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Oscar 2026: filmes curtos, corações grandes

Oscar 2026: filmes curtos, corações grandes 1

Duas Pessoas Trocando Saliva (Two People Exchanging Saliva) Direção: Alexandre Singh e Natalie Musteata — França / Estados Unidos.

Pessoalmente, eu enxergo algo de profundamente honesto em curtas-metragens. A sua forma concisa (com uma duração máxima em torno de 30 minutos) não permite que tenham tempo para esconder suas intenções, nem espaço para nos distrair com excessos narrativos. Formam a categoria cinematográfica menos festejada e divulgada da indústria cinematográfica – quem aqui sabe citar seus curtas prediletos dos últimos anos?  

Pois, eles chegam até nós por caminhos muitas vezes tortuosos, como pequenos gestos — às vezes diretos, às vezes delicados ou brutais — e partem antes que possamos nos preparar para a sua ausência. Na aguardada cerimônia de 2026, que ocorrerá no dia, os curtas indicados nas categorias de Ficção (o chamado Live Action), Documentário e Animação reafirmam o curta como uma das formas mais puras do cinema: um território onde memória, política, intimidade e imaginação coexistem sem pedir permissão e sem o grande compromisso de gerar lucro por bilheteria.

Curtas de Ficção (Live Action)

O espaço frágil entre dois corpos. Os curtas de ficção deste ano orbitam um mesmo centro invisível: o desejo de conexão em um mundo que insiste na separação. Seja através do silêncio, do absurdo ou do afeto inesperado, todos exploram o momento em que duas vidas se encostam ou se cruzam — e se transformam.

A Mancha do Açougueiro (Butcher’s Stain)
Direção: Meyer Levinson-Blount — Israel

Em um supermercado de Tel Aviv, o cotidiano dos funcionários é interrompido por uma suspeita. Um açougueiro árabe é acusado de um gesto político silencioso: remover cartazes de reféns israelenses. O que poderia ser apenas um conflito pontual torna-se, sob o olhar preciso de Meyer Levinson-Blount, um estudo sobre pertencimento, ressentimento e desconfiança. A câmera observa, mas não julga. Ela nos faz entender que a violência mais persistente não é física, mas atmosférica — está no olhar demorado demais, no silêncio que pesa mais do que deveria, em gestos sutis e quase involuntários. O filme não resolve suas tensões. Ele as faz suspensas, como a própria realidade, deixando como legado para nós a reflexão.

Onde assistir: ainda sem estreia no Brasil.

O Amigo de Dorothy (A Friend of Dorothy)
Direção: Lee Knight — Reino Unido

Aqui, a solidão encontra companhia sem fazer alarde. Um jovem e uma senhora idosa e solitária desenvolvem uma amizade improvável, construída não sobre grandes revelações, mas sobre pequenos reconhecimentos e interesses em comum. Lee Knight filma o tempo com paciência, permitindo que os personagens existam antes de serem compreendidos. Há algo profundamente generoso neste curta — em uma época de crescente etarismo, reacendemos uma crença de que o afeto ainda é possível, mesmo quando o mundo parece ter se tornado pequeno demais para a ternura. Um curta que funciona como um quentinho no coração dos desesperançosos.

Onde assistir: Disney Plus

 Drama de Época da Jane Austen (Jane Austen’s Period Drama)
Direção: Julia Aks e Steve Pinder — Estados Unidos

Este é o mais abertamente irônico e irreverente dos indicados, mas sua ironia não é vazia. Ao brincar com os códigos e os clichês dos dramas de época, o filme expõe o quanto o romance, enquanto construção narrativa, sempre foi uma performance exagerada. Julia Aks e Steve Pinder entendem que revisitar o passado é também revelar o presente — e que rir das convenções é uma forma de libertar-se delas. Como crítica, diria que em alguns momentos o filme se aproxima demais de sketches de programas de comédia, mesmo assim vale a pena assistir.

