Imagine que você está diante de um documento escrito antigo: uma carta, um jornal, a ata de uma reunião, um panfleto. Antes mesmo de perguntar “o que aconteceu?”, vale dar um passo atrás e observar como as pessoas falavam e o que elas entendiam como aceitável, verdadeiro ou justo naquele contexto. Afinal, toda fonte carrega não só informações, mas também regras de linguagem: quem podia falar, em que tom, com quais argumentos e com quais limites. A partir daí, as perguntas clássicas do ofício do historiador – “o que aconteceu?”, “quando?”, “por quê?” e “quem participou?” – ganham outra profundidade.
Esse jeito de olhar para as palavras como parte do próprio acontecimento é um bom caminho para se aproximar das intuições do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Ele não foi um teórico da história, mas ajudou muito a entender que ela também é feita de disputas por voz, por sentido e por justificativa. Quando uma sociedade muda a maneira de discutir seus problemas, ela pode mudar, também, suas leis, seus costumes e até sua ideia de justiça.
Nascido em 1929, em Düsseldorf, Habermas veio ao mundo com fenda labial – circunstância que marcou sua fala e, ao que tudo indica, também sua atenção à linguagem enquanto meio de reflexão e ação. Cresceu numa Alemanha marcada pela propaganda, pela guerra e pelo colapso moral do Nazismo. Já adulto, tornou-se professor, ensaísta e uma das figuras mais influentes da chamada “segunda geração” da Escola de Frankfurt.
Ao longo de décadas, Habermas escreveu sobre democracia, esfera pública, direito, ética e linguagem, além de atuar como intelectual público. Nos anos 1980, por exemplo, entrou na “querela dos historiadores” (Historikerstreit), criticando tentativas de “normalizar” o passado nazista por meio de leituras revisionistas que relativizavam o peso do Holocausto na memória política alemã. Morreu aos 96 anos, no último 14 de março de 2026, em Starnberg.
A pergunta que atravessou sua obra foi simples e difícil ao mesmo tempo: como é possível conviver politicamente após experiências de violência e autoritarismo? E como evitar que o poder vire “normal” quando deixa de ser discutido?
Agir comunicativo
Para quem está iniciando a caminhada nos estudos acadêmicos em história, Habermas pode ser útil por um motivo muito prático: ele oferece um vocabulário para estudar como as sociedades justificam aquilo que fazem. E o historiador vive cercado de justificativas.
Quase toda fonte – do sermão ao decreto, do editorial ao processo judicial – tenta convencer alguém de que algo é verdadeiro, aceitável, necessário, legítimo.
Isso permite enxergar a mudança histórica por outro ângulo. Nem tudo se explica pela força, pela economia ou pela estrutura, embora nada disso desapareça. Há momentos em que uma ordem se abala porque seus argumentos já não convencem como antes; porque grupos antes calados encontram meios de falar; porque uma explicação envelhece; porque uma nova linguagem política, moral ou jurídica começa a circular. Habermas chama atenção exatamente para essa dimensão, muitas vezes menos visível, da experiência histórica.
Habermas chama de agir comunicativo a situação em que pessoas buscam entendimento, ou seja, tentam chegar a algum acordo por meio de razões, debates, argumentos e não somente pela ameaça. Claro que a vida real está cheia de manipulações, censuras, propagandas, dissensos e violências. A relevância do conceito está justamente aí: ele ajuda a perceber quando a conversa é substituída por coação. Essa distinção é valiosa porque permite investigar por que certos conflitos terminam em acordo e institucionalização, enquanto outros terminam em desacordo, repressão, medo e silêncio.
Uma maneira bem acessível de trazer Habermas para a leitura das fontes é pensar que toda fala pública carrega, por baixo, três pedidos. Quando alguém fala, normalmente quer que você aceite: a) que o que diz sobre o mundo é verdadeiro (por exemplo, “os fatos são estes”) (o mundo objetivo); b) que o que diz é justo ou correto do ponto de vista das normas (por exemplo, “isso é direito”, “isso é injustiça”) (o mundo intersubjetivo); e c) que ela está falando com sinceridade (por exemplo, “eu vi”, “eu sofri”, “eu estava lá”) (o mundo subjetivo). Habermas chama esses pedidos de pretensões de validade.
Na prática, isso muda o nosso modo de ler documentos históricos.
