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Historiadora examina os conceitos de gênero, espaço doméstico e privacidade no Egito Antigo

Thais Rocha faz doutorado no Departamento de Egiptologia do Oriental Institute em Oxford, na Inglaterra. Estudo foca em duas vilas de trabalhadores.

Por Bruno Leal | Agência Café História

Nas vilas de trabalhadores do Reino Novo (c.1550-1069 a.C.), no Egito Antigo, diferente do que apontam estudos na área, o espaço doméstico não se restringia à casa, mas projetava-se para fora dela, para as ruas e demais espaços da vila, o que é essencial para se compreender uma noção de privacidade estendida e os papeis de homens e mulheres nessa comunidade.

Esta é a hipótese central da pesquisa da historiadora Thais Rocha, que desenvolve seu doutorado no Departamento de Egiptologia da Faculdade de Estudos Orientais da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A tese tem o título provisório de Putting People in their place” – Gender, Domestic Space and Privacy in New Kingdom Egypt e é orientada pelas professoras Linda Hulin e Elizabeth Frood.

A historiadora Thais Rocha no local da antiga vila de trabalhadores em Amarna. Foto: Anna Stevens.

O estudo de Rocha se debruça sobre as dinâmicas cotidianas de duas vilas de trabalhadores do Egito Antigo. Uma delas é Deir el-Medina, fundada na 18a dinastia. Situada na região da atual Luxor, Deir el-Medina abrigava trabalhadores superespecializados que trabalhavam nas construções das tumbas reais no chamado Vale dos Reis. Era habitada por escribas, artesãos, pintores, dentre inúmeros trabalhadores de outras especialidades. Já a segunda vila estudada na pesquisa é a Vila de Trabalhadores de Amarna. Alguns pesquisadores acreditam que, na verdade, esta vila é uma continuação da primeira. Isso porque na era de Aquenáton, a mão-de-obra qualificada de Deir el-Medina foi muito provavelmente transferida para a região de Armana, onde permaneceu por aproximadamente 17 anos, para então retornar ao seu local original após a morte do faraó. Ambas se encontram, arqueologicamente, muito bem preservadas. Deir el-Medina além da evidência arqueológica, forneceu aos pesquisadores inúmeras evidências textuais.

Tanto Deir el-Medina quanto Armana foram construídas pelo governo egípcio numa área afastada do rio Nilo e que, por isso, cuidava também do abastecimento dos seus moradores: água, comida, roupas e materiais de trabalho. As duas vilas eram bem parecidas, compostas por cerca de 70 casas, todas bem próximas uma das outras, pequenas e bastante padronizadas. Todo esse conjunto urbano era cercado por muros. Na parte de fora dos muros, havia pequenas áreas de cultivo, capelas votivas e os cemitérios locais.

De acordo com a pesquisadora, compreender a vida cotidiana nessas vilas é fundamental para romper com visões simplórias e hierárquica dos papéis de homens e mulheres que nelas viveram:

– Eu começo minha pesquisa investigando a vida cotidiana no Egito Antigo partindo do princípio que a nossa percepção sobre isso não é a mesma dos antigos egípcios. Em termos gerais, o que é cotidiano para os moradores daquelas vilas? Quais eram os ritmos desse cotidiano? A minha conclusão – parcial – é que a dinâmica cotidiana nessas vilas era ditada pela demanda de trabalho no Vale dos Reis, da comunidade, e também das entregas feitas pelo governo egípcio. Elas possuem um espaço e um tempo bem específicos. A diferença começa a aparecer quando nós entendemos que pessoas são essas, quem circula pela vila, o que fazem e a que horas fazem.

Para além dos documentos funerários

Ao estudar o cotidiano das vilas de trabalhadores, Rocha consegue romper com uma documentação que tem dominado os estudos sobre o Egito Antigo: os chamados “documentos funerários”, isto é, as tumbas e as múmias, principalmente. Na pesquisa, a historiadora também opera com eles, mas vai além. Ela se concentra nas estruturas arquitetônicas das casas, na distribuição dos objetos, nas instalações e nos textos.

A Vila de Trabalhadores de Amarna foi melhor escavada do que Deir el-Medina. Por isso, a evidência arqueológica dali é mais confiável, além de estar em melhor estado de preservação das casas. Em Deir el-Medina foram encontrados inúmeros óstracos, pedaços descartados de cerâmica bastante utilizados no Egito Antigo para a escrita, um material que por ser bastante barato, acabou sendo muito mais usado que o papiro. Muitos desses escritos em óstracos estão em hierático, um estágio mais cursivo do hieróglifo. Neles, Rocha tem encontrado, por exemplo, os recibos das entregas feitas pelos homens do governo, que mostram as quantidades dos produtos que eram entregues, a frequência com que essas entregas eram feitas, os horários em que isso acontecia e dados gerais sobre pagamentos.

A historiadora Thais Rocha no Amarna Visitor Centre. Réplica da casa de Ranefer. Foto: acervo de Thais Rocha.

Na documentação escrita é possível encontrar evidências que complementam a análise da cultura material. Por exemplo, sabe-se que havia um sistema de alugueis de burros para transportar água e grãos para a vila. Sabemos também onde eles ficavam, por onde circulavam e temos informação sobre os nomes dos proprietários, sobre quem alugava, quando e onde. Há ainda informações sobre as várias festas religiosas que aconteciam na região. “Tudo isso marca o ritmo dessas duas regiões. E são muitos ritmos diferentes. Há vários níveis de circulação nos espaços da vila”, sublinha a historiadora.

A respeito do espaço da casa, Rocha defende uma concepção bastante flexível:

– A ideia de casa não pode ser vista a partir da unidade da casa em si, da moradia, mas precisa ser pensada de uma forma mais ampla. A vila funciona como casa, uma casa que deve ser pensada a partir da ideia de comunidade. Outra coisa superimportante é a condição de vida nesses espaços. Essas são vilas especializadas, como eu falei, de trabalhadores especiais, pessoas que pertenciam à elite. Não se tratava de uma vila de operários como nos séculos XIX e XX. Esses trabalhadores eram bem pagos e tinham uma posição privilegiada. Não eram explorados, ao contrário do que se pensou durante muito tempo.

A historiadora Thais Rocha no sítio de Amarna. Foto: Lindsey Godby Roberts.

Para a pesquisadora, essa ideia de “espaço doméstico expandido” nos ajuda a olhar de outra forma os conceitos de privacidade, espaço e gênero:

– As mulheres, durante a ausência dos homens, eram encarregadas de diversas tarefas que se realizavam fora da casa e que iam além da produção de alimentos e dos cuidados com os filhos. Eu uso gênero como ferramenta para pensar relações entre indivíduos, como uma categoria relacional. Levo em conta idade, status social, se são casados, em que momento do dia são visíveis e em que locais da casa ou da vila. Apesar da forte presença do governo egípcio e do controle nessas vilas, havia uma margem de liberdade no que diz respeito à vida doméstica. O espaço era inicialmente determinado pelo Estado, mas nós percebemos que as moradias eram modificadas por seus moradores, as casas eram ampliadas, às vezes juntadas com outras casas. Na pesquisa, eu tenho entendido que a privacidade deve ser circunscrita ao espaço da vila e não só da casa, havia uma clara distinção de quem pertencia ou não àquelas comunidades que, em geral, eram formadas também por famílias estendidas. Esse é o meu argumento neste momento.


Como citar essa notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Historiadora examina os conceitos de gênero, espaço doméstico e privacidade no Egito Antigo (Notícia). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/privacidade-antigo-egito/. Publicado em: 28 ago. 2017. Acesso: [informar data].

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