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Sonhos de Trem: um ensaio meditativo sobre perda e cotidiano

Sonhos de Trem: um ensaio meditativo sobre perda e cotidiano 1

Sonhos de Trem foi indicado a vários prêmios em 2025 e 2026, incluindo o Oscar. Foto: divulgação.

Corre nos grupos de cinéfilos a piada sobre a pessoa que, querendo parecer entendida de cinema, elogia a fotografia de um filme sem saber direito o que é essa fotografia – em geral com exclamações como “cada frame do filme poderia ser uma pintura”.

Como ninguém nasce sabendo, cabe o ensinamento: segundo a Academia Internacional de Cinema, fotografia “é o elemento que diz respeito à captação das imagens, por meio de filmagens em película ou utilizando câmeras digitais. Ou seja, ela abrange tudo o que se relaciona à “impressão” daquilo que será visto pelo espectador, posteriormente.” Um diretor de fotografia, então, seria o responsável por transformar o roteiro em imagens e ditar o “estilo” do filme. O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso foi indicado ao Oscar por seu trabalho em “Sonhos de Trem”.

No começo do século XX, vive, ama e trabalha um homem chamado Robert Grainier (Joel Edgerton). Ele vive não muito longe da praia, mas nunca viu o mar. Ele ama Gladys (Felicity Jones). E trabalha como lenhador. Sua função o obriga a passar longos meses longe de sua cabana e de sua família. Mas ele tem que recomeçar quando uma tragédia acontece.

O personagem Arn (William H. Macy) coloca em perspectiva o fato de ele e outros lenhadores estarem cortando árvores de 500 anos ou mais de idade. Um dos lenhadores desdenha, dizendo que quando cortassem a última árvore, a primeira já estaria grande novamente, esperando para ser cortada. Arn diz que deixamos a árvore em paz quando ereta em seu lugar, e se inicia uma guerra silenciosa quando decidimos cortá-la. E essa guerra, vemos pelo próprio Arn, dificilmente é ganha pelo lenhador.

Além da fotografia: figurinos e influências

É curioso ver o figurino da personagem feminina principal, comparado com o que o senso comum acha que as mulheres vestiam na década de 1910. Gladys está muitas vezes de calça, botas e jaqueta, num look aparentemente nada feminino. O que entendemos como a moda de uma época parte de uma visão eurocêntrica urbana. Longe dos grandes centros das principais cidades da Europa e Estados Unidos, as roupas usadas pelas pessoas podiam ser bem diferentes.

Se fosse preciso escolher um símbolo para representar toda a História do Cinema, talvez o trem fosse uma boa escolha. Na exibição inaugural dos irmãos Lumière em dezembro de 1895, eles exibiram “Chegada do Trem à Estação”, que, reza a lenda, causou frisson nos espectadores que acreditaram que um trem sairia da tela e os atropelaria. Oito anos mais tarde, Edwin S. Porter fez “O Grande Roubo do Trem” e inaugurou boa parte da gramática do cinema narrativo. Filmes passados em trens ou ao redor de estações de trem existem aos montes, no cinema mudo e no falado, no preto e branco ou no Technicolor. Trens já foram palco de romance, drama, suspense e até musical. “Sonhos de Trem” pode não ter uma grande quantidade de veículos que o nome sugere e nos faz pensar, mas é suficiente para entrar nesta seleta e curiosa lista.

Você sabe o que é o Teste de Bechdel? Proposto como uma brincadeira num quadrinho da autora Alison Bechdel, o teste consiste em analisar alguns pontos de um filme: se tiver duas ou mais personagens femininas nomeadas que conversam entre si sobre algo que não sejam homens, o filme passa no teste. Isso não acontece com “Sonhos de Trem”: apesar de ter três personagens femininas com nome – Gladys, Kate e Claire – elas não conversam entre si. O teste serve mais como curiosidade do que como avaliador da qualidade de uma película, mas é importante quando falamos de representatividade.

O Oscar de Melhor Fotografia ─ Best Cinematography no original ─ existe desde a primeira cerimônia em 1929. Entre 1939 e 1966, a categoria era dividida em duas, dando um prêmio para a melhor fotografia em filme em preto e branco e outro para a melhor em filme colorido. Assim como quase todas as outras categorias do Oscar, esta foi dominada por homens brancos ao longo da história da premiação. O primeiro negro a ser indicado conseguiu sua indicação em 2017, e a primeira mulher em 2018.

Em entrevista para as redes sociais da Netflix, o diretor de fotografia Adolpho Veloso, nascido em São Paulo e formado pela FAAP, conta uma façanha: só usaram luz natural em toda a filmagem. Isso significa que em cada cena com fogo, lamparina ou fogueira não há efeitos especiais. A natureza é também um personagem, e detalhes como este fazem de “Sonhos de Trem” um dos favoritos para o Oscar de Melhor Fotografia.

“Sonhos de Trem” é de uma simplicidade que atordoa. Quieto, e alguns podem até classificá-lo como “parado demais”, é um ensaio sobre perda e como seguir com seu dia a dia, que pode ser simples, mas com pitadas de magia que fazem da vida algo que vale a pena. Valorizar o dom da vida e nos colocar no lugar de um lenhador do começo do século XX: são algumas das façanhas alcançadas graças à magia do cinema.

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