O enredo principal é a história de um casal de Y (Ariel Bronz) e Yasmin (Efrat Dor) que tenta ganhar dinheiro entretendo, quase como palhaços, a alta classe de Tel Aviv, seja com dança, música ou sexo. A partir desse pano de fundo, onde o público entende que o casal tenta ganhar dinheiro a qualquer custo, normalmente envolvendo cenas de humilhação, surge a possibilidade de Y colaborar com a criação de um novo hino para Israel que menciona a destruição de Gaza. A partir daí, a crise de consciência começa a aparecer. As cenas iniciais são vertiginosas, geram um incômodo de cores, movimento e barulho.
O que foi perceptível no filme são as representações feitas pelos personagens da trama. Lembra muito a forma perspicaz de Amos Oz retratar na sua literatura os diferentes grupos e momentos da sociedade israelense, principalmente na personagem do palhaço, quase sempre triste e enfadonho, onde suas contradições e desafios se revelam nos diálogos e nos movimentos corporais.
Nos primeiros minutos do filme, há uma festa que aparentemente é para a elite de Israel. Aqui é onde o grotesco e o exagero são mostrados na quantidade de bebidas e na forma como a dança parece ser um movimento do corpo pelo êxtase da dissociação, onde a maioria dos corpos não parece acompanhar o ritmo da música. O casal Y e Yasmin estão dançando, até que em um momento um representante militar do Estado-maior, fardado, entra na festa com uma equipe atrás dele e disputa o volume das vozes e da música com Y. Com esses personagens cara a cara, Yasmin admite para Y que é importante deixar o militar vencer.
Após essa cena, é perceptível que o personagem principal, Y, representa o próprio curso da história da sociedade israelense, como se ele fosse o zeitgeist de Israel, suscetível às suas mudanças e decisões; sua esposa Yasmin representa o presente que gera a possibilidade de futuro, sendo simbolizado com Noah, o filho do casal.
Outro personagem-metáfora, talvez o mais óbvio e caricato, é o empresário que fuma vape e tem um tom de pele alaranjado, lembrando o Donald Trump. Em uma interação entre Y e essa figura, é mostrado ao primeiro o que diz ser a cena mais brutal em Gaza. Não é revelado ao público, mas durante a cena, Y segura um pato, que me parece fazer uma referência à tradição judaica-ortodoxa de passar uma galinha em volta da cabeça para expiar seus pecados e realocá-los no animal, durante a fase de celebração de Yom Kipur. Sendo assim, ao ter contato com a barbárie, o pato faria essa função de absorver aquele pecado inenarrável do genocídio. Não necessariamente essa intencionalidade é explícita, mas a presença de um pato em uma cena como essa promoveu essa significação.
A partir desse momento, as formas indigestas de como a sociedade israelense encarou (ou escondeu seu rosto) nesse momento com Gaza vão culminar no ponto nevrálgico do filme, quando Y recebe a proposta para cantar o novo hino de Israel que faz piada e reforça a violência sobre Gaza e celebra a destruição dos palestinos, Y sai sozinho em uma viagem se questionando sobre aceitar ou não este trabalho. Seu dilema relembra a crítica de Hannah Arendt sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém, onde às vezes “fazer o próprio trabalho” ou “aceitar o que te pedem pois está seguindo ordens de cima” significa colaborar com a violência brutal em seus diversos níveis.
Nesse momento, aparece a personagem Leah, a ex-namorada de Y, que representa o passado vitimário, memória traumática, o evento do 7 de outubro, reencenado no discurso onde se aciona o passado traumático do Holocausto. No enredo, sua profissão é também como tradutora, não um ofício qualquer a ser escolhido aqui. Quando Márcio Seligman-Silva, em 2008, escreve seu artigo intitulado Narrar o trauma, a tradução é um mecanismo linguístico do trauma para aproximar mundos e narrar o inenarrável, com artifícios linguísticos como metáforas.
Em uma cena no carro com Y e Léah indo ver Gaza ao fundo, ambos conversam e Léah começa a disparar diversas histórias narradas do horror o qual foi o 7 de outubro. Em alguns momentos, as histórias reais parecem misturar os traumas entre vítimas palestinas e israelenses. Em uma cena em que Y e Léah se beijam, Y pergunta a ela se seria possível eles terem um filho juntos. Léah debocha e diz que seria impossível. Assim, a metáfora estabelecida é que, para Y, o presente e o curso da própria história de Israel não podem gerar frutos com o passado, mas sim, estabelecer uma nova ordem de funcionamento que olhe para o futuro.
Quando Y e Léah estão em uma conversa profunda sobre as próprias vidas, são interrompidos com a possibilidade de performar uma canção em um piano de um restaurante. Me parece que não é um acaso escolher um piano nesse momento, parece tanto ser uma referência ao filme O Pianista (2002) de Roman Polanski, onde a arte resiste em tempos de barbárie e parece produzir efeitos políticos, mas além disso, o piano é um instrumento do estabelecimento no território, pois se trata de um equipamento pesado, grande e de difícil deslocamento. Durante os pogroms no leste europeu, era comum ouvir piadas internas (típicas do auto-humor para lidar com violência) das famílias judaicas, onde se dizia que era comum ter judeus violinistas, pois era mais fácil de carregar esse instrumento em possíveis fugas de massacres antissemitas. Em contrapartida ao violino, o piano implica necessariamente o estabelecimento duradouro em um território.
Ainda sem saber o que fazer, no retorno para a casa que se assemelha a uma odisseia, Y convoca sua mãe já falecida para conversar sobre o que fazer. A mãe, representando a ancestralidade, não responde verbalmente, mas com castigos semelhantes aos castigos bíblicos que vêm do céu, como, por exemplo, uma chuva de pedras sobre Y, que o deixa preso em escombros. Essa cena assemelha Y aos diversos palestinos presos em escombros após bombardeios israelenses.
Y, ao voltar para casa e encontrar Yasmin, que havia decidido ir para a Europa com Noah, assim, o filme se encerra de forma muito surpreendente. Ao simbolizar Yasmin como o presente que gera o futuro possível para Israel, ao decidir ir para a Europa criar Noah com mais tranquilidade, parece sugerir que uma possível saída para a sociedade israelense é apostar na social-democracia; no reconhecimento do genocídio; na construção de memória; na valorização das testemunhas sobreviventes e auxílio financeiro, como uma possível reparação das vítimas. Ao sugerir a Europa como destino final de segurança, a insuportabilidade de viver em Israel nesse momento ganha força, onde Y, o zeitgeist de Israel, precisa decidir para qual caminho deseja seguir.
De forma muito irônica, mostra também a esgotabilidade da política israelense que se nega a confrontar seus próprios mitos fundadores e a suportar as consequências dessas decisões políticas. Onde o momento de extrema violência do genocídio também escancara violências preexistentes contra palestinos em Israel, em Gaza e na Cisjordânia em um longo período de durabilidade.
