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“Sr. Scorcese”: o retrato de um autor ao longo da vida

"Sr. Scorcese": o retrato de um autor ao longo da vida 2

Cena de "Sr. Scorcese". Foto: divulgação.

Quando li que Martin Scorsese, aos 82 anos, tornou-se o tema de uma série documental de cinco episódios na Apple TV+, dirigida por Rebecca Miller, prendi a respiração. Como contar a história do homem que passou a vida inteira contando as histórias dos underdogs mais famosos do cinema? Sr. Scorsese é uma obra que não chega apenas como uma simples retrospectiva de carreira, mas como uma meditação profunda sobre arte, memória e obsessão. Chega como reflexão sobre como o próprio cinema se torna a linguagem pela qual alguém (sobre)vive.

Um mestre sob o microscópio

A primeira surpresa de Sr. Scorsese é sua intimidade. Em vez de mitificar o diretor de Taxi Driver (1976) e Os Bons Companheiros (1990), a câmera de Miller o encontra cercado de relíquias: rolos de filme, anotações desbotadas, fotografias e o zumbido constante das mesas de edição como pano de fundo. A Apple TV+ conseguiu que fosse concedido à diretora um “acesso irrestrito aos arquivos pessoais de Scorsese”. Isso permite um mergulho raro em como sua vida e sua obra se entrelaçam de forma impressionante.

Vemos uma narrativa que segue uma ordem cronológica, mas com bastante liberdade emocional. Cada episódio enquadra uma fase da vida de Martin – a infância asmática no Queens, as contradições morais do catolicismo, a amizade com Robert De Niro, a autodestruição no fim dos anos 1970 e a serenidade e a maturidade dos anos recentes.

O que impede o documentário de ser uma biografia monótona e linear é o ritmo: Miller costura imagens de arquivo, novas entrevistas e pausas silenciosas com a fluidez de um jazz espiritual e confessional. As cenas são como trechos de uma peça musical cuidadosamente composta.

O evangelho do cinema

Eu confesso conhecer poucos cineastas que falam sobre filmes com a mesma devoção religiosa de Scorsese. Em uma das sequências mais marcantes, ele confessa: “Eu não sei rezar, mas sei filmar.” O Cinema, portanto, é sua mais fervorosa crença. Percebemos que a série retorna constantemente a essa tensão — entre o pecado e a salvação, a culpa e a graça — mostrando como esses impulsos “teológicos” moldaram toda a sua filmografia.

A meu ver, o maior triunfo do documentário está em conectar as dores pessoais de Scorsese aos universos morais e violentos de seus filmes. Sua infância frágil e enclausurada ecoa na claustrofobia de Mean Streets (1973), já sua culpa diante da ambição e do ego reaparece no polêmico A Última Tentação de Cristo (1988) e Silêncio (2016). Não falamos aqui apenas no clichê da vida que influencia a arte — Sr. Scorsese afirma que, para ele, ambas sempre foram a mesma coisa.

O preço da visão

A direção de Rebecca Miller é elegante e contida, evitando o glamour reverencial exagerado, muito comum em documentários sobre lendas vivas. Ao deixar que o próprio Scorsese narre boa parte da história, Miller confere à obra um tom confessional sem medo de expor as fissuras. O Scorsese que emerge aqui é inquieto, autocrítico e, às vezes, assombrado pelos compromissos que precisou fazer e decisões que tomou.

A série não evita e nem romantiza os períodos sombrios de sua carreira, como os anos de dependência química, o esgotamento criativo, a crise após a rejeição de New York, New York (1977) pelo seu público cativo. E aqui abro um parêntese para a minha experiência pessoal – New York, New York é um filme que adoro e um dos meus primeiros contatos com a obra do mestre ainda na infância. É comovente ouvi-lo admitir que temeu não ter “mais nada a dizer”, pouco antes de realizar o estupendo Touro Indomável (1980), que sem dúvida é seu filme mais visceral sobre dor e redenção. Essa honestidade — e a recusa em transformá-la em uma narrativa melosa de superação — é o que dá ao documentário sua espinha dorsal emocional.

Um diálogo com o passado e parcerias

Um dos aspectos mais fascinantes da série é o diálogo entre o Scorsese de ontem e o de hoje. Vemos o diretor assistindo aos próprios filmes num projetor, pausando em certos quadros como quem conversa com o jovem que um dia foi. „Por que cortei desse jeito?”, ele se pergunta num tom meio curioso, meio existencial. Nesses instantes, Sr. Scorsese se transforma em algo maior que um documentário: é uma conversa sobre o tempo, a memória e a identidade artística. Percebemos que até os gênios são perseguidos pelas mesmas dúvidas de qualquer criador que já sofreu com a síndrome do impostor — valeu a pena? Teve algum sentido?

A estrutura em cinco episódios de quase uma hora de duração equilibra biografia, técnica e introspecção e espelha o próprio arco cinematográfico de Scorsese – moral, enérgico e espiritual. Vemos Miller usar com maestria áudios de arquivo, filmagens restauradas e depoimentos de colaboradores como a rainha da edição Thelma Schoonmaker e o superstar Leonardo DiCaprio, mas evita reduzi-los a simples “cabeças falantes” ao usar seus depoimentos como voice over e falas breves. As vozes deles se fundem à de Scorsese, compondo um retrato coletivo do que significa dedicar a vida à arte.