Onde assistir: FILMICCA

Os Cantores (The Singers)
Direção: Sam A. Davis — Estados Unidos

Bem resumido: Em um bar, homens cantam. Ponto. Eles não o fazem para impressionar, mas para expressar emoções, decepções ou tristezas. Sam A. Davis transforma este espaço banal em um pequeno universo emocional, onde o canto é menos sobre talento e mais sobre vulnerabilidade masculina. Cada voz carrega uma história pessoal. Cada silêncio entre as notas traz significado. O filme nos oferece que a arte, em sua forma mais primitiva, pode ser o desejo de ser ouvido. É o lamento do balcão do bar em forma de música.

Onde assistir: Netflix

Duas Pessoas Trocando Saliva (Two People Exchanging Saliva)
Direção: Alexandre Singh e Natalie Musteata — França / Estados Unidos

Talvez o mais perturbador e conceitualmente radical dos indicados, este curta imagina um mundo onde beijar é um crime punível com a morte. O absurdo dessa premissa revela sua verdade com rapidez devastadora: o controle dos corpos é sempre o primeiro gesto de um sistema que teme a liberdade e a expressão humana. Singh e Musteata criam uma estética fria, quase clínica, em preto e branco, onde o desejo se torna um ato de resistência. O filme não é sobre o beijo. É sobre tudo aquilo o que o beijo pode representar. É o meu favorito pessoal dessa categoria.

Onde assistir: You Tube

Curtas de Documentário

O cinema como testemunha. Se a ficção nos permite imaginar, o documentário nos obriga a lembrar e encarar realidades. Os indicados deste ano são menos sobre explicação e mais sobre presença da dor. Eles não nos dizem o que pensar. Eles nos colocam diante do que existe — e confiam que isso é suficiente para desenvolvermos nossas opiniões.

Todos os Quartos Vazios (All the Empty Rooms)
Direção: Joshua Seftel — Estados Unidos

O jornalista Joshua foi atrás, nos EUA, de quartos de crianças que permanecem intactos após suas mortes em tiroteios escolares. Sim, eles existem, e ainda mais do que imaginamos. A câmera entra nesses espaços com respeito e cuidado. Não escutamos uma narração intrusiva. Apenas a ausência. Joshua Seftel entende que o vazio pode ser o mais eloquente dos discursos. Cada objeto é um fragmento de uma vida cheia de promessas interrompidas. Cada quarto é um universo que continua existindo sem seu centro. Fica em aberto um aprofundamento um pouco maior sobre as famílias e um pouco menos sobre as motivações de Seftel.

Onde assistir: Netflix

Armado Com Uma Câmera: A Vida e a Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud)
Direção: Brent Renaud e Craig Renaud — Estados Unidos

Este é um filme sobre o olhar jornalístico — e sobre o preço de buscar imagens onde ninguém mais quer enxergar. Brent Renaud morreu fazendo o que sempre fez: tentando mostrar o mundo aos outros, principalmente o mundo das guerras e dos conflitos internacionais. O curta organizado pelo seu irmão Craig não transforma sua morte em um espetáculo, apesar das imagens bastante explícitas. Pelo contrário, ele a transforma em silêncio. Em reflexão. Em legado. O cinema, aqui, torna-se memória viva.

Onde assistir: HBO Max

Crianças Não Mais (Children No More: “Were and Are Gone”)
Direção: Hilla Medalia — Israel

Mãos seguram fotografias de crianças e jovens que perderam suas vidas pelas mãos do exército israelense nos conflitos em Gaza. O gesto, feito em um protesto pelo fim da guerra e como denúncia de suas atrocidades, é simples, mas sua força é insuportável, principalmente para os corações cheios de ódio e ressentimento em uma guerra que parece nunca ter fim. Hilla Medalia filma o ato de lembrar como um ato político. A memória torna-se resistência. O esquecimento torna-se o verdadeiro inimigo.

Onde assistir: ainda sem estreia no Brasil

O Diabo está Ocupado (The Devil Is Busy)
Direção: Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton — Estados Unidos

Este curta observa o cotidiano de quem protege clínicas de aborto nos EUA. Não há heroísmo explícito, apenas documento de muito trabalho. Uma constante vigilância tentando garantir que outras pessoas possam existir e exercer seus direitos em paz. O filme encontra sua potência justamente nesta normalidade ameaçada por um fundamentalismo que pretende controlar os corpos e a reprodução nas mulheres. Eu considero esse um dos curtas mais impactantes e bem executados da seleção, tanto pela sua premissa quanto pela sua abordagem e apresentação dos temas.

