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“Raul Seixas – Eu Sou”: um retrato do maluco beleza

"Raul Seixas - Eu Sou": um retrato do maluco beleza 1

Raul Seixas: uma personalidade histórica. Foto: reprodução.

Ele preferiu ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, mas a verdade é que quase todo brasileiro tem sua opinião formada sobre Raul Seixas. Uns o consideram um gênero da música, assombrado por fantasmas como todos os gênios, enquanto outros o veem como um “porra louca” companheiro de loucuras de Paulo Coelho. Seja como for, Raulzito deixou sua marca na nossa cultura e, seguindo um filão muito em voga – as cinebiografias de músicos -, chega uma minissérie biográfica que, em oito capítulos, promete contar o início, o fim e o meio de sua história.

Iniciamos nossa aventura no final dos anos 1960, com Raulzito e Os Panteras indo em busca de um sonho no Rio de Janeiro. Lá, Raul (Ravel Andrade) não se torna cantor, mas produtor musical e compositor: é um oxímoro ambulante – mais que um paradoxo, portanto. Como um maluco do disco voador, faz algum sucesso, mas sua carreira decola com o início da parceria com Paulo Coelho (João Pedro Zappa), que se tornou co-autor de vários sucessos.

As cenas de composição das canções imitam o processo criativo da vida real: caótico, divertido, cheio de referências. Foram mais de 230 músicas compostas por Raul, e com certeza muita beleza e licença poética foram colocadas nos retratos ficcionais destes momentos em que a criatividade fluía. O fato de Ravel Andrade ser também músico, tocando violão e guitarra, o aproximou ainda mais do personagem nestes momentos, e garantiu fidedignidade às cenas que, aliás, foram um dos maiores desafios para o criador de “Raul Seixas: Eu Sou”, Paulo Morelli, e seu filho e co-diretor Pedro.

Parece ser uma constante que artistas quebrem as expectativas dos pais e neles causem desilusão, para depois, com o sucesso, causarem orgulho. Isso já foi mostrado este ano na excelente cinebiografia de Ney Matogrosso, “Homem com H”, e é o caso aqui também. E é em momentos de crise que Raul volta a Dias D’Ávila, na Bahia, em busca dos colos materno e paterno, além do companheirismo do irmão Plínio. Uma curiosidade: o pai de Raul é interpretado por Julio Andrade, irmão de Ravel.

Muitas passagens são cômicas, seja pelo exagero ou o absurdo. Algumas delas são situações no estilo “rir para não chorar”, mas a maioria é um retrato da irreverência do maluco beleza que conquistou o Brasil.

Raul Seixas: uma personalidade histórica

A canção “Gita” foi a primeira na História da música brasileira a ter um clipe produzido em cores, que estreou no Fantástico em 1974 e foi restaurado recentemente em 2021. A estética do clipe, com Raul orbitando entre cenários diversos, foi depois emulada em outro grande sucesso, “O Carimbador Maluco”.

Um dos momentos mais relevantes do ponto de vista histórico é o depoimento de Raul no DOPS em 1974, a partir do qual foi costurado todo o episódio quatro. A censura mais uma vez se mostra burra, deixando passar versos como “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, mas reclamando do verso “eu sou a luz das estrelas”, usando de boa dose de paranoia para justificar essa escolha. O episódio é arrematado quando, com maestria e aproveitando-se da ignorância dos que os cercavam e cerceavam, Raul consegue passar uma mensagem ao amigo Paulo Coelho, que o acompanhava e era o verdadeiro alvo do interrogatório.

Assistir à derrocada do ídolo é doloroso, porém inevitável. As metáforas visuais usadas para mostrar o cantor literalmente se afundando na bebida não são nada sutis, mas funcionam. Ele então resume tudo numa frase: “eu prefiro viver seis meses sendo eu do que dez anos tentando ser quem eu não sou”.

Surpreendentemente, a minissérie agrada tanto aos que preferem conhecer a vida de um ícone de forma mais linear quanto aqueles abertos às experimentações. No fundo, “Raul Seixas: Eu Sou” está impregnada do espírito que invoca a todo momento, o deste cantor e compositor controverso, questionador, irônico, faraônico.

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