Nascido na aldeia Darí, às margens do Rio Negro, no Amazonas, Denilson Baniwa é um dos principais expoentes da arte indígena contemporânea do Brasil. Vencedor do prêmio PIPA 2019, que tem o objetivo de reconhecer artistas visuais do cenário nacional, Baniwa utiliza técnicas variadas para fazer intervenções em imagens, valorizando as cosmologias indígenas e os saberes ancestrais. Por meio da arte, Baniwa provoca reflexões sobre a representação dos povos originários no imaginário nacional.
Diante de uma obra tão instigante e rica, o pesquisador Dany Eris Oliveira dos Santos propôs a estudantes do Ensino Técnico a utilização da obra de Baniwa nas aulas de História por meio da produção de fanzines.
“O objetivo é, sobretudo, instigar uma abordagem decolonial para o Ensino de História através da obra do artista indígena brasileiro Denilson Baniwa, cuja transgressão ao paradigma moderno promove ruídos na história hegemônica”, explica.
A proposta é resultado da dissertação “Antropofagia à brasiliana: um estudo de morte e reexistência para decolonizar o ensino de história através da obra de Denilson Baniwa”, defendida por Santos, em 2024, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Regional do Cariri.
A dissertação pode ser acessada aqui.
Apesar de o trabalho estar dividido em três capítulos, o texto não segue uma separação temática bem definida, seguindo um fluxo mais orgânico e fluido do que o habitual. Ao longo da pesquisa, Santos aborda a arte indígena, a construção imagética ameríndia e iconografia, além de trabalhar com conceitos de decolonialidade e necropolítica.
“A escolha pelo diálogo com a arte indígena contemporânea, mediado pelas obras de Denilson Baniwa, possibilitou exercer a interculturalidade como chave de compreensão da realidade histórica brasileira a partir da perspectiva daqueles cuja imagem permanece sendo considerada o outro da sociedade nacional num país que é originalmente terra indígena”, reflete.
Arte indígena contemporânea
Apesar de transitar por diferentes estilos, uma das principais características do trabalho de Denilson Baniwa está na intervenção em imagens da Brasiliana, um acervo de registros do país, realizados, sobretudo, por artistas europeus entre os séculos XVI e XX. A documentação reúne gravuras, mapas, manuscritos e fotografias, entre outros registros históricos. “O artista, ao gravar rasuras no acervo da brasiliana, narra o passado a contrapelo enquanto denuncia a necropolítica que a colonialidade produziu e ainda produz”, analisa Santos.
Em muitas obras, Baniwa utiliza técnicas de colagem e rasura, unindo imagens históricas com elementos da cultura pop. “Na sua estética, permeada pelas lutas do movimento indígena e de apropriações dos ícones ocidentais, vê-se o tensionamento entre as fronteiras da arte, da cultura, do signo, da tradição, da modernidade e da própria história”, avalia Santos.
A proposta didática de Santos foi desenvolvida com estudantes do 2º Ano dos cursos técnicoss de Administração e Informática do Ensino Médio da Escola Estadual de Educação Profissional Aderson Borges de Carvalho, no município de Juazeiro do Norte, Ceará. O plano geral das aulas foi organizado para 11 semanas, desenvolvendo uma sequência didática com nove unidades temáticas – uma por semana. Após a finalização da sequência, uma semana foi dedicada às orientações para a confecção dos fanzines.
“A proposta consiste na apropriação dos estudantes da estética reantropofágica de Denilson Baniwa para, em linha com a decolonialidade, reescrever a história por influência da obra de Baniwa e das cosmologias indígenas. Os trabalhos discentes são apresentados na forma de fanzines. Tal escolha se deve ao caráter contracultural desse tipo de expressão artística, que carrega a mesma perspectiva engajada do movimento artístico indígena. Dessa maneira, a interculturalidade crítica é exercitada na sala de aula na experiência de estudo da história nacional por estudantes do interior cearense a partir da reescritura dessa história através das obras do artista indígena”, descreve Santos.
Em alusão à estética de Baniwa, a sequência didática recebeu o título de “Menu Ilustrado Antropofágico”. “Nas obras de Denilson Baniwa, observamos como a cosmopoética pode prover ao ensino de História uma pedagogia que não apenas informa, mas transforma. A arte, neste contexto, é a passagem de fuga da colonialidade. O passado colonizado na memória nacional se emancipa. E o valor da resistência se reproduz no processo educativo. Resistência como signo do passado e atributo do presente. Celebrando as cinzas, fecundamos o devir. O ontem e o hoje articulados num só tempo de resistência”, conclui Santos.
