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Carlo Ginzburg e Marc Bloch: a relação de uma vida toda

Carlo Ginzburg e Marc Bloch: a relação de uma vida toda 2

Carlo Ginzburg e Marc Bloch. Ilustração inspirada em fotografias dos dois historiadores. À esquerda, Carlo Ginzburg (1939–); à direita, Marc Bloch (1886–1944). Arte digital produzida para fins editoriais.

O acaso parece ter sido generoso com Carlo Ginzburg. No verão de 1962, no Arquivo da Cúria Episcopal da cidade italiana de Udine, enquanto fazia suas pesquisas sobre fontes inquisitoriais para a escrita de Os andarilhos do bem (1966), um dos volumes manuscritos lhe revelou fortuitamente o curioso caso de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, o moleiro italiano do século XVI cujos infortúnios foram magistralmente narrados em O queijo e os vermes (1976). O livro se tornou imprescindível na biblioteca histórica do século XX.

Anos antes, em 1958, quando ainda era estudante na Escola Normal Superior de Pisa, deparou-se na biblioteca, de forma também quase acidental, com um esquecido exemplar da primeira edição francesa de Os reis taumaturgos, livro de Marc Bloch publicado originalmente em 1924. O caminho que o levou até a obra do historiador francês havia passado pela sugestão de seu então professor Arsenio Frugoni, um “medievalista dos mais originais” segundo suas palavras, que havia proposto ao jovem estudante estudar os Annales, a importante revista fundada quase três décadas antes por Bloch com Lucien Febvre. O acaso, mais uma vez, realizou suas proezas.

Em dezembro de 2024, Ginzburg, já o historiador consagrado e lido em todo o mundo, pronunciou a conferência inaugural de um colóquio sobre Bloch em rememoração do centenário de publicação da obra, ocorrido na Universidade Lumière Lyon 2. Sua fala tinha por título “Reler Os reis taumaturgos”, seis décadas após o feliz acaso na biblioteca em Pisa. O texto, um pouco envergonhadamente autobiográfico (fato mencionado e justificado logo no início pelo autor), é de enorme interesse para quem aprecia sua obra, assim como para quem se interessa pela obra do historiador francês executado pelos nazistas, com a colaboração de milícias francesas, em junho de 1944.

Sabemos hoje que aquela conferência foi um momento do que se pode agora ser chamado, com pesar, de anos finais da vida de Ginzburg, morto há pouco, neste mesmo mês de junho. Um momento em que estava significativamente acompanhado por Bloch.

O primeiro contato de ambos se deu em 1957, quando Ginzburg terminava o liceu e lia o Apologia da história, na tradução italiana publicada pela Einaudi em 1950. O encontro, para além da curiosidade intelectual a respeito do ofício do historiador, assumiu um caráter propriamente pessoal, que unia ambos os historiadores a partir dos efeitos próprios que a história deixou no continente europeu após a guerra que, embora tivesse cessado seus confrontos, havia legado uma pesada herança para quem sobreviveu a ela.

Marc Bloch, historiador francês, precursor da análise da desinformação, torturado e morto pela Gestapo, entrou para o Panteão nesta terça-feira, 23 de junho de 2026. Imagem:  Louis Hausalter/Le Figaro.

Vale a pena transcrever um trecho da conferência bastante elucidativo sobre isso. Ginzburg confessa ter sido arrebatado “pelas reflexões de Bloch, pela sua participação na luta contra os nazistas, pela sua prisão, pelas torturas que havia sofrido e pela sua morte heroica. Eu pensava em meu pai, Leone Ginzburg, filólogo especialista nos estudos eslavos que, após ter passado dois anos na prisão por suas atividades antifascistas, dirigira um jornal clandestino na Roma ocupada pelos nazistas; detido pelos fascistas e entregue aos nazistas que o haviam torturado, foi morto na prisão romana de Regina Coeli em fevereiro de 1944”. Em seguida, conclui em tom de quase confissão: “não havia nenhuma dúvida de que a figura de meu pai agiu como um filtro em minha relação com os escritos e a figura de Marc Bloch”.

Beleza intelectual

Para além da dimensão trágica da situação, há certa beleza intelectual quando compreendemos melhor que a relação entre dois dos maiores historiadores que conhecemos, incontornáveis na história da disciplina, foi atravessada ao mesmo tempo pela história, essa forma de conhecimento sobre a qual ambos não deixaram de pensar e que sempre se propuseram a defender, e pela história, o processo próprio da experiência mundana, que submete tudo e todos à força imperiosa, nem sempre controlável ou compreensível, de seus acasos.

O primeiro texto historiográfico de Ginzburg foi sobre Bloch, uma resenha da obra em italiano Trabalho e técnica no Medievo, de 1959. Ele tinha apenas 20 anos de idade. Alguns anos depois, em 1965, pouco depois do acaso lhe ter apresentado Menocchio, Ginzburg publicou outra resenha, dessa vez sobre a recém-publicada coletânea de textos do medievalista francês intitulada no original Mélanges historiques. A leitura do texto, quando consideramos que não havia ainda passado uma década desde que deixou o liceu, impressiona pela erudição minuciosa e pelo vasto conhecimento da obra de Bloch.  

