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“Vida Privada”: um suspense investigativo que se ancora em sua protagonista

"Vida Privada": um suspense investigativo que se ancora em sua protagonista 1

"a interpretação de Jodie Foster é, sem dúvida, o maior trunfo deste filme.". Foto: divulgação.

Em quase cem anos de história do Oscar, apenas três filmes ganharam os prêmios “Big Five”, consideradas as cinco mais importantes categorias da premiação: Melhor Ator, Atriz, Roteiro Original, Diretor e Filme. Os três filmes foram “Aconteceu Naquela Noite” (1934), “Um Estranho no Ninho” (1976) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Nesta última película, a ganhadora do Oscar de Melhor Atriz foi Jodie Foster. Nas décadas que se seguiram, ela continuou e continua uma figura frequente em produções de prestígio na televisão — como em “True Detective”, série pela qual ganhou um Emmy e um Globo de Ouro — e nos cinemas do mundo inteiro. Mais recentemente, pudemos vê-la falando francês em “Vida Privada”.

A psicanalista Lilian Steiner (Jodie Foster) fica sabendo do repentino falecimento de uma de suas pacientes, Paula (Virginie Efira). É convidada pela filha de Paula para o funeral, mas, ao se apresentar, é expulsa da cerimônia pelo raivoso marido da falecida.

Logo depois, Lilian é procurada por Valérie (Luàna Bajrami), filha de Paula, que conta que a mãe se suicidou com overdose de remédios e deixou para a psicanalista uma mensagem: as palavras em alemão “kinder” (criança) e “tot” (morta) no verso de uma prescrição médica. Lilian fica intrigada.

Em seguida ao choque de perder a paciente, os olhos de Lilian começam a lacrimejar muito, sem razão aparente. Após feita uma investigação médica junto a seu ex-marido, o oftalmologista Gabriel (Daniel Auteuil), ela parte para terapias alternativas. Lilian vai então a uma hipnoterapeuta indicada por um de seus pacientes e ouve da mulher para não confundir “ceticismo com inteligência”. É curada na primeira sessão.

Lilian tenta seguir em frente, mas a vida tem outros planos. Ela tem seu carro riscado e seu consultório revirado. Ela tinha a excêntrica mania de gravar as sessões com os pacientes em fitas cassete, e uma das fitas das sessões de Paula some. De cara desconfia de Valérie, borderline, grávida e cuja vida esconde um segredo que poderia mudar tudo. Mas as certezas logo se dissolvem conforme Lilian e Gabriel investigam.

De atriz mirim a multiartista

Jodie Foster foi mais um exemplo de um fenômeno que o cinema permitiu como nenhuma outra arte: testemunhar o artista crescendo em frente às câmeras. Isso começou lá no cinema mudo: quem não se lembra do menininho traquinas que conquistou o mundo e o coração de Carlitos em “O Garoto” (1921), de Charles Chaplin? Depois dele surgiram muitos, que, em geral, abandonavam a carreira no cinema quando cresciam. Shirley Temple alegrou multidões na Grande Depressão, mas cresceu e virou até embaixatriz. A lista é longuíssima.

Conhecemos Jodie Foster através de filmes para toda a família que protagonizou no começo dos anos 70. Sua maturidade, ainda que precoce, no cinema veio em 1976, quando fez “Quando as metralhadoras cospem”, uma sátira aos filmes de gângster, e “Taxi Driver”, a visceral obra-prima de Martin Scorsese, na qual interpretava uma prostituta adolescente que Travis Bickle, o motorista de táxi interpretado por Robert De Niro, quer salvar. Como sua personagem, Jodie nunca precisou ser salva.

Ela aprendeu francês na adolescência e aproveita sua fluência no idioma para dublar suas personagens para o mercado cinematográfico francês, além de participar de produções como “Vida Privada”. Além de atriz, diversificou sua carreira indo para trás das câmeras ainda nos anos 80 e dirigiu na última década vários episódios de séries.

As polêmicas e alternativas da psicanálise

A psicanálise tem graus de aceitação dependendo do país. Na França, onde se passa o filme, psicanalistas não têm permissão para receitar remédios, assim como no Brasil. O filho de Lilian, Julien (Vincent Lacoste), diz que o que a mãe faz no consultório é tudo papo furado. Para alguns, ele tem razão: as teorias e técnicas estabelecidas por Sigmund Freud têm muitos críticos e detratores.

A hipnoterapeuta que Lilian encontra acaba levando-a a uma viagem por suas vidas passadas, na qual descobre que já conheceu e foi íntima de Paula em outra existência. Os efeitos da hipnose podem ser sentidos mesmo escutando a gravação da sessão, e é assim que Lilian faz novas descobertas. Muitas vezes, como para o paciente de Lilian, a hipnose é tida como alternativa à psicanálise, mas também tem sua validade disputada em debates calorosos.

Não há consenso em muitas áreas, mas na crítica cinematográfica podemos chegar a um: “Vida Privada” é um thriller que emociona e engaja, mas que acaba de maneira morna, quase anticlimática. Mas a interpretação de Jodie Foster é, sem dúvida, o maior trunfo deste filme.

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