Quem ouve Raul Seixas cantando “mamãe não quero ser prefeito / pode ser que eu seja eleito / e alguém pode querer me assassinar” raramente para para pensar em como a possibilidade existe. O assassinato de líderes políticos vem da Antiguidade – quem não conhece a história de Júlio César e suas últimas palavras de espanto “até tu, Brutus”?
Mas muitos consideram preferível eliminar os poderosos sem deixar rastros de sangue, e o método escolhido é o envenenamento. Tendo isso em mente, muitas pessoas importantes, incluindo membros da realeza e chefes de Estado, empregaram provadores para, como o próprio nome diz, provar sua comida antes de ser servida efetivamente. Tantos quiseram, com razão, matar Hitler, e não seria de se espantar se o Führer tivesse suas provadoras – e ele teve, fato descoberto apenas em 2012, pouco antes da morte da única provadora que sobreviveu à guerra. “As Provadoras de Hitler” é uma ficcionalização de um segredo bem guardado.
A tela ainda está preta quando a música de suspense começa. Suspense: palavra ideal para descrever a atmosfera do filme. Ele começa em novembro de 1943, com Rosa Sauer (Elisa Schlott) esperando o marido Gregor voltar do front. Um dia, ela é tirada de casa sem explicação e levada com outras seis mulheres para um local nos arredores. Lá, precisam experimentar um prato de comida e esperar uma hora para garantir que não há veneno. Como em todo regime ditatorial, elas não podem dizer não.
Apesar de serem todas iguais na solidão – uma delas é solteira, há viúvas e mulheres cujos maridos estão no front -, há uma diferença: as seis mulheres são nascidas e criadas naquela região, só Rosa é diferente por ser berlinense. Por causa disso, as outras se afastam dela e a consideram metida. Porém, vencida essa barreira, as mulheres trocam experiências e surge um vínculo entre elas, especialmente entre Rosa e Elfriede (Alma Hasun), que ultrapassa os limites do bunker.
Pegas pelo estômago
Pelas conversas com o chef exclusivo de Hitler, as provadoras conseguem pintar um retrato mental do cruel ditador, que vem com um paradoxo: ele é vegetariano porque nunca se esqueceu do barulho feito por botas pisando no sangue no chão do matadouro. Aqui vale um revirar de olhos, levando em consideração que o Führer amava os animais, mas matou milhões de pessoas em campos de concentração – ou, como o sogro de Rosa coloca em palavras, “ama os animais e trata vocês como cobaias!”.
No filme, fica patente não apenas a já muito sabida crueldade de Hitler, mas também a de seus apoiadores. Ora, dificilmente quem não acreditasse nele e em suas teorias se tornaria seu subalterno, de modo que vemos os efeitos do nazismo em gente comum: ele cria monstros. Para os soldados do bunker, pessoas são descartáveis e tratadas como tal, com truculência e zero humanidade. O tenente Albert define que “eles não são como nós”. Não mesmo: as vítimas eram humanos, os algozes, monstros.
Fica clara também a exacerbação da violência contra a mulher em tempos de guerra. Muitas fragilizadas sem seus companheiros eram escolhidas para “servir ao Reich” de formas desumanas, como foi com as provadoras. Eram tratadas ainda pior do que era de praxe e, não raro, para pequenos ou grandes favores, precisavam usar o corpo como moeda de troca. Corpo que não era delas, mas do Reich, pois um agente classifica o aborto, então considerado crime, como “supressão de uma vida alemã não nascida”.
Vivendo o conflito enquanto se desenrola, a incerteza é uma companhia constante. O Dia D de desembarque das tropas aliadas na Normandia é tratado como uma fofoca entre as moças, logo depois de Rosa questionar até quando precisarão passar por aquele pesadelo. Nós, espectadores, somos privilegiados por estarmos assistindo a tudo de um tempo futuro, com conhecimentos de História, muito embora tenhamos também as incertezas dos problemas de nosso tempo.
Produção internacional com recursos da Itália, Bélgica e Suíça, o filme teve cenas gravadas em todos os três países e é falado em alemão. A protagonista Elisa Schlott é alemã, enquanto Alma Hasun é austríaca. O diretor, por sua vez, é italiano. E o filme chegou até nós justamente pelo Festival de Cinema Italiano no Brasil, que comemora 20 anos e segue gratuito até 29/11.
“As Provadoras de Hitler” é baseado no premiado romance de Rosella Postorino e marca a estreia na direção de filmes históricos de Silvio Soldini, já consagrado em narrativas contemporâneas. Tendo isso em mente, jornais italianos escreveram que o filme é “excepcional pela beleza e pela profundidade” e “diferente de tudo que Soldini já filmou”.
Em carta para o marido, Rosa pergunta: “será que podemos deixar de existir mesmo estando vivos?”. A guerra em geral e a Segunda Guerra Mundial em particular fizeram isso muito bem. Não morre só quem é atingido no campo de batalha, morre também um pouquinho ou muito por dentro quem fica e sobrevive, morre quem é vítima de outras violências da guerra, como as provadoras, morre quem perde a inocência. A guerra é uma fábrica de mortes, inclusive para mulheres que nunca chegaram perto do front. Contar essas histórias continua sendo não apenas intrigante e instigante, mas também necessário.
