e direitos da população negra no contexto do período republicano e do pós-abolição, quando os alunos manifestaram interesse de conhecer melhor os quilombos de Seabra. “O aluno é portador de historicidade e identidade em construção, e no processo de educar pela pesquisa ele assume o centro do processo de aprendizagem, isso torna inevitável que ele confronte espaços e tempos distintos, formas de ser e estar no mundo, semelhanças e diferenças, mudanças e permanências, etc. Ao entrevistar uma pessoa e entrar em contato com as historicidades de cidadãos comuns, ele se depara com a sua própria condição de ser histórico e socialmente em construção no jogo das identidades que o fazem ser quem ele é”, destaca.

A iniciativa deu origem a uma cartilha voltada para professores com sugestões de atividades a serem desenvolvidas em sala de aula a partir do uso da metodologia da história oral, com algumas possibilidades temáticas para pesquisas em comunidades e culturas quilombolas. “Ouvir e registrar as memórias coletivas das comunidades é fundamental para conhecer melhor as narrativas sobre os processos fundacionais das comunidades. Em geral, sabe-se muito pouco sobre esse processo”, defende.

Tanto a proposta didática quanto a cartilha são resultado da dissertação “Educar pela pesquisa: uma abordagem a partir da aplicação da história oral no ensino de História”, defendida por Lauro, em 2022, no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal de Sergipe. A pesquisa e a cartilha podem ser acessadas aqui.

A pesquisa está dividida em quatro partes. Na primeira delas são apresentados os objetivos, os conceitos, o problema e a metodologia da pesquisa. A segunda aborda reflexões teóricas sobre o uso da pesquisa como metodologia didática. Em seguida o autor debate a história oral como metodologia no ensino de História. E por fim é apresentada a cartilha com algumas orientações de como educar pela pesquisa utilizando a metodologia da história oral.

Educar pela pesquisa e História Oral

Defendida pelo educador Pedro Demo, “educar pela pesquisa” é uma abordagem pedagógica que propõe a construção do conhecimento a partir da investigação e da aplicação do método científico dentro de sala de aula. Nessa proposta, os estudantes devem assumir o protagonismo no processo de ensino e aprendizagem. Também é fundamental que o profissional da educação que esteja à frente da iniciativa seja um pesquisador.

“A interação sujeito e conteúdo nem sempre se dá de forma crítica, ponderando procedimentos que remetem ao básico da complexidade do pensamento científico. E, neste sentido, se inserem no ambiente escolar também visões simplistas e acríticas que remetem à facilidade, rapidez, ausência de método, síntese e processos investigativos. Escola e sociedade mantêm relações intrínsecas de transformação e interdependência”, reflete Lauro.

“Ele ressalta que a perspectiva do “educar pela pesquisa” é um campo intenso nas áreas das ciências biológicas e matemática, mas na área do ensino de História ainda não tem grande produção. “Acredito que ao trabalhar com pesquisa em sala de aula utilizando a metodologia da história oral é possível contribuir com a formação dos alunos na construção da consciência histórica, da autonomia, do poder de selecionar, opinar e agir como sujeitos protagonistas de suas próprias histórias”, conclui.

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