Pssica é uma obra que – tanto enquanto livro quanto minissérie da Netflix – não pede licença. Ela chega como um golpe seco, sem polidez, e nos atira em uma Amazônia paraense sufocante, onde a pobreza, o crime e a superstição se misturam em uma engrenagem que parece impossível de ser quebrada. A minissérie em apenas quatro capítulos, lançada em 20 de agosto de 2025 e baseada no romance do nativo de Belém Edyr Augusto, não é mero entretenimento: é choque. É incômodo. É ferida. É desalento.
E aqui, pessoalmente, já confesso que considero esse o maior acerto da obra: ela não tenta suavizar nada. Mas nisso também mora seu maior risco. Um espectador desavisado que não tem o estofo emocional necessário para a digestão do tema pode simplesmente recuar, desistir e nunca mais voltar.
Do papel para a tela
O romance de mais ou menos 100 páginas de 2015 do escritor Edyr Augusto é conhecido por sua brutalidade estilística: as frases são curtas, diálogos que cortam como faca, personagens que mal respiram antes de morrer ou matar. Os diretores, pai Fernando (Cidade de Deus) e filho Quico Meirelles, entenderam esse espírito e, felizmente, não caíram na tentação de “embelezar” a narrativa para consumo global. Por outro lado, os Meirelles evitaram de forma mais eficaz do que Edyr a tentação da objetificação e da imagem da “Lolita” – a que desconecta uma pessoa em idade vulnerável da real falta de maturidade de seu cérebro em formação e acaba sexualizando suas atitudes como se fosse um indivíduo adulto. Em poucas palavras, considero a obra do autor permeada pelo chamado male gaze, e pelo equívoco de que a fantasia masculina do estupro ou relações forçadas acabam em prazer para a vítima.
As locações em Belém, Breves, Curralinho e em Caiena, na Guiana Francesa, dão ao projeto um realismo cru, quase documental. Não há floresta de cartão-postal. O rio aqui é lama, é ameaça, é cemitério, e a floresta é prisão e, ao mesmo tempo, esconderijo. Mas confesso: em alguns momentos, a ambição internacional da série transparece. Certos enquadramentos parecem filmados para impressionar festivais estrangeiros, não para servir à crueza da narrativa, mas isso acaba sendo apenas um detalhe que não chega a atrapalhar o somatório positivo final.
Personagens sob a sombra da maldição
Aqui temos mais um ponto onde a série se diferencia do livro. Alguns personagens receberam arcos diferentes, mudanças de gênero e desfechos alternativos no roteiro assinado por Bráulio Mantovani (indicado ao Oscar por Cidade de Deus), Fernando Garrido e Stephanie Degreas. Fiel à obra, temos a Janalice (Domithila Cattete), da qual o sequestro e a exploração formam a trama mais dolorosa. Seu sofrimento é explícito, seu personagem é profundo sem exagerar nas expressões, Domithila nos impressiona com sua atuação em quase todas as cenas. Do outro lado, temos o Preá/Jonas (Lucas Galvino), o líder dos ratos d’água – uma espécie de (des)organização criminosa que assalta barcos de carga. Preá é brutal e contraditório, ele traz a dúvida: é um monstro ou apenas produto inevitável do ambiente?
A série acerta ao dar-lhe mais nuances do que o livro e Lucas faz um ótimo trabalho. Já a personagem mais forte da série é uma completa criação dos roteiristas – Mariangel, incorporada pela atriz colombiana Marleyda Soto em excelente participação, é a estrangeira que fala da pssica, ela funciona como uma forma de consciência da narrativa. Para os mais críticos os Meirelles exageram na exploração de Mariangel como a heroína da trama junto a Janalice, já para mim a sua atuação – e a personagem – elevaram a qualidade da produção e prenderam a nossa atenção sempre que ela aparecia em cena.
O elenco de apoio também merece menção: garotos armados, atravessadores, políticos e policiais corruptos. No roteiro da série, a dimensão feminina, principalmente a de Janalice e Mariangel, recebe mais protagonismo, enquanto o livro se concentra muito mais em figuras masculinas, como Barrão, o prefeito corrupto, que na série é um coadjuvante com pouco destaque na trama.
O conceito de pssica — a má sorte inevitável, a condenação que gruda na pele — é o coração da obra, quase um personagem por si só. E aqui, a série é brilhante: não há recurso ao sobrenatural barato, não há demônios nem fantasmas. A maldição é social, estrutural, histórica e humana.
Estética e escolhas de direção
A fotografia de Glauco Firpo e Janice D’Avila é sufocante, temos cores saturadas, noites sem lua, close nos corpos suados. A trilha de Luzia Barros e Érico Theobaldo aposta no som ambiente — motores, água, respirações, sons da floresta – e em grupos e ritmos amazonenses como o (techno) Brega e o carimbó e latinos como o Zouk o Calypso. Intercalada com silêncios e sons naturais, a música surge como um grande trunfo, dando o ritmo das tramas e ajudando a potencializar o crescente desconforto a cada episódio.
A montagem às vezes força um pouco a “poesia” com frases dividindo segmentos, câmera lenta e cortes contemplativos em meio a cenas de pura brutalidade. A sensação é de que os diretores querem equilibrar feiura e beleza, e isso funcionou bem – o Pará como a terra das maravilhas amazônicas, das florestas e rios, mas também da impunidade, do crime e do machismo.
Impacto cultural e político
Aqui não há o que negar: Pssica foi (está sendo) um furacão. Em uma semana, estava no Top 10 global da Netflix, entre os conteúdos em língua não inglesa mais assistidos. No Brasil, superou até mesmo o carro-chefe da plataforma – Wandinha. O efeito foi imediato: organizações de direitos humanos citaram a série em relatórios; universidades criaram grupos de estudo; críticos estrangeiros compararam a obra à Cidade de Deus. Visibilidade e discussão sobre uma realidade que é estranha à maioria dos brasileiros, quem dirá ao público internacional. Talvez nisso esteja o real valor desse belo trabalho.
É claro que há sempre um risco quando obras assim estouram internacionalmente – de que a violência amazônica vire espetáculo exótico para consumo estrangeiro. Mas é meio que impossível definir e modular reações, e nisso também mora a reflexão. O desafio agora é garantir que a série não seja só mais uma vitrine de miséria, mas, sim, um ponto de partida para discussões reais.
Uma cicatriz necessária
A direção e principalmente o roteiro são um grande destaque para mim. Enquanto o livro de Edyr Augusto beira perigosamente o voyeurismo das jovens abusadas, Degreas, Garrido e Mantovani encontram no material original a sua verdadeira alma de denúncia social, sem romantizar, mas também sem fetichizar o tráfico sexual de meninas. Estamos aqui diante de um dos raros casos, a meu ver, onde roteiro supera o livro.
Pssica não é fácil de assistir — e nem deve ser. É ferida aberta, maldição coletiva, denúncia sem catarse e com a maquiagem borrada sobre a pele suada. Ao mesmo tempo, é obra que nos obriga a encarar um Brasil invisível, uma Amazônia que raramente aparece no audiovisual. Se Cidade de Deus nos mostrou o Rio das favelas, em Pssica os criadores nos mostram o Norte esquecido – e talvez ainda mais cruel – por não receber tanto espaço nos holofotes da mídia nacional.
Acabamos concluindo que Pssica não é superstição. É realidade. É destino social. E a série, com todos os seus excessos e acertos, nos lembra que fingir que ela não existe também é uma forma de violência.