Onde assistir: HBO Max

Uma Estranheza Perfeita (Perfectly a Strangeness)
Direção: Alison McAlpine — Canadá / Chile

Talvez o mais “diferente” dos indicados, este curta é menos sobre narrativa e mais sobre sensação. Animais, no caso 3 asnos, vagam por paisagens dominadas por instrumentos humanos. Não há explicação. Apenas coexistência. Alison McAlpine cria um poema visual sobre estranheza — e sobre nossa incapacidade de compreender plenamente o mundo que habitamos. Aqui, não entendo a colocação do curta – que mais se encaixa em vídeo arte – na categoria de documentários, requer do espectador um alto grau de abstração.

Onde assistir: ainda sem estreia no Brasil

Curtas de Animação

O território onde tudo é possível. A animação não precisa obedecer à realidade. E, justamente por isso, às vezes, chega mais perto dela e acessa mais facilmente nossos sentimentos. E, nesse ano, os curtas de animação são, para mim, o grande destaque da categoria de curta-metragens.

Borboleta (Papillon)
Direção: Florence Miailhe — França

Cada quadro, feito utilizando pintura a óleo, areia e pastel, parece pintado pela memória. Florence Miailhe transforma a biografia do nadador olímpico judeu Alfred Nakache, sobrevivente do Holocausto, em fluxo, como se o passado fosse líquido demais para permanecer fixo. O filme não reconstrói uma vida. Ele reconstrói a sensação de tê-la vivido e suas memórias. Uma das minhas animações prediletas da premiação.

Onde assistir: You Tube

Para Sempre Verde (Forevergreen)
Direção: Nathan Engelhardt e Jeremy Spears — Estados Unidos

Um filhote de urso e uma árvore. Isso é tudo que essa história nos oferece de personagens — e é também tudo o que precisamos. Sem palavras, o filme constrói uma relação que transcende a linguagem. A natureza torna-se personagem. O tempo torna-se visível.

Onde assistir: You Tube

A Garota que Chorava Pérolas (The Girl Who Cried Pearls)
Direção: Chris Lavis e Maciek Szczerbowski — Canadá

Este curta é construído como uma fábula esquecida redescoberta por acaso. Sua estética delicada e incrivelmente bela esconde uma verdade dura: aquilo que valorizamos pode nos destruir. Ainda assim, o filme acredita na possibilidade de redenção. Feito com a técnica stop-motion e com um carinho especial aos detalhes, essa animação se tornou a minha predileta ao Oscar em sua categoria.

Onde assistir: ainda sem estreia no Brasil

Plano de aposentadoria (Retirement Plan)
Direção: John Kelly — Irlanda

Um homem simples imagina o seu futuro. Mas o futuro nunca chega da forma que imaginamos. John Kelly constrói um curta sobre o tempo — não o tempo cronológico, mas o tempo emocional. O tempo que sentimos escapar pelos nossos dedos diariamente.

Onde assistir: You Tube

 As Três Irmãs (The Three Sisters)
Direção: Konstantin Bronzit — Chipre / Rússia

Três irmãs vivem isoladas em uma ilha. O mundo é pequeno, mas suas emoções são vastas e muitas vezes encapsuladas. Bronzit entende que o isolamento não é apenas físico. É existencial. E que o desejo de partir é, muitas vezes, o desejo de se encontrar. E o diretor faz isso de uma forma leve e cheia de humor. Um feito raro.

Onde assistir: You Tube

O que permanece

Os curtas indicados ao Oscar de 2026 compartilham uma mesma convicção silenciosa: o cinema não precisa de duração para ter profundidade e significado. Precisa apenas de um olhar definido e direcionado. Eles nos lembram que o mundo é feito de instantes — um beijo proibido, um quarto vazio, uma canção cantada entre estranhos, uma árvore observada em silêncio, a conexão entre irmãs, uma dor compartilhada. E que, às vezes, é nesses instantes que reconhecemos algo essencial: não apenas quem somos, mas quem ainda podemos ser – ou nunca deveríamos nos tornar.

A cerimônia da mais festejada premiação estadunidense ocorre no dia 15 de março.

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