E é nisso também que mora a grandeza de Sr. Scorsese ao reunir um coro de vozes famosas e premiadas — diretores, atores, editores, cinegrafistas e músicos — que acompanharam ou viveram de perto o processo criativo do diretor e agora refletem sobre sua influência. Sendo o principal deles o seu “muso” e amigo Robert De Niro. Parceiro de Martin desde Mean Streets e Taxi Driver, De Niro serve como uma âncora emocional da série. Ele fala sobre a intensidade e o senso moral de Scorsese, lembrando o momento em que o visitou durante sua crise pessoal nos anos 1970, reacendendo sua vontade de filmar.

Já DiCaprio representa a nova geração de colaborações, de O Lobo de Wall Street (2013) a Assassinos da Lua das Flores (2023). Leonardo destaca em entrevista como Scorsese exige dos atores não apenas atuação, mas uma espécie de imersão — um mergulho na verdade interior do personagem. Que assim como De Niro, DiCaprio se torna adepto de algo próximo ao Method Acting – que significa uma completa entrega do artista pela absorção das características físicas e emocionais do papel, além de não abandonar o personagem nunca durante todo o tempo da produção de um filme. Da mesma forma, temos Margot Robbie e Cate Blanchett representando o impacto geracional de seu legado. Elas discutem no documentário como Scorsese inspirou uma nova ética de atuação — comprometida com emoção, técnica e verdade moral.

Thelma Schoonmaker, já citada acima, tem papel importante ao longo dos cinco episódios, contando suas experiências com Scorsese como editora/montadora e cúmplice artística há mais de 50 anos. Sua fala ilumina o processo obsessivo de edição, descrevendo Scorsese como “um homem que luta com o tempo e a memória a cada corte”. Ainda no campo dos colegas de profissão, temos Steven Spielberg, um amigo e contemporâneo de Martin que nos oferece uma visão externa e fraterna. Em uma cena, ele relembra um telefonema desesperado de Scorsese durante a pós-produção de Taxi Driver, em meio à disputa com o estúdio sobre o tom de violência do filme — uma anedota, entre muitas, que humaniza o mito.

A lista de celebridades que aparecem na obra é bastante impressionante – e um deleite para os fãs. Entre outros, temos Daniel Day-Lewis (marido de Miller), Mick Jagger, Sharon Stone, Jodie Foster, Paul Schrader e o diretor de fotografia Rodrigo Prieto, completando o elenco de depoimentos. Aqui nós vemos Scorsese de todos os seus lados – seus colegas falam dele com reverência, mas também com franqueza, revelando o perfeccionismo, o senso de urgência e a humanidade do mestre. Esses depoimentos reforçam o principal argumento da série: Scorsese não é apenas um diretor, mas um filósofo do cinema — um homem que usa o filme como espelho moral. Para uns, um mentor exigente, para outros, um companheiro espiritual de jornada. Em todos, há gratidão por presenciarem sua busca incansável por sentido.

Imperfeições e humanidade

Se há uma falha nessa bela obra, ela está na reverência. Mesmo quando busca a intimidade, a série às vezes recua para o conforto da admiração — sobretudo ao abordar seus êxitos recentes com filmes como O Irlandês (2019) e Assassinos da Lua das Flores. Para os fãs mais devotos, aos quais me junto, parte do conteúdo pode soar familiar, reforçando uma estrutura documental clássica: “infância – ascensão – crise – legado”. Mas, ainda assim, até as repetições ganham peso — afinal, Scorsese sempre foi um artista da reiteração: filmar o mesmo pecado até compreender sua redenção. Daí seus temas recorrentes com homens brutais, dinheiro e poder. O mérito do trabalho de Miller está justamente em equilibrar respeito e vulnerabilidade, permitindo que o espectador veja tanto o gênio quanto o homem.

Em resumo, Sr. Scorsese soa como a própria confissão do mestre — não um epitáfio, mas um testamento. O homem que filmou gângsteres, santos e pecadores agora se torna o protagonista de sua própria parábola moral. Em seu último monólogo, Scorsese reflete sobre o impulso que o move desde a infância: “a necessidade de ver”. Não apenas olhar, mas testemunhar rostos, luzes, lugares e o tempo em movimento. A imagem final o mostra diante da mesa de edição, mãos pairando sobre os rolos de película, como se ainda buscasse o corte perfeito. É um gesto simples e sagrado — a prova de que, para Scorsese, o cinema nunca foi profissão, e sim oração.

Sr. Scorsese é mais que um documentário, é uma confissão disfarçada de retrospectiva. Rebecca Miller constrói um retrato tão profundo quanto comovente, que trata da arte de filmar e da arte de continuar vivendo. São cinco episódios que exigem paciência (principalmente para quem não é um admirador incondicional de todas suas obras) mas que recompensam o espectador com rara franqueza, beleza e verdade.

A meu ver, Sr. Scorsese se solidifica como um dos melhores e mais abrangentes documentários já feitos sobre o cineasta — não por glorificá-lo, mas por permitir que ele continue humano, questionador, imperfeito e eternamente curioso. Um programa essencial para quem ama o cinema e a busca interminável por significado através da arte.

Os cinco episódios estão disponíveis para assinantes da Apple tv+.

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