Olivia Wilde já demonstrou em outros dos seus trabalhos de direção — como Não se Preocupe, Querida (2022) e Fora De Série (2019) — que possui um olhar estético e humor bastante apurados. Em O Convite, isso continua claramente continua evidente. O problema é que, desta vez, a forma parece muito mais preocupada em chamar atenção e arrancar risadas do que em sustentar aquilo que a história realmente pretende dizer (se é que pretende algo). Ao final da sessão, a sensação que fiquei é a de assistir a um filme com grandes ambições críticas, mas que nunca consegue fazer com que elas conversem plenamente com a execução que vimos na tela.
Entendo que a proposta aqui é interessante, mesmo que não totalmente inovadora. O longa almeja reunir suspense psicológico, sátira social, humor ácido e um jantar repleto de personagens que escondem mais do que revelam à primeira vista. É uma combinação que pretende despertar a nossa curiosidade desde o início. No entanto, conforme a narrativa avança, a impressão que tive é de que a experiência acaba se resumindo a pessoas extremamente caricatas trocando diálogos excessivamente rasos enquanto o filme insiste em convencer o espectador de que há uma profundidade a ser descoberta.
A longa jornada do Convite
A história da obra O Convite (The Invite, 2026) nasceu nos palcos. Sua origem está na peça espanhola Els veïns de dalt (Os Vizinhos de Cima), escrita por Cesc Gay e estreada em Barcelona em 2015. A comédia, centrada em um jantar entre dois casais e que evolui para discussões sobre casamento, desejo e liberdade sexual, tornou-se um enorme sucesso e passou a ser encenada em diversos países. Em 2020, o próprio dramaturgo adaptou a obra para o cinema com o filme Sentimental (2020), preservando a estrutura intimista da peça e conquistando indicações ao prêmio Goya de cinema.
O êxito da história abriu caminho para uma série de refilmagens internacionais. Nos anos seguintes surgiram versões produzidas na Itália (Vicini di casa, 2022), França (Et plus si affinités, 2024), Suíça e Coreia do Sul. Embora procure sempre manter a premissa central — um jantar entre dois casais e uma proposta inesperada que coloca seus relacionamentos à prova —, cada adaptação reinterpreta o texto original de acordo com sua cultura. Em pouco mais de uma década, Els veïns de dalt tornou-se um raro exemplo de obra contemporânea que transitou com sucesso do teatro para o cinema e recebeu múltiplas versões ao redor do mundo. Então falamos aqui de um texto bastante festejado, mesmo que um pouco gasto para 2026.
Um jantar elegante, porém, vazio
Nessa mais nova filmagem, a sensação de falta de profundidade vem, invariavelmente, da forma da adaptação do roteiro. A maravilhosa e talentosa Rashida Jones, que me perdoe, mas os personagens parecem existir muito mais como porta-vozes de ideias do que como pessoas reais. Quase todas as conversas soam cuidadosamente construídas para parecerem importantes, mas lembram raramente a maneira como seres humanos realmente se comunicam. Há pausas dramáticas, frases carregadas de simbolismo e um excesso de mistério que, em vários momentos, acaba substituindo o desenvolvimento dos próprios personagens. Pessoas sintéticas mimetizando questões reais.
Na direção, Wilde até mantém um controle visual admirável. Cada enquadramento é elegante, a fotografia valoriza os ambientes bem decorados e a movimentação de câmera tem sofisticação. Existe um refinamento técnico inegável em praticamente todas as cenas, apesar de a planta baixa do apartamento, que imagino ser em forma de “U”, ter deixado muita gente confusa. Ainda assim, toda essa beleza visual acaba funcionando como uma embalagem extremamente bonita para uma narrativa que, do meu ponto de vista, nem sempre consegue justificar o peso que atribui a si mesma. Em resumo: muito papo, pouco conteúdo. Mas não seria essa a constante nas comédias românticas estadunidenses? A pergunta aqui é retorica.
O ritmo também se torna um obstáculo importante. O filme passa boa parte do tempo prometendo que uma “grande revelação” está prestes a acontecer, mas frequentemente troca essas expectativas por novas conversas repletas de simbolismos e ambiguidades vazias. Quando as esperadas “reviravoltas” — que só surpreendem quem escolheu ignorar completamente as insinuações anteriores — finalmente chegam, elas parecem menos uma recompensa narrativa e mais uma tentativa de justificar a longa preparação construída ao longo dos dois primeiros atos.
Quando o mistério substitui a profundidade
No meu entendimento, a sátira procura discutir privilégios, relacionamentos, moralidade performática e o universo da elite econômica. A intenção é clara, mas o resultado raramente alcança a precisão necessária. Diferente de produções como O Parasita (2019) ou O Menu (2022), que conseguem equilibrar crítica social e entretenimento, O Convite transmite frequentemente a sensação de reunir debates ditos contemporâneos, mas que se revelam muito supérfluos e empoeirados para 2026.
O elenco entrega interpretações comprometidas e convincentes nas limitações do material. Todos assumem seus personagens com seriedade e conduzem os diálogos com (a possível) intensidade. Ainda assim, o roteiro insiste em confundir mistério com complexidade, dificultando que mesmo atores talentosos como Penelope Cruz, Edward Norton e a própria Olivia Wilde consigam transformar essas conversas em algo realmente natural. O único que aqui parece estar no seu elemento é Seth Rogen que, mais uma vez, faz o nerd mal-humorado, egocêntrico e antissocial. Porém, quem deseja ver ele executando esse papel com excelência está mais bem servido assistindo à série The Studio (Apple TV+).
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a intenção evidente do filme de se transformar em uma obra aberta a inúmeras interpretações. A narrativa parece construída para estimular discussões sobre seu significado e seu desfecho. Entretanto, existe uma diferença entre criar uma ambiguidade instigante e simplesmente deixar perguntas sem respostas suficientes para justificá-las.
Muito estilo, pouca substância
Isso não significa que O Convite seja um filme tecnicamente ruim. Muito pelo contrário. A produção é elegante, bem fotografada, visualmente sofisticada e conduzida por uma diretora que claramente domina a linguagem cinematográfica. O problema está justamente na distância entre aquilo que o filme acredita estar comunicando e aquilo que efetivamente chega ao espectador. Em diversos momentos, fica difícil suprimir o ranço de diálogos já mil vezes apresentados em outros inúmeros filmes com o batido tema “casais em crise”.
Na minha percepção, O Convite acaba funcionando melhor como um exercício de estilo do que como uma experiência dramática realmente interessante. Existe talento diante e atrás das câmeras, mas o resultado transmite uma sensação constante de pretensão sem conteúdo. Ao subir os créditos, o maior mistério já não é descobrir o que realmente aconteceu naquela noite, mas entender como uma produção com tantos profissionais competentes conseguiu dizer tão pouco enquanto insistia em parecer tão importante.
No fim das contas, para mim, o verdadeiro erro não foi receber o convite. Foi aceitá-lo.