Um relatório oficial, cheio de números, tenta ganhar autoridade por “parecer verdadeiro”. Um manifesto tenta ganhar força por uma “denúncia de injustiça”. Um depoimento tenta ganhar confiança pela “sinceridade”. E o mais interessante é que as fontes quase nunca trabalham com apenas uma dessas chaves: elas misturam dados, valores e emoções para produzir convencimento.
Se você começa a ler assim, o documento deixa de ser só um “depósito de informação” e vira um ato, um “ato de fala”. Em muitas épocas, o que não podia ser dito diretamente aparecia em códigos, piadas, parábolas, rituais e performances. O historiador precisa se acostumar a tratar essas formas como parte da vida pública, e não como “periferia” do que é histórico.
A Esfera pública
É aqui que entra outra ideia célebre de Habermas: a esfera pública. Ele usou essa expressão para pensar o conjunto de espaços (e meios) em que assuntos coletivos são discutidos: cafés, clubes, jornais, assembleias, igrejas, irmandades, confrarias, sindicatos, tribunais, rádio. A esfera pública não é um lugar neutro; é um campo de disputa. E a pergunta do historiador pode ser bem direta: em cada época, onde a sociedade discutia o que era “de interesse comum”? Quem podia entrar? Quem ficava do lado de fora? Quais vozes foram ouvidas e quais foram desqualificadas como “ruído”?
Outra ferramenta que conversa muito bem com a história é a diferença entre sistema e mundo da vida. Em linguagem comum, podemos dizer que existem áreas da sociedade que funcionam principalmente por dinheiro e poder (mercado, burocracias, aparelhos do Estado) (onde vigora a racionalidade instrumental) e há o cotidiano onde as pessoas constroem sentido: família, vizinhança, escola, religião, associações, cultura (onde predomina a racionalidade comunicativa). Quando a lógica do sistema invade a vida comum e manda inclusive na conversa pública – por propaganda, tecnocracia, compra de influência, censura, medo – Habermas fala em colonização do mundo da vida. Para o historiador, isso vira hipótese de trabalho: quando a esfera pública foi degradada? Que efeitos isso teve na política, no direito, na cultura e na memória?
Prestar atenção na fala não é um detalhe, mas um jeito de enxergar a mudança histórica por dentro. Por isso, para Habermas, a ideia de aprendizagem comunicativa ajuda a entender por que as sociedades mudam quando as pessoas passam a discutir de outro modo: certos argumentos começam a convencer mais, novas experiências entram na conversa, e velhas explicações deixam de “colar”. Aí acontece algo decisivo: o que antes parecia normal começa a incomodar; o que era tolerado passa a ser questionado; e o que parecia impossível vira reivindicação.
Por fim, há uma dimensão ética que interessa a qualquer leitor, dentro ou fora da academia. Habermas defendeu que sociedades democráticas precisam encarar seus passados de violência e responsabilidade: não para “cultivar culpa”, mas para impedir que o autoritarismo se reestabeleça como normalidade. A memória pública vira uma infraestrutura moral: ela ajuda a definir o que será reconhecido, o que será reparado, o que será transmitido e o que será negado.
Se eu tivesse de resumir este “Habermas para historiadores” em um conselho simples – bem no espírito habermasiano, que insistiu que a vida pública se decide na qualidade das justificativas e no direito de contestá-las – seria este: ao abrir o próximo documento, leia como se ele estivesse falando a um público. Quem fala? Para convencer quem? Com que provas? Sob quais riscos? O que está sendo pedido como verdadeiro, como justo e como sincero?
Às vezes é aí, nesse pequeno deslocamento, que você percebe que quando as sociedades falam, a história muda.
Bibliografia mínima de Jürgen Habermas
- HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. (1ª ed. alemã, 1983)
- _______________. Direito e democracia: entre facticidade e validade. 2 v. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. (1ª ed. alemã, 1992)
- _______________. Teoria do agir comunicativo. 2 v. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. (1ª ed. alemã, 1981)
- _______________. Mudança estrutural da esfera pública. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2014. (1ª ed. alemã, 1962)
- _______________. Para a reconstrução do materialismo histórico. São Paulo: Unesp, 2014. (1ª ed. alemã, 1976).
Como citar este artigo
COUTINHO, Sérgio Ricardo.Habermas se foi: mas o que fica de suas ideias para historiadores e historiadoras? (artigo) In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/a-morte-de-habermas/. ISSN: 2674-5917. Publicado em: 30 março de 2026.
