Ícone do site Café História

Estudantes do Ensino Médio criam minibiografias de bordadeiras maranhenses nas aulas de História

Estudantes do Ensino Médio criam minibiografias de bordadeiras maranhenses nas aulas de História 1

A historiadora Tainah Myrene de Lima Oliveira destaca que as mulheres desempenham um papel fundamental na preservação, manutenção e continuidade da tradição do bordado no município maranhense. Foto: meramente ilustrativa, gerada por Gemini (IA).

Localizada na mesorregião leste do estado do Maranhão, São João dos Patos é conhecida como a “Capital dos Bordados”. O título foi conferido devido à significativa contribuição econômica da atividade ao município, em especial para as famílias em situação de vulnerabilidade, que encontram no ofício uma fonte de renda e subsistência. Mas para além de uma atividade econômica, o bordado se tornou uma referência cultural do município e símbolo de tradição e resistência local.

A historiadora Tainah Myrene de Lima Oliveira destaca que as mulheres desempenham um papel fundamental na preservação, manutenção e continuidade da tradição do bordado no município maranhense. “Certamente, as mulheres são as grandes responsáveis pela popularização da atividade econômica dos bordados em São João dos Patos, uma prática que está fortemente associada aos papéis de gênero”, aponta.

Professora de História da Rede Estadual do Maranhão há mais de 10 anos, Tainah desenvolveu, juntamente com estudantes do Ensino Médio do Centro Educa Mais Josélia Almeida Ramos, minibiografias baseadas em entrevistas feitas com bordadeiras da Casa dos Bordados Fios e Formas de São João dos Patos. O material é resultado da dissertação “Ensino de História entre agulhas e linhas: as narrativas de mulheres bordadeiras de São João dos Patos – MA (2022-2024)”, defendida por Tainah, em 2024, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Federal do Norte do Tocantins. A dissertação e as minibiografias podem ser acessadas aqui.

Como a pesquisa está dividida

A pesquisa está dividida em três partes. O primeiro capítulo trata do contexto histórico da cidade, a tradição dos bordados e o protagonismo das mulheres bordadeiras para formação identitária e cultural da cidade. A parte seguinte é dedicada a analisar a presença das mulheres na disciplina de História e aos fundamentos teóricos que discutem o uso de biografias no ensino de História. Por fim, o terceiro capítulo aborda a Interculturalidade Crítica, em diálogo com a Pedagogia Decolonial, e a sua aplicabilidade ao Ensino de História, além de demonstrar o processo de aprendizagem dos estudantes por meio da sequência didática proposta.

“Ao ouvir as mulheres bordadeiras foi possível tematizar, não só as pautas das mulheres, mães, trabalhadoras, mas também a escrita e o ensino de História, sob a perspectiva das experiências locais das mulheres, além de superar o papel das mulheres como vítimas e sem capacidade de agência”, define Tainah.

Narrativas e potencialidades

A Casa dos Bordados Fios e Formas foi fundada em 2005, em parceria com o município e o Banco do Brasil. A documentação relacionada à fundação da associação e entrevistas realizadas com cinco bordadeiras da entidade foram a principal fonte para a pesquisa. Tainah conta que a escolha das mulheres priorizou o maior tempo de associação e a maior idade, bem como a anuência e o desejo de colaborar com a pesquisa.

“Para nós, foi de fundamental importância coloca-las como centro da investigação histórica, recuperando as histórias do protagonismo feminino, revelando suas práticas de lutas e resistências, suas dores e alegrias, suas derrotas e suas vitórias muitas vezes invisibilizadas pela geopolítica do conhecimento”, avalia.

A partir desse material, os estudantes foram orientados a elaborarem as minibiografias, proporcionando-os conhecer aspectos sociais e culturais da história local a partir da narrativa de vida das mulheres bordadeiras. Além disso, foi proposta uma visita guiada a casa de bordados, como também realização de uma oficina de bordados na escola.

“Por mais que o século XX seja chamado de “o século das mulheres” em razão das inúmeras conquistas que propiciou a ampliação dos direitos e oportunidades das mulheres exercerem o protagonismo em diversas áreas, ainda assim permanece uma invisibilidade histórica sobre as mulheres. Como se sabe, o silenciamento das mulheres foi ocasionado pela construção de uma ciência que trata dos homens no tempo e sobre os homens, ou seja, a ciência é construída pela perspectiva masculina e eurocêntrica”, conclui Tainah.

Sair da versão mobile