Impossível ter vivido nos anos 70, 80 e até nos 90 sem nunca ter ouvido falar do IRA. O chamado Exército Republicano Irlandês foi uma organização paramilitar que lutou pela reunificação da Irlanda e pela independência total da Irlanda do Norte em relação ao Reino Unido. Surgido no início do século XX, o grupo ganhou destaque exatamente durante os chamados Troubles (décadas de 1960 a 1990), um período de intensos conflitos políticos e sectários entre nacionalistas católicos (que apoiavam o IRA) e unionistas protestantes (favoráveis à permanência no Reino Unido).
O IRA usou táticas de guerrilha, atentados e assassinatos, sendo responsável por milhares de mortes. Embora muitos vissem seus membros como “lutadores por liberdade”, outros os consideravam terroristas. Em 1998, o grupo declarou cessar-fogo após o Acordo de Paz da Sexta-Feira Santa, marcando o início do fim do conflito armado.
Em resumo, a organização que hoje aparece em obras de ficção mais como um braço do terrorismo e do tráfico de armas internacional já foi uma milícia formada pelo proletariado irlandês em busca de independência do imperialismo inglês. Na mais remota das hipóteses, entramos em contato com o conflito por filmes premiados como Em Nome do Pai (1993) de Jim Sheridan com Daniel Day-Lewis no papel de Gerry Conlon – um homem (e personagem real) que é erroneamente condenado por um atentado a bomba em um Pub. Ou pela banda irlandesa U2 que nos trouxe sucessos como a música Sunday Bloody Sunday (1983) que fala do “domingo sangrento” onde 14 civis desarmados foram mortos pelo exército em Derry durante um protesto pacífico.
Do que se trata a série Say Nothing
Baseada no livro homônimo de Patrick Radden Keefe, Say Nothing é uma adaptação afiada, sensível e brutalmente honesta sobre o período mais sangrento da história recente da Irlanda do Norte. A série, que tem produção do canal FX e distribuição internacional pela plataforma da Disney+, mergulha na trajetória de figuras centrais do Exército Republicano Irlandês (IRA), misturando thriller político com drama psicológico e documentário emocional. É televisão de altíssimo nível — e, inegavelmente, uma espécie de acerto de contas com memórias que ainda pulsam vivas.
O ponto de partida do enredo é o assassinato de Jean McConville, uma mãe de dez filhos sequestrada em 1972 – pela suposta acusação de ser uma informante dos ingleses – e “desaparecida” por décadas. Ela foi uma entre as muitas vítimas do conflito. Mas esse é só o fio que puxa uma teia de histórias interligadas, centradas principalmente nas irmãs Dolours (Lola Petticrew) e Marian Price (Hazel Doupe), filhas de ferrenhos militantes e protagonistas da ala mais radical do IRA.
A série se apoia nas revelações do “Belfast Project” – um projeto de história oral conduzido entre 2001 e 2006 pelo Boston College, nos Estados Unidos, para registrar depoimentos confidenciais de ex-membros do IRA e de grupos paramilitares protestantes sobre suas experiências durante a época de fogo dos conflitos armados. No centro das entrevistas temos a Dolours madura, interpretada por Maxine Peake.
Os entrevistados falaram com a promessa de sigilo absoluto até suas mortes, o que, a certo ponto, foi desrespeitado, criando uma grande polêmica em torno das responsabilidades do projeto. O acervo de entrevistas secretas com ex-militantes ajuda a construir uma narrativa que transita entre o passado e o presente com precisão emocional e histórica.
Produção e estética
Joshua Zetumer (RoboCop) é o criador dessa minissérie em 9 emocionantes capítulos. A direção é assinada em 4 episódios por Michael Lennox (Derry Girls), que traz força à tela com sua habilidade em equilibrar tensão narrativa e autenticidade visual. Filmada em Belfast, Liverpool e Londres, a série aposta em uma paleta de tons frios e granulados que recriam a atmosfera dos anos 1970 com meticulosidade e que exaltam os verdes da natureza irlandesa. Cada quadro parece carregar um peso: sejam os becos estreitos de Belfast ou as celas úmidas e sujas das prisioneiras em greve de fome, tudo exala urgência, precariedade e trauma.
Elenco de primeira linha
Lola Petticrew é um furacão dramático como a jovem Dolours Price. Sua performance, entre a arrogância purista da juventude e a devastação do arrependimento e da decepção de seus ideiais, é o coração pulsante da série. Maxine Peake, como a Dolours mais velha, oferece uma interpretação bem mais contida, desencantada e amargurada. Hazel Doupe também brilha como Marian, a irmã e companheira de batalhas de Dolours, especialmente nas cenas de radicalização e armamento do movimento. Anthony Boyle (Brendan Hughes) e Josh Finan (Gerry Adams) como cabeças da guerrilha completam o elenco principal com atuações marcantes, especialmente nas dinâmicas internas do IRA, onde amizade, lealdade e traição andam de mãos dadas.
Entre história e memória
A minissérie não é necessariamente didática, mas também não deixa o espectador perdido no turbilhão dos fatos. Say Nothing assume riscos ao tratar figuras reais com complexidade e nuance — o caso de Gerry Adams, por exemplo, é emblemático: interpretado com frieza estratégica, o personagem aparece ao longo dos episódios como um político hábil e ambíguo que caminha pelas sombras, que mesmo no comando das ações calcula todos seus passos para garantir sua dissociação total da milícia. Por ser um agente real, cada episódio vem sempre acompanhado no final de uma nota lembrando que Adams nega qualquer envolvimento direto com o IRA.
As cenas de tortura, bombardeios e greves de fome (em especial as sequências de alimentação forçada de Dolours) são incrivelmente intensas – daquelas que viramos o rosto para não olhar- e até mesmo por isso são também muito necessárias. É a imagem da profunda devoção a uma causa. Mesmo assim a série não glamouriza nem romantiza o terrorismo por apologia, vemos como ideologias, mesmo que legitimadas por séculos de opressão colonial, podem se degenerar em decisões moralmente devastadoras, reforçando que qualquer forma de organização guiada pela força e pelo medo, em algum momento, desmorona moralmente.
A única crítica que, a meu ver, poderia ser feita a essa bela obra é a ausência de vozes protestantes ou vítimas civis do outro lado do conflito. Mas isso não deve pegar o espectador de surpresa, pois a série tem foco claro: o olhar é o dos ex-militantes católicos e contrários ao Reino Unido. Essa escolha narrativa traz profundidade, mas pode limitar a visão panorâmica de todos os acontecimentos do período. Ainda assim, como recorte, adaptação literária e retrato psicológico de um grupo específico, Say Nothing é corajosa e potente, principalmente quando trata de temas como coragem e lealdade.
Com episódios praticamente impecáveis, Say Nothing é um drama histórico que não suaviza suas representações. Seus personagens estão presos a um passado que não passa, e a série, como o livro que a inspirou, recusa qualquer forma de esquecimento confortável ou de redenção. É uma obra que nos informa, perturba e comove. E digo mais do que isso: é uma das melhores obras audiovisuais já feitas sobre o conflito irlandês até hoje.
