Road movie é aquele subgênero do cinema no qual uma viagem serve ao mesmo tempo como metáfora e catalisador da mudança dos personagens. Inaugurado oficialmente com “Aconteceu Naquela Noite” (1934), embora houvesse antecedentes no cinema mudo, o road movie continua sendo queridinho dos cineastas para contar as mais diversas histórias, como é o caso de “Silver Star”.
A primeira sequência nos leva de volta para a Guerra de Secessão, no calor de uma batalha sangrenta entre Confederados e União. Quando só vemos cadáveres por todos os lados, irrompem os aplausos – trata-se, para nosso alívio, de uma encenação. Nela, há algo que não era comum de ver no século XIX: uma mulher soldado. Ela é Billie (Troy Leigh-Anne Johnson), recém-saída da prisão e atualmente sem rumo.
Numa aula de hidroginástica, conhecemos a jovem grávida Franny (Grace Van Dien, bisneta do ator de cinema clássico Robert Mitchum). Ela é a instrutora da aula, mas perde o emprego por vender drogas no clube. Ela própria é usuária de drogas e está também num tipo de liberdade condicional.
Os caminhos de Billie e Franny se cruzam quando uma desesperada Billie assalta um banco e leva Franny, que estava pedindo um empréstimo, como refém. Em troca de cinco mil dólares, Franny ajuda Billie a passar por uma blitz com uma mentira e as duas seguem viagem, juntas a contragosto.
Billie é prática e lacônica. Virou ladra de banco com um objetivo claro: conseguir dinheiro suficiente para impedir que a casa dos pais fosse tomada pela hipoteca. Franny é comunicativa e tem “street smarts”, aquela malícia que só pode ser obtida após anos aprontando nas ruas.
No começo do filme, Billie frequenta um grupo de apoio cuja atividade consiste em reencenar o momento em que foi presa. Sabemos muito bem, e também por causa do cinema, que prisão e teatro combinam. O teatro mudou a vida de vários prisioneiros ao redor do mundo, histórias inspiradoras que viraram filme na França com “A Noite do Triunfo”, na Itália com “Obrigado, Rapazes!” e nos Estados Unidos com “Sing Sing”.
Billie vê um vídeo sobre Cathay Williams, a primeira mulher a se alistar no exército norte-americano, passando por homem. No Brasil, temos nossa Maria Quitéria, que serviu no exército brasileiro também vestida de homem, mas mais de quarenta anos antes de Williams fazer o mesmo durante uma guerra dos norte-americanos contra os indígenas nativos.
Atravessando fronteiras
“Silver Star” está em exibição no festival de cinema online My Meta Stories, atualmente em sua terceira edição e apresentando 18 filmes de 11 países europeus, exibidos dentro do jogo Minecraft entre 10 e 12 de outubro. No Brasil, os filmes, tanto curtas quanto longas, podem ser vistos de graça nos aplicativos e site da Filmicca, serviço de streaming que congrega num mesmo local o melhor do cinema clássico e contemporâneo. O festival segue em cartaz até 02 de novembro.
É sempre curioso quando um filme exemplifica o “olhar estrangeiro”. Tivemos isso de maneira equivocada na última temporada de premiações com “Emília Pérez”, que é o mundo, ou antes submundo, do tráfico mexicano pelos olhos de um francês. O Brasil pelos olhos de estrangeiros rendeu até Oscar: trata-se do clássico “Orfeu Negro” de 1959, então premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Aqui em “Silver Star” temos franceses olhando para a América, felizmente sem romantização ou reforço de estereótipos.
Apesar de serem contraventoras, torcemos por Billie e Franny. Queremos, aliás, que elas se deem bem no duplo sentido da expressão: que elas convivam em harmonia, transformando caos em cumplicidade, e que saiam por cima da situação. É esse um dos superpoderes do cinema: exercitar uma forma radical, talvez até mesmo anárquica, de empatia.