Salta aos olhos ainda as lentes que Ginzburg vestiu para ler os escritos ditos “menores” de Bloch. Leitor sempre exigente, não deixou de criticar as falhas na organização da obra, que não contemplava, como anunciado, todos os textos publicados por Bloch e que, em alguns casos, retalhou artigos que foram então inseridos de forma incompleta e fragmentada. Uma das ausências significativas reconhecidas pelo italiano foi a do texto “Crítica histórica e crítica do testemunho”, originalmente de 1914, tema que sabemos hoje, após o Apologia da história, ter ocupado longos períodos da reflexão de Bloch sobre o fazer historiográfico. O francês tinha, na ocasião, mais ou menos a mesma idade de Ginzburg quando escrevia a resenha, e se tratava então, como considera o italiano, de um “estágio ainda embrionário” de sua posição a respeito da crítica documental e dos mecanismos de estabelecimento da verdade historiográfica, mais bem desenvolvida anos depois no Apologia.

Nesse sentido, não foi despropositada a menção ao texto de 1921 que Bloch escreveu sobre a disseminação de falsidades a partir da psicologia do testemunho, com o título “Reflexões de um historiador sobre as falsas notícias da guerra”, texto este que faz parte da coletânea resenhada. Para Ginzburg, a leitura das “Reflexões” lhe propiciou a entrada no “ateliê de Marc Bloch”. Isso, obviamente, dialogava diretamente com a leitura feita de Os reis taumaturgos, definido por ele como a “história de um erro, de uma impostura”. Aliás, questões semelhantes já haviam aparecido no prefácio que Ginzburg escreveu para a edição italiana da obra, publicada três anos antes de O queijo e os vermes.

Como traço em comum desses diferentes momentos do diálogo de Ginzburg com Bloch está, sem dúvida, o engajamento crítico com a verdade ou, na sua leitura da obra do francês, “a reivindicação da possibilidade de um conhecimento crítico, científico, dos fatos históricos singulares”. A história encarada como relato verídico e as condições de atestação da veracidade dos acontecimentos foram algumas das principais trincheiras do historiador italiano nos seus próprios combates pela história. Em que pese as possíveis críticas a respeito de suas posições teóricas, seria impossível não reconhecernele um dos seus mais engajados combatentes. Bloch foi nisso uma de suas inspirações maiores; ambos foram, no final das contas, grandes apologistas da história.

Marc Bloch entronizado no Panthéon

Marc Bloch foi entronizado no Panthéon em Paris. Homenagem mais do que justificada e merecida, ainda que tardia. A ideia de heróis da pátria, nessa forma de liturgia religiosa que o nacionalismo por vezes assume, pode evidentemente causar certo desconforto, sobretudo num contexto em que este mesmo nacionalismo é mobilizado como prática de opressão e exclusão. Porém, a imponência e os amplos significados políticos de uma cerimônia como essa, não deixam de despertar igualmente, e talvez com força maior em historiadores e historiadoras, um profundo senso de justiça e um certo sentido de reparação diante de uma vida dedicada à história, seja aquela escrita nos livros, seja aquela feita nos campos de batalha contra as muitas formas de fascismo. O uso abusivo e desonesto de seus escritos pela extrema direita francesa está longe de macular a vida e a obra do historiador.

Em 2024, em uma entrevista concedida a Simonetta Fiori, Ginzburg explicava seu primeiro contato com Bloch: “foi por acaso, aos dezoito anos”. E foi neste encontro ao acaso que descobriu que deveria, então, “tentar aprender o ofício de historiador”. E se as vidas são feitas de acasos, é o mesmo acaso da vida, que sempre lhe acompanhou em sua trajetória historiográfica, que infelizmente privará Ginzburg de acompanhar a cerimônia em homenagem àquele que lhe abriu os caminhos para a história.

Em abril de 2026, Ginzburg faria uma conferência em homenagem a Bloch justamente no Panthéon, em Paris. Ele não pôde estar presente, mas seu texto foi lido diante de uma plateia diversa e numerosa. Foi talvez, um de seus últimos escritos, completando uma relação que havia sido iniciada décadas antes, com suas primeiras leituras e seu primeiro texto publicado. A relação, sem dúvida, de uma vida toda.

Referências

GINZBURG, Carlo. Dialogue avec Marc Bloch. Presses universitaires de Lyon, 2025.

Como citar este artigo

NICOLAZZI, Fernando. Carlo Ginzburg e Marc Bloch: a relação de uma vida toda (artigo). In: Café História. Publicado em 24 de junho de 2026. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/carlo-ginzburg-marc-bloch/. ISSN: 2674-5917.

